Perdido na ExpoVinis

Na maior feira de vinhos da América Latina, ficamos indecisos com quase o mundo inteiro servido em taças. Impossível provar tudo – mas alguns dos bons rótulos que conseguimos sorver está apresentado aqui

Por Sergio Crusco


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Um parque de diversão para adultos. É o que me ocorre para tentar explicar a ExpoVinis, maior feira de vinhos da América Latina, que aconteceu em São Paulo de 22 a 24 de abril. No começo a gente fica meio perdido, zanzando sem ter muita noção de por onde ir. Continua perdido ao longo do tempo, pois são tantas emoções e sabores, impossível ver e provar tudo. Uma dica aqui dos amigos jornalistas e especialistas, uma fuçada curiosa acolá, um estande vistoso mais adiante, um rótulo sedutor… E assim vamos indo, ao sabor da descoberta.

Para facilitar a vida de quem vai à feira para fazer negócios ou simplesmente conhecer as novidades, a ExpoVinis faz anualmente um concurso que elege os dez melhores vinhos inscritos (veja a lista no final do post). Mas preferi traçar um roteiro intuitivo (pra não dizer desorganizado), uma vez que aquele mundo todo não caberia em dois dias de visita à feira. Como não sou especialista, fui seguindo o meu faro – talvez não certeiro. A preferência pelos brancos quem sabe incomode os fãs de tintos. Mas vamos lá. A seleção é bem pessoal, de alguém que gosta de beber e de compartilhar o que prova por aí.

ALSACE_EDITComeço com pé na França

Tentando entender um pouco mais da cultura biodinâmica (fui encarregado de escrever um texto sobre o assunto, em breve nas paradas), fui ao estande da França para conversar com os importadores da Everest Vinhos, especializada em orgânicos e biodinâmicos franceses. A primeira prova foi o alsaciano Domaine Léon Boesch Pinot Blanc 2010 (R$ 103, na Vinhos e Sabores), de aroma silvestre e mineral, retrogosto cítrico e persistente. Um ótimo começo, seguido pelos Chardonnays orgânicos Domaine Vrignaud Chablis Blanc 2013 (mineralíssimo, do jeito que eu gosto, por cerca de R$ 160,00 no mercado, segundo o importador) e o Domaine Jean Fournier Marsannay (cerca de R$ 200,00). O preço é a parte que não gosto tanto assim.

DETTORI_EDITNo estande da importadora Decanter, fui tratar de conhecer os vinhos laranja produzidos na Itália. Ouvi dizer que estão na moda – e a prova do Dettori Bianco Romangia 2011 (R$ 169,60) me fez saber que não é moda boba. Os vinhos laranja se caracterizam pela presença da casca da uva (no caso, a Vermentino) durante o amadurecimento – por isso a cor do nome, que identifico à minha moda como “dourada cheguei”. Descansado durante 30 meses em tanques de cimento, o Dettori ganha pela acidez e pelo aroma cheio de flores e frutos, com um quê defumado. Na boca, sua complexidade quase nos faz esquecer do que tomamos antes, uma viagem de sabores.

lucia_caneiDa Itália caímos no Brasil, provando um espumante que homenageia a matriarca da família Salton, vinícola bastante premiada por suas borbulhas. Feito para arrasar, o Lucia Canei é um rosé muito claro (após uma leve maceração, as cascas logo são retiradas, explica o enólogo Lucindo Copat). A garrafa, pesadíssima e em forma de sino, é importada da França. A produção, limitada a 5.075 unidades. O preço (R$ 900,00 a caixa com seis unidades, na loja virtual da Salton) acompanha o luxo. O sabor compensa: boa acidez, fresquíssimo e cremoso na boca.

Grey_CUTPra não dizer que não falei de tintos, a próxima prova foi chilena: rótulos da Viña Ventisquero. O Carménère Reserva 2012 (R$ 49,40 no Empório Menu Especial) impressiona pelas notas de frutas maduras, vermelho intenso e sabor redondo. O Grey GCM 2012 (R$ 135,40 na mesma loja), elaborado com uvas Garnacha, Cariñera e Mataro é potente e aveludado, perfeito para carnes opulentas.

AMAMI_editQuem prefere tintos mais suaves iria se encantar com o Negroamaro da vinícola italiana Etiké. Iria, pois por enquanto a casa não tem representação no Brasil, é uma das muitas vinícolas que vão à feira à procura de importadores. Tomara que encontre, pois o vinho é jovem, fresco, ótimo para acompanhar massas com molho de tomate. Provei ainda o Primitivo, igualmente fácil de beber, porém mais encorpado e tânico. O charme das garrafas da Etiké fica por conta dos rótulos de porcelana com mensagens românticas, uma delícia para presentear e ganhar, especialmente quando as intenções são aquelas.

VEO_EDITSessão fofura

Por falar em rótulos bonitos, devo confessar que sou presa fácil dos bons designers. Nesse quesito, o Troféu Fofura da ExpoVinis vai para o par de vinhos espanhóis Veo Veo (Tempranillo) e Tristrás (Syrah), da Pago Casa del Blanco, tampouco disponíveis no Brasil. O produtor explica que são jovens e frescos, elaborados para quem está começando no mundo dos vinhos. Deixe-os para a garotada e avance à linha Quixote, da mesma vinícola. O corte de Merlot, Tempranillo e Petit Verdot, envelhecido por 12 meses em carvalho, enche a boca com o sabor de frutas vermelhas, desce aveludado e sugere ótima harmonização com carnes. O produtor avisa que em breve o Quixote voltará aos nossos empórios (ele anda sumidinho).

