Vem romance aí

Peça um bom champanhe. Ela vai flutuar… E se você somar às bolhinhas um papo espirituoso, uma grande história de amor pode se anunciar

Por Cristina Ramalho

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Audrey e Bogart em Sabrina (1954), de Billy Wilder – ela é irresistível, o champanhe dá o clima de felizes para sempre

Houve um tempo em que um champanhe no gelo, o hálito perfumado e os bons modos faziam maravilhas por qualquer sujeito conquistador. Tudo isso ainda conta grandes pontos na dança do acasalamento, mas os moços quase sempre esquecem as mesuras, as moças andam cada vez mais petulantes e o glamour tem escorregado na pressa do mundo. Ah, que falta de touché! Porque meu amigo, se você quiser mesmo transbordar naquela noite, tem de pedir champanhe. O legítimo, claro: francês, da região de Champanhe, onde as bolhas alcançam o estágio mais alto da alma do negócio. Só a chegada da garrafa na mesa já causa aquele frisson. Não é à toa que nas melhores cenas as moças dão risadinhas a cada gole nas bolhinhas, e que as não muito lindas ganham charme extra quanto mais você bebe. Champanhe faz maravilhas pela humanidade.

Também não é de admirar que em boa parte das canções românticas, das mais charmosas às escandalosamente cafonas, botam champanhe no verso. “You go to my head…like the bubbles in a glass of champagne” (“Você me sobe à cabeça…como as bolhas de uma taça de champanhe”, em You Go To My Head, standard na voz chique de Dinah Washington); ou a batidíssima “Champagne per brindare a un incontro” (em alguma cantina você já ouviu essa com Peppino di Capri). Até no rap dos combativos Racionais o champanhe entrou como elemento de conquista: “Eu ponho pânico, peço champanhe no gelo/aquele balde prateado, em cima da mesa/ dá o clima da noite, uma caixa de surpresa” canta o Mano Brown em Estilo Cachorro. Cada um a seu modo apostando no clássico efeito da bebida que Mademoiselle Coco Chanel, uma das mulheres mais sabidas da história, gostava de anunciar: “Bebo champanhe quando estou apaixonada e mais ainda quando não estou”.

Bebendo estrelas

Como tudo que é sedutor, o champanhe vem cercado de incoerências: dá logo ideia de pecado, mas entrou para história como sendo a criação de um monge pacato, o beneditino Dom Pérignon (1668-1715). Diz a lenda que em 1697, quando ele provou o vinho mais fermentado que de costume, e fortemente cerrado com uma rolha, Pérignon se derreteu: “Estou bebendo estrelas”.  Anteviu, bidu, que uma bebida mágica dessas serviria à celebração, à festa, às coisas boas da vida – apesar de nascida na região de Champanhe, onde aconteceram várias das batalhas mais sangrentas que se tem notícia no Ocidente.

Só que assim como a alta-costura é quase sinônimo de França, embora tenha sido um estilista inglês o seu pioneiro (Charles Worth, o primeiro a fazer desfiles de moda), o champanhe, francesíssimo, é na real uma descoberta dos ingleses. Em 1662 o cientista Christopher Merret descobriu em Oxford que alguns produtores de vinho locais, acidentalmente, misturaram açúcar e melaço ao vinho, e isso formava bolhas (um método de fermentação dupla que ficou conhecido como champenoise). Outras contradições temperam a bebida: é branca, mas a maioria dos champanhes vem de uvas pretas; é cara e chique à beça, porém o solo ideal para o bom champanhe tem de ser pobre.

Pérignon aprimorou a fermentação dupla, já dentro da garrafa, e a viúva Clicquot (sim, a da Veuve Clicquot) inventou os processos de remuage (girar as garrafas) e dégorgement (degolar). Assim retiraram-se as impurezas e o líquido ficou transparente e límpido, em vez de escuro e feio, como era nos primeiros tempos.

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Não, você não bebeu demais. As primeiras taças de champanhe teriam sido inspiradas no sutiã meia-taça. Sophia mostra como se faz

Onde tem champanhe, tem ideia marota. A taça, por exemplo: agora é aquela flüte, considerada a mais adequada para se sentir os efeitos da bebida. Até pouco tempo eram as taças baixas, arredondadas que – não, você não bebeu demais – lembram um sutiã. Não é por acaso: dizem que as primeiras taças foram inspiradas no decote de Madame Pompadour, amante do rei Luís XV (1710-1774). Madame se assanhava com a bebida, e essa história de nobre saltitante e corado fez o champanhe ser abolido na França durante a estóica Revolução Francesa. Coube a Napoleão Bonaparte trazer o champanhe de volta, glorioso: “Nas vitórias é merecido, nas derrotas é necessário”, dizia ele. Quando a França invadiu a Rússia, os russos igualmente sucumbiram às bolhas. O czar Alexandre II criou a primeira marca de luxo de Champagne, a Cuvée de Prestige, e mandou embalar a bebida em garrafas de cristal puro. Nascia o champanhe Cristal, outro chiquérrimo.

Com uma história dessas, e um efeito devastador, o champanhe por si só já se incumbe de toda a farra, mas é bom forrar o estômago com classe condizente. Como, moça? O rapaz vai pedir champanhe? Se vier com ostras ou, melhor ainda, caviar, ele não está brincando. Derreta-se. Esse homem merece. Agora, se você, leitor, estiver diante de uma moça que salpica glamour na bebida – algo como jogar um morango dentro da taça e mordiscá-lo depois, distraída, agarre-a já. Essa é especial. É da categoria de Brigitte Montfort, a espiã de livros de bolso, espécie de James Bond de saias, que só bebia Dom Pérignon com cerejas frescas. Portanto, aqui vai um pitaco de aconselhamento: diante da moça, não regule as gentilezas. Peça um bom champanhe. Ela vai flutuar… E se você somar às bolhinhas um papo espirituoso, uma grande história de amor pode se anunciar. Vale a pena, rapaz. 

