Gostoso é gostoso mesmo

As caipirinhas da creperia Madame Chita, em São Miguel do Gostoso, Rio Grande do Norte, são tão coloridas e irresistíveis como a sua proprietária, Rosana Carneiro

Por Cristina Ramalho / Fotos: Ana Ottoni

gostoso.2015.fev

– Eu ficava sozinha aqui, isso aqui era uma porrrtinha – ela conta, já rindo antes de terminar a história, o erre carregado lá de Ribeirão Preto, a voz rouca, extensão natural do eterno cigarrinho nas mãos.

Toma mais um gole da cerveja.

– Amiga, isso aqui era um deserto. Eu estava tomando minha cerrvejinha quando parou um jipão amarelo, e desceu um homem… Homem não, ô bem, aquilo era dois metros de homem, não acabava nunca, uma maravilha. Eu me ajeitei, escondi a cerveja embaixo do balcão, fui abrindo um sorriso, sabe a-que-le sorriso?  Ele perguntou: “Você vende bebida?” ­– Sim, claro, você quer uma caipirinha, uma cerrveja? E ele: “Tem Toddynho?”

Pausa. Ela faz uma careta. – Ah, tenho cara de quem vende Toddynho?

A plateia está atenta, gargalhando. Uma história emenda na outra — e ela vai contando não só para mim, a amiga –, fala gesticulando, o jeito gozador, sempre sorrindo, sempre no controle, a cervejinha na mão, o timing perfeito enquanto vai parando de mesa em mesa de seu pequeno bar/creperia, o Madame Chita. É um lugar todo colorido, cadeiras cobertas de chita florida, luz de velas, cangas de Bali, bolsas do sul da França, bonecos do sertão nordestino, uma profusão de objetos charmosos, divertidos, uma alegria que se pode tocar. A cara dela.

Rosana Carneiro, brincos imensos, cabelo preso em coque, aquele charme bric-a-brac de quem veste uma camisa colorida, uma canga como saia, e fica lindo. Mezzo carioca, mezzo ribeirãopretana, quinze anos vivendo em São Miguel do Gostoso, cidadezinha a 1h30 de Natal, de praias lindas, muito vento, conversas nas cadeiras da calçada. Rosana conhece todo mundo. No Carnaval ela e sua sócia, Eliana, fazem o Bloco da Madame, e a cidade inteira se fantasia para sair nele.

Fantasiar é com ela mesmo. Nasceu para adjetivar o mundo. Bota umas flores de papel no lustre que criou com garrafas e fica um deslumbre. Pega um acontecimento qualquer do dia e conta como se fosse aventura extraordinária. Se a noite tá sem graça, e os clientes chegam tímidos, já vem com sugestão glamourosa: que tal um champanhe? Apresenta uns pra os outros e saca um papo espirituoso (“aqui não tem nem vai ter wifi”, determina). Quando é ela que está triste, ninguém pode saber. Se não tem novidade, inventa uma.

Assim fez suas famosas caipirinhas – um dia de bar cheio, só ela atendendo e rebolando para servir a freguesia, olhou para as frutas vermelhas na geladeira, catou uma folha de menta, jogou vodca por cima e inventou uma caipirinha. Um sujeito sozinho na mesa pediu uma, ela avisou com a franqueza habitual:

– Amigo, vai demorar uns 40 minutos, que eu tô sozinha aqui. Ele aceitou esperar. Perguntou o nome dela. – Rosana. De quê? – Rosana Carneiro. Ela pensa: – ai, esse homem é um caroço, não para de perguntar.

Ele pede que Rosana defina a cidade: “O que é Gostoso para você?” Ela usa a mesma psicologia de não complicar as coisas. (Aqui cabe uma pausa: um dia, diante dos turistas comentando de um famoso cozinheiro da cidade, Rosana falou: “A comida é ótima, mas tem de botar uma fita crepe na boca dele, ele não cala a boca, não deixa ninguém comer em paz”. De outra vez, no Rio de Janeiro, ao ouvir de uma cinquentona que estava impossível arrumar namorado, simplificou: “Amiga, vai bater uma livraria que ali está o target”. Fecha pausa). Ao perguntador da caipirinha, respondeu sem pensar: – Gostoso é gostoso mesmo.

Dois meses depois, já esquecida do episódio, Rosana recebe um telefonema da irmã, lá de Ribeirão Preto: “Menina, você saiu na revista”. – Eu? Mas não dei entrevista para ninguém. A irmã leu para ela a frase: Gostoso é gostoso mesmo. E continuou lendo a reportagem que recomendava as melhores caipirinhas de São Miguel do Gostoso: as feitas pela Rosana Carneiro, no Madame Chita.

– Amiga, não é que o homem era repórrter e eu nem papariquei ele?

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Caipirinha de frutas vermelhas do Madame Chita

Ingredientes

6 acerolas

5 morangos picados

1 folha de menta ou hortelã

50 ml de Vodca Ciroc

1 ou 2 colheres de açúcar

Muito gelo

Modo de preparo

Bota tudo na coqueteleira, muito gelo, e manda bala, amiga!

Como na canção francesa, a vida é cor de rosa no bar de Rosana Carneiro, onde ela gosta de receber os clientes ao som de Melody Gardot, sua cantora predileta, e outras papas finas

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