Rum, limão e gelo: o jeito cubano de turbinar seu caldo de cana

Além do Mojito e do Daiquiri, Cuba tem um segredinho quase desconhecido, mas muito fácil de reproduzir por aqui. É o Guarapo con Ron – ou seja, garapa com alguma safadeza

Por Sergio Crusco

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Ernest Hemingway e sua turma da pesada no balcão do Floridita, em Havana, nos anos 50 – na esquina da barra, Spencer Tracy

Quem vai a Cuba quer dringue. Impossível não lembrar da frase de Ernest Hemingway e não querer fazer exatamente o que ele propunha: “Mi Mojito en La Bodeguita, mi Daiquiri en El Floridita”. Foi o que fiz, ora essa. A patetice turística causou a primeira grande decepção: o Mojito da Bodeguita é um asco – aguado, chocho, sem sabor, pouco gelo, hortelã murcha, uma turminha de maus bofes preparando seu coquetel como quem assina o ponto. Tomei melhores em qualquer outro lugar. Deve ter sido bom nos tempos em que Hemingway pintava o caneco em Havana. Hoje ele teria trocado de bar, aposto.

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Daiquiri do Floridita

Ah, mas Cuba é sabor e sorriso, sim, não tenha dúvida. Fuja da Bodeguita e corra pra o lado oposto do circuito de Hemingway. O Daiquiri do Floridita é outro papo. Não tem maquininha tipo Frozen Margarita para picar o gelo, não – tudo é feito num equipamento rústico de madeira que faz croc-croc-croc, estilo raspadinha de praia. A sensação é a de beber uma nuvem. A vontade, nunca mais sair de lá. O lugar preferido do escritor ficava guardado por uma corrente, o estofado da banqueta aparentemente não havia sido trocado, levava bronca o abelhudo que instalasse o bumbum ali para uma foto (vi uma moça europeia passar pelo vexame). Era o último lugarzinho do balcão, imagino que ele gostasse dali para não ser incomodado. Cá no Google descubro que hoje há uma escultura dele no tal cantinho – tipo Drummond em Copacabana, Mafalda em San Telmo, Fernando Pessoa no Chiado. Manja a alegria dos turistas? Melhor eu não tê-la visto e não pagado o mico de reproduzir a pose petrificada de Hemingway: cotovelo no balcão, olhar bonachão.

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Vai uma fotinho com Ernest?

Minha grande sorte em Havana Velha foi ter como anfitrião o senhor Eugenio, ex-professor de história que então sobrevivia como guia turístico. Levou-me a recantos pouco prováveis, visitamos obras de restauração de prédios históricos, conversei com operários, todos felizes e orgulhosos de seu ofício. Reformavam uma antiga loja de perfumes, o governo de Fidel queria relançar uma marca esquecida de essências para seduzir os viajantes.

Depois de muito andar, Eugenio me perguntou se eu conhecia o guarapo. Espertalhão, disse que sim, claro, no Brasil também havia muita cana e era programa de domingo beber seu sumo, melhor ainda acompanhado de um pastel (e toca explicar o que era o pastel de feira). “Mas esse garanto que você não conhece”, puxou-me pelo braço e entramos num bar com pátio, onde um grupo tocava aquelas maravilhas da canção cubana.

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Guarapo com rum em Havana é aqui, ó, no La Mina

Era o La Mina, onde uma maquininha velha moía a cana e um bartender esperto preparava a maravilha, com apenas três simples safadezas adicionais: rum, suco de limão e muito gelo picado. Nunca imaginei que um caldinho de cana pudesse perder toda a inocência. Pedi o segundo. “Cuidado, rum cubano é perigoso”, advertiu Eugenio, com um sorrisinho que dizia tudo sem precisar de mais palavras. “Não disse?”

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RECEITA DO GUARAPO CON RON

É moleza e bem divertido. Da próxima vez que for à feira, leve algumas garrafinhas de garapa para casa. Escolha um bom rum e mãos à obra. Na coqueteleira com bastante gelo, misture uma dose (50 ml) de rum, o suco de meio limão (ou mais, se quiser caprichar no toque cítrico) e cerca de 200 ml de garapa. Bata bem e coe num copo longo cheio de gelo picado. O bar Cuba Libre, em Washington (EUA), tem uma receita mais prafrentex, com um pé no mojito: rum, Grand Marnier, garapa, hortelã, limão e soda. Tente e depois nos conte.  

Cuba, Peru e Brasil cantam a doçura da cana.

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Dessa eu tenho orgulho: com Las Ferrín na Casa de La Trova

PS. Depois de Havana, fui parar em Santiago de Cuba e como bom amante de música passei horas e horas na Casa de La Trova, onde o som rola das 11 da manhã até a madrugada. Lá pelas tantas, turminha de turistas e locais formada para curtir mais uma roda de bambas, aparece uma garrafa transparente, líquido límpido ali dentro, rum do sul de Cuba. Milagros, moçona negra de roupa colorida tipo patchwork, com cara de quem gosta de pregar uma peça, tomou um shot de vez, encheu de novo o copinho e me ofereceu, piscando um olho. A coisa era braba, um pequeno inferno descendo pela garganta, mas me fiz de impávido. Só que a vítima não era eu, e sim uma menina franzina, turista belga, carinha de inocente. Imitou Milagros na pose e na dose: mandou ver no rum, quase teve um treco, pediu água, vermelha como tomate. A moçona cubana soltou a gargalhada mais gostosa do mundo: “Aha! Ron santiaguero!” – esguichava lágrimas de tanto rir. Estávamos prontos para o que viria: Las Hermanas Ferrín, o suprassumo do suingue caribenho, eram as estrelas da noite. O resto foi só música. E mais rum.

*

Créditos das fotos: Hemingway com Spencer Tracy (Reprodução/John F. Kennedy Presidential Library and Museum), Daiquiri (Wikimedia Commons/Mike Flemming), Escultura Hewingway (Wikimedia Commons/F.Schmazbauer), La Mina (Reprodução/Indicuba.com), Las Ferrín (Milagros)

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