O dia em que Phil Collins virou drinque

Conhece Tom Collins? Essa era uma pegadinha famosa nos Estados Unidos nos tempos do faroeste. E acabou batizando um clássico dos coquetéis, que dá um clima 60`s ao ambiente

Por Cristina Ramalho

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Tom Ewell apela para o Tom Collins para conquistar Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado

Primeira história:

O casalzinho apaixonado vai jantar no hotel cinco estrelas. Pedem entradas, vinho, o fino. Noite estrelada, para ficar de mãos dadas e fazer grandes planos. Falta só uma musiquinha mais com a cara deles, que essa que está tocando no salão está meio devagar. O rapaz chama o garçom: “Não tem Phil Collins?” O garçom, sem alterar a expressão, faz uma mesura: “Pois não”. Vai até o bar do hotel e canta o pedido: “Solta um Phil Collins”. O barman, sorriso alvo e cabelos nos trinques, acredita que não se decepciona um cliente jamais. “Ôpa, é pra agora!” Segura o copo alto, vira, bota gelo, mexe o drink lá dentro, enfeita com uma cereja, cheio de si. Bebida na bandeja. À mesa, o garçom materializa o desejo do freguês: “Seu Phil Collins, senhor”. E o rapaz, que só queria que trocassem o CD, arregalou o olho: “Ué, o que é isso?”

Até hoje não sabemos o que foi servido. Tá certo, o barman pode ter escorregado na pressa e entendido que queriam um clássico Tom Collins. Fazia sentido. Fato é que ele foi alvo de gozação dos colegas para o resto da semana.

Segunda história:

Tarde da noite, pipocas na mão, Valéria e Vera estão vendo um filme antigo na TV. Vera não se conforma com sua falta de memória. “Não consigo guardar nome de ator nenhum”. Valéria, a praticidade em pessoa, sugere o método da repetição: “É fácil. Decora um nome só e usa sempre em qualquer conversa. Foca nele e repete comigo”. Na tela, correm os créditos do filme – Valéria lê entre os atores o nome Ron Leibman. “Vamos lá, Vera: Ron Leib-man.(repete dividindo as sílabas) Ron-Lei-b-man. Mais uma vez.”

Corta. Dias depois, Valéria, que é atriz, arruma um bico como divulgadora de festa numa nova boate. Distribui os flyers, sorriso vendedor: “Gente, vem conhecer a casa, a festa vai ser boa”. Quem vai? – perguntam uns entusiasmados. Valéria nem pestaneja: “Ron Leibman já confirmou”. E se delicia, por dentro, com a súbita intimidade que todos parecem ter com o velho ator coadjuvante de Hollywood. “Jura? Nossa, adoro ele!”

O que uma história tem a ver com a outra? 

1- O engano. O drinque Tom Collins, no duro, surgiu de um mal-entendido.

2 – As duas cenas aconteceram de verdade, aqui em São Paulo mesmo.

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Don Draper, na série Mad Men, toma uns bons Tom Collins para ficar mais calminho

Tom Collins era o nome de uma pegadinha famosa nos botecos americanos ali por 1870. No bar, os malandros escolhiam um incauto e perguntavam: “Você conhece o Tom Collins?” O outro, fatalmente, responderia: “Nunca ouvi falar”. “É, mas ele acabou de sair daqui falando mal de você”. O pobre sujeito não acreditava muito, mas ficava com a pulga. Dali a pouco, um cúmplice da farra surgiria: “Vi o Tom Collins falando mal de você lá no armazém agora. Ah, se fosse comigo, eu ia tirar logo isso a limpo” . E assim o boato se espalhava, mais uns dois ou três chegavam com a mesma fofoca (“É mesmo? O Tom Collins?”), até a vítima ficar engasgada e sair pronta para dar uns sopapos no difamador. Só que o Tom Collins era um nome falso como uma nota de dois dólares. Nunca existiu.

A própria origem do drinque balança na dúvida: americanos apregoam a autoria, com data: 1874, época desse joguinho de salão acima. Já os ingleses juram que é deles: John Collins, garçom num pub, teria criado a bebida em Londres, em 1860.

O que nos importa é que o drinque, além de real, é uma delícia do tempo da gravata, dos sapatos lustrosos, dos cabelos bem aparados, e é refrescante com aquele ar sessentinha. Para beber ao lado de uma mesa de pé palito, quem sabe um disco do Stan Getz dando clima. Ou ao som de uma rumba salerosa para tirar o pitéu de cintura fina para dançar. Tom Ewell bem que se esmerou nos Tom Collins para ganhar a vizinha Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado. E Betty Draper, na série Mad Men, preparava os seus com cereja por cima para agradar seu belo e complicado Don.

Ocean Club 50th FoodRECEITA DE TOM COLLINS

Ingredientes

50 a 60 ml de gim

30 ml de suco de limão

Club soda para completar

1 colher (sobremesa) de açúcar

1 rodela de laranja ou limão para decorar

1 cereja ao maraschino

Gelo

Modo de Preparo

Misture bem o gim, o suco de limão e o açúcar numa coqueteleira, com bastante gelo. Despeje o líquido num copo alto com gelo a gosto. Complete com club soda e mexa suavemente com a colher bailarina de baixo para cima, duas vezes, para a água não perder o gás. Enfeite com uma ou duas rodelas de fruta e a cereja.

Ôpa, alguém pediu Phil Collins? No bar o cliente pode ter razão, mas por aqui, preferimos a trilha de Mad Men …

*

Créditos das Fotos: O Pecado Mora ao Lado e Mad Men (Reprodução), Drinque Tom Collins (Divulgação/One&Only Ocean Club Bahamas)

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