Matsu_EDITAinda na Espanha, os rótulos da série de vinhos Tinta de Toro (ou Tempranillo) da Bodega Matsu ganham status de obra de arte. Tanto que estavam na vitrine do estande de uma importadora e não eram oferecidos para prova (por que fazem isso com a gente?). Fiquei na vontade, mas um dia chego lá. O mesmo personagem, retratado em fases diferentes da vida (El Pícaro, El Recio e El Viejo), representa cada período de envelhecimento do mesmo vinho. Uma das ideias visuais mais bem boladas que já vi (mostramos os Matsu no post 30 rótulos de vinho muitos loucos, vai lá).

DSC_0056Alguns tintos depois (sim, tomei tantos outros vinhos bons, outros mais ou menos – e juro que um dia esse post acaba), aceitei a sugestão de conhecer os brancos da Eslovênia, apontados como uma das surpresas da feira. Das boas. O Furmint da vinícola Gomila é suave, frutado, com um toque cítrico persistente e tem tudo para fazer sucesso no Brasil. Tem cara de juventude dourada dando risada à beira da piscina, manja? O preço do Exceptional Furmint (R$ 69,00 na Mondo Vino), mais elaborado do que o que provei na feira, não é de assustar. Na mesma loja, há o corte de Furmint com Sauvignon Blanc (R$ 58,00).

Ainda sobre vinhos leves e frutados, outra boa pedida foi voltar ao Brasil e provar o novo rosé Sublime, elaborado com uvas Merlot pela Vinhedos de Monte Agudo, de Santa Catarina. Em breve no mercado.

CatarinaFim de festa em Portugal

Degustar um vinho e cuspi-lo pode parecer nojento ou puro desperdício para muita gente. Meus amigos vivem me perguntando isso: “Mas você tem coragem de cuspir um vinho maravilhoso?”. Essa é a única forma de manter a elegância e continuar em pé num evento como esse. Chega a hora, porém, em que a coisa começa a virar festa e alguns protocolos podem ser quebrados. Depois de horas de caminhada, conversa e dor nas costas, é o momento de tomar ao menos uma taça completa, sem pressa e com gosto. Me mando para Portugal, sou fascinado pelos vinhos daquele país. Além do mais, o “L” formado por uma série de importadoras e produtores portugueses no fundo do pavilhão é um dos pedaços mais animados.

A despedida da feira começa com o Catarina 2013, da região de Setúbal, importado pela Portus (R$ 74,88). Tem 43% de Fernão Pires, 40% de Chardonnay e 17% de Arinto – fruta e mineralidade na medida certa. Conheço os lançamentos da importadora Conceito Português, cujo intuito é trazer vinhos fáceis, do dia a dia, a preços camaradas. O Alvarinho Filipa de Lencastre é uma das estrelas do portfólio.

loureiroHá tantos outros grandes rótulos no fundão português, mas decido fechar a noite com minha nova (ou melhor, eterna) paixão, a casta Loureiro, da região dos verdes. Já havia ouvido falar da fama do Loureiro da vinícola Ponte de Lima, importado pela J.A.S. Cardoso (cerca de R$ 31,00 no mercado). O produtor está lá e, generosamente, serve uma taça completa. É do jeito que eu amo: o Loureiro enche a boca, sua acidez estala. Seco, herbáceo, quase nada de fruta. Dou uma de tiete da Maria Bethânia no camarim e digo ao expositor: “Não posso sair sem provar mais uma taça de um dos melhores vinhos da feira”. Bis. Com esse sabor volto feliz, bem feliz, para casa.

*

OS DEZ MAIS

Confira os vinhos selecionados pelo júri do Top Ten Expovinis 2015

Vigneto 750Espumante Nacional: Aracuri Brut Chardonnay 2013/Aracuri Vinhos Finos (Produtor)

Tinto Velho Mundo (II): A Sirio Rosso IGT 2007/Azienda Agricola Sangervasio (Produtor)

Tinto Novo Mundo: Renacer Malbec 2011/Bodega y Viñedos Renacer (Produtor)

Branco Importado: Casas del Toqui Terroir Selection Sauv. Blanc Gran Reserva 2014/Bodegas de Los Andes Comércio de Vinhos (Importador)

Rosado: Saint Sidoine Côte de Provence Rosé 2014/Cellier Saint Sidoine (Produtor)

Fortificados e Doces: Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos José Maria da Fonseca/Decanter (Importador)

Tinto Velho Mundo (I): Pêra Grave Reserva Tinto 2011/Luxury Drinks Portugal (Importador)

Espumante Importado: Champagne Georges de la Chapelle Nostalgie/Champagne Georges de la Chapelle (Produtor)

Branco Nacional: Vigneto Sauvignon Blanc 2014/Vinícola Pericó (Produtor)

Tinto Nacional: Valmarino Cabernet Franc Ano XVIII 2012/Vinícola Valmarino (Produtor)

Créditos das fotos: Sergio Crusco e Reprodução

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