Doce nostalgia em Londres

Na loja A.Gold, no leste londrino, o brasileiro Paulinho Garcia vende delícias inglesas e comidas caseiras. E uma bebida tradicional dos recém-casados britânicos: English Mead, feita de mel

Por Cristina Ramalho

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Fachada da A.Gold – Traditional Foods of Britain, em Spitalfields, Londres

Amelia Gold, húngara, judia, boa de vendas e com mãos leves para a moda, chegou no East End londrino em 1880 na leva de imigrantes fugidos da Rússia e países vizinhos. Era uma moça esperta: mal saiu e, no ano seguinte, o czar Alexandre foi assassinado e teve início uma perseguição aos judeus e às minorias do Leste europeu. Logo ela abriu em Londres sua pequena loja, pertinho da igreja de Spitalfields, 42 Brushfield Street. A placa está lá até hoje: A.Gold (em letras grandes, imponentes), seguido de French Millinery escrito em letra cursiva, feminina, que parece dançar