Conversa de bar

Bar é como praia, um endereço que indica nossa filosofia de vida, sinaliza nossos gostos e a nossa turma. No Rio ou em São Paulo, encontre a sua, escolha um dos cinco petiscos mais saborosos do cardápio e um bom drinque para harmonizar.  Damos umas receitas no final do post… e músicas, claro!

Por Cristina Ramalho

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Bar Pirajá, em São Paulo: imitando o borogodó carioca na terra da garoa

Aconteceu mesmo e virou manchete: quando Hitler mandou afundar uns navios na costa brasileira, em 1942, a vingança anti-alemã dos brasileiros foi imediata. Rapazes ilustres do Rio de Janeiro dos anos 40/50, como os jornalistas João Saldanha, Sérgio Porto e Sandro Moreyra, saíram apedrejando os bares alemães de Ipanema. O Bar Berlim, o primeiro deles, fechou rapidinho e só reabriria dois anos depois com a alcunha de Bar Lagoa – é, aquele mesmo, dos garçons mal humorados, e do privilégio de estar numa das melhores locações do Rio. O Rhenania também trocou de nome, fechou e se transformou no Jangadeiro, mais tarde o ponto predileto da Tônia Carrero, Drummond, do Jaguar e até do Carlos Lacerda.

O Adolph, bar fundado em 1887, virou o alvo predileto — o nome é auto-explicativo. Mas ganhou defesa ilustre: no meio do quebra-quebra, Ary Barroso subiu numa cadeira e bradou para a turba: “Meus filhos, o dono desse bar é meu amigo. Ele é tão brasileiro quanto vocês”, falou o autor da Aquarela do Brasil, fazendo os black blocks saírem de fininho, com o rabo entre as pernas. E de Bar Adolph virou Bar Luiz, e está lá até hoje, na rua da Carioca, no centro. Já em Ipanema só o Zeppelin, bar cujo dono era o Oskar, sujeito muito forte e muito alemão que veio parar no Brasil com um circo (ele era o trapezista), manteve firme o nome germânico. O Zeppelin sofreria pequena reforma e ganharia uma freguesia que eu vou te contar: Millôr Fernandes, Paulo Mendes Campos, Nelson Motta, Rubem Braga, Vinicius…

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Paulo Mendes Campos: “O homem que toma o bar errado pode gerar aborrecimentos ou ser a vítima deles”

Esses bares eram todos de donos alemães e poderiam esconder algum loiro da Gestapo disfarçado de garçom, . Mas a psicologia também explica. Bar é como praia, um endereço que indica nossa filosofia de vida, sinaliza nossos gostos e a nossa turma. Atacar um bar é ir direto ao porto da alma do inimigo. Veja que os ingleses, sempre gozadores, quando se referem a uma coisa ou lugar que não servem para eles vão logo dizendo “Sorry, it’s not my pub”. É a versão notívaga da nossa “Não é a minha praia”. Frequentadores podem até trocar de bar, mas a escolha do favorito é sempre movida por boas razões e é preciso selecionar bem, como já ensinava um bebum memorável, o escritor Paulo Mendes Campos: “O homem que toma o bar errado pode gerar aborrecimentos ou ser a vítima deles”.

Seja qual for a razão para você escolher o seu bar – aquele de sempre, onde o garçom é uma flor de sujeito, o chope desce mais macio ou o Dry Martini é feito como se deve –, é ali que você reconhece, docemente, estar em casa. Até nas andanças por aí afora, viajando, só de passagem, pode ser na prainha do fim de semana, em Paris ou Bangcoc, a gente acaba elegendo a mesa de algum bar específico como porto seguro, um espaço para ir várias vezes e se situar no final do dia. Um lugar de instantes bons, para curtir civilizadamente a solidão ou papear distraído, festejar momentos de excitações e descobertas. Paquerar. Exagerar.

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Noel Rosa: conversa de botequim era com ele mesmo

Dependendo da turma, dá até para fazer história. No Rio, por exemplo, a combinação infalível de batucada ( de preferência na caixinha de fósforo), cerveja e mulher desinibida fez florescer os grandes cronistas, o cinema, a bossa nova, os sambas maravilhosos de Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Cartola…a lista continua. Em Paris, cada boteco de esquina nos ensina arte e filosofia, quando se passeia pelo Café de Flore, ou o Deux Magots, e quase dá para ver os tempos em que Picasso rabiscava nos guardanapos para não pagar a conta, Scott e Zelda Fitzgerald tomavam grandes porres, ou, um pouco mais tarde, Sartre chiava sobre a falta de colorido na existência. Muito jazz bom e literatura beatnik rolaram em pés sujos de Nova York a Chicago, São Francisco, New Orleans… Fofocas, livros fabulosos e comentários cheios de witty, insuperáveis, eram da turma do Algonquin, bar no hotel nova-iorquino de mesmo nome. Na Round Table do Algonquin Dorothy Parker e H.L. Mencken, entre tantos geniais, se inspiraram e escreveram muitos dos melhores textos dos Estados Unidos. Amigo da turma, Hemingway preferia deixar sua marca em Havana, onde celebrou os mojitos, a macheza e a arte de escrever em frases curtas.