PARA BRINDAR

Champanhe, o legítimo, tem de vir da região de Champanhe, certo? Além disso, deve ser produzido a partir de uvas Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier (juntas ou sozinhas). A denominação de origem vai fazer toda a diferença na hora de seduzir ou de mostrar seu apreço aos amigos. Cultivar esse hábito custa algum dinheiro, claro, mas há alguns rótulos que cabem num orçamento mais apertado, quando o assunto é comemorar uma grande data. As grandes safras e marcas tradicionais, porém, têm preço estratosférico – não adianta chorar. Os sommeliers Sérgio Jr, do restaurante paulistano Sallvattore, e Max Cohn, da importadora Interfood, indicam rótulos disponíveis no Brasil que contemplam variadas situações financeiras. É sempre bom lembrar, como avisa Sérgio Jr, que o champanhe deve ser servido entre 10 e 12 graus. Quando estupidamente gelado, vão embora as notas de frutas e flores que caracterizam a bebida.

taittinger_brut_reserveEDITADOTaittanger Brut Reserve – Produzido desde 1932, ficou famoso por ser o preferido de James Bond. A marca é citada nos livros de Ian Fleming, criador do agente secreto, e faz figuração em 007 – Ordem Para Matar (From Russia With Love), de 1963, com o mais charmoso dos Bonds, Sean Connery. É feito com Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier. Disponível na TodoVino.

Sleever-NocturneEDITADOTaittanger Nocturne Sec – A categoria sec é levemente doce, um degrau antes da demi-sec e da doux (a mais forte em dulçor). O charme desta edição da Taittanger fica pelo apelo pop da garrafa, que imita um globo de espelhos. Boa para a farra no camarote. Disponível na TodoVino.

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Dom Pérignon Blanc Vintage – Clássico entre os clássicos, Dom Pérignon é produzido pela casa Moët & Chandon a partir de uvas Pinot Noir e Chardonnay. As colheitas excepcionais de 2002, 2003 e 2004 permitiram as edições safradas que hoje estão no mercado. Disponível na Bewine.

cristalEDITADOCristal – Em 1876, o czar Alexandre II pediu que a casa Louis Roederer reservasse a ele, anualmente, seu melhor champanhe. A marca nasceu do material usado para sua garrafa, o mais puro cristal. E até hoje é sinônimo de luxo. Disponível na Varanda Delivery.

Cattier-BrutCattier Brut – Vendido no Brasil a cerca de R$ 230, pode ser considerado um produto módico, quando falamos em champanhe. Começou a ser produzida em 1918 pela família Cattier, que já era proprietária das vinhas em Chigny Les Roses desde o século 18. Disponível na TodoVino.

armandEDITADO

Armand de Brignac Brut Gold – Com preço que ultrapassa levemente a casa dos R$ 2 mil, é o que se pode chamar de champanhe ostentação. Foi eleito o melhor do mundo em 2010, numa degustação às cegas promovida pela revista Fine Champagne. Disponível na TodoVino.   * Preços e disponibilidade pesquisados na data da postagem.

PARA LER

veuveEDITADODelícia é a história da viúva Clicquot, com lances de novelão de Janete Clair. A Viúva Clicquot, de Tilar J. Mazzeo (ed. Rocco), conta a história de Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin, nobre falida que ficou viúva aos 27 anos de François, filho único do casal Clicquot, no início do século 19. Ela mudou o jeito de fazer e vender champanhe, e abriu caminho para grandes mulheres de negócios. O livro conta tudo: tem genro sexy e escorregadio no caráter, uns rapazes mais jovens que fizeram a firme viúva tremer na base, as manobras políticas de um mundo que se dividia em guerras com Napoleão Bonaparte à frente. E entre os brindes do poder, Barbe-Nicole desliza, cai e, claro, volta mais forte sempre. Aos 40 anos, era uma das mulheres mais ricas e famosas da Europa. Não admira que tenha feito seu nome como La Grande Dame.

Dinah Washington, com o auxílio luxuoso do trompetista Clifford Brown e sua turma da pesada, fala sobre o que lhe sobe à cabeça nessa canção:

(Crédito das fotos: reprodução)

20 comentários

  1. Certa feita visitei a Moët-Chandon para fazer um especial sobre champanhe, com Rubens Ewald. Na volta de Epernay, passamos por Paris e ali entrevistamos Juarez Machado, que confidenciou que todas as manhãs, antes de começar a pintar/desenhar, toma umas taças de champanhe acompanhadas de uma “douzaine” de ostras! A vida é mais bela com champanhe! Delícia de texto, Cris! tin-tin!
    Beijos

    Curtido por 2 pessoas

  2. […] Meu amigo Sergio Crusco e eu ouvimos essa história verídica, e desde então nunca mais falamos drinque. É dringue e pronto. Assim batizamos nosso novo blog, que fala de bebidas,  suas histórias, traz umas músicas que combinam, dicas de barmen e tal. Para uma estreia festiva, abrimos com champanhe. Tomara que vcs curtam. Aqui vai o dringue.com Cheers! https://dringue.com/2015/03/06/vem-romance-ai/ […]

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