Em São Paulo, Adoniran cantou vários bares, Paulo Vanzolini imortalizou outros, e embora aqui não seja o Rio, imitamos tão bem que em alguns casos até somos melhores: taí o Pirajá que não nos deixa mentir. Em tantos outros temos chope do bom, pastéis e quitutes que são o requinte da baixa gastronomia. Temos ótimos papos também. Para completar a atmosfera desse post, escolhemos aqui algumas das melhores comidinhas e bebidinhas que agradam cariocas e paulistas. Já para aquele clima amigo, extensão da sala de casa, é melhor você escolher o seu bar e se render. Sim, o botequim certo faz muito pela alma da gente.

41_empada-a-moda_mini115_a-nega-e-minha-e-ninguem-tasca_EDIT1. Empadinha do Pirajá: ela vem deliciosa, úmida, a massa desmanchando na boca. Peça a empada à moda. Ou então o super bolinho de abóbora com carne seca. E o bar, com seu chope perfeito e caipirinhas incríveis, é de dar inveja a carioca. Vai bem com A Nega É Minha e Ninguém Tasca – cachaça mesclada com rapadura e limões taiti e siciliano. Vai lá: Av. Brigadeiro Faria Lima, 64 (SP).

361_orange-spicy_EDIT35_croquete-de-carne_EDIT2. Croquete do Astor: tem de carne e tem de mortadela, difícil decidir. Se preferir ser chique, lá tem ostras e moule et frites também. E é um dos bares mais bonitos de SP. A versão carioca fica na esquina mais incrível do Rio, Ipanema, quase Arpoador. Vai bem com Orange Spicy – gim Bulldog, água tônica, casca de laranja, anis estrelado e bitter de grapefruit. Vai lá: Rua Delfina 163 (SP) e Av. Vieira Souto, 110 (Rio).

Bracarense_Bobozinho350chopeEDIT3. Bolinho de bobó de camarão do Bracarense: um dos bares mais famosos do Rio, o típico para ir tomar um chope na calçada, com o maiô pingando depois da praia. Seus salgadinhos são de comer ajoelhado, mas o bolinho de bobó figura no top list. Há ainda a empadinha de carne seca com requeijão, o camarão empanado, o bolinho do bacalhau… E um chope geladíssimo. Vai lá: Rua José Linhares, 85 (Rio).

100 anos - Bar Urcacaipirinhas4. Pastéis do Bar Urca: outra instituição carioca mais pela vista abracadabrante do que pela bebida ou comida (que é portuguesa com certeza) mas a cerveja é geladíssima, os pasteis muito bons, a sardinha frita vem bem crocante e a Urca… bem, é a Urca. Para curtir com caipirinha tradicional, de maracujá ou morango. Vai lá: Rua Cândido Gaffré, 205 (Rio).

bolinho_feijoadaEDITelectra5. Bolinho de feijoada do Aconchego Carioca: um bolinho feito de feijão preto, recheado com couve e bacon, e não é que ficou bom? Na filial paulista, a chef Kátia Barbosa criou um bolinho de virado à paulista. Tem também casquinhas de siri, empadinhas, um jiló em lâminas feito por Claude Troisgros… Perfeitas com Electra, cerveja do estilo Vienna Lager, de amargor acentuado, especialmente criada para o Aconchego Carioca pela premiada cervejaria Bamberg, de Votorantim (SP). Vai lá: Rua Barão de Iguatemi, 379 (Rio) e Alameda Jaú, 1372 (SP).

RECEITAS

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ORANGE SPICY (Astor)

Ingredientes

50 ml de gim Bulldog

3 gotas de bitter de grapefruit

1 pedaço de casca de laranja

3 unidades de anis estrelado

1 canela em pau

Modo de preparo

Aromatize um copo torcendo a casca de laranja em seu interior. Coloque gelo, o anis estrelado, uma dose de gim, a angustura e complete com água tônica. Decore com casca de laranja e canela em pau.

BOLINHO DE BOBÓ DE CAMARÃO DO BRACARENSE

Ingredientes

1 quilo de aipim

3 gemas

Sal a gosto

4 colheres (sopa) de manteiga

1 quilo de camarão

300 gramas de Catupiry

Óleo para fritar

Modo de preparo

Descasque, cozinhe e amasse o aipim. Deixe na geladeira de um dia para o outro. No dia seguinte, bata à mão o aipim e acrescente as gemas, a manteiga e o sal. Misture bem a massa. Passe um pouco de manteiga nas mãos. Pegue um punhado de massa, abra e acrescente o catupiry e dois camarões. Feche os bolinhos enrolando e tirando o excesso de massa. Frite em óleo pré-aquecido em fogo médio.

O camarada que fez a arte do CD decerto tomou o bar errado: tascou a cara da Elizeth Cardoso onde deveria estar a da Aracy de Almeida

Essa, sim, é Elizeth, na canção-emblema de quem bebe bem – quer dizer, muito. E mais umas músicas brasileiras de bar que a gente ama…

*

Crédito das fotos: Paulo Mendes Campos (Reprodução/Acervo Paulo Mendes Campos/IMS), Noel Rosa (Reprodução), Cozinheira (Reprodução/clipart) demais imagens (divulgação e reprodução dos sites oficiais e redes sociais dos bares)

5 comentários sobre “Conversa de bar

  1. ainda bem que li este post recém-saída do Veloso, depois de duas caipirinhas merecedoras do prêmio “melhor de São Paulo”, as famosas coxinhas também premiadas e um risole de bobó de camarão sensacional, novidade da carta. ainda assim deu água na boca!! tudo delicioso, de cabo a rabo!

    Curtido por 1 pessoa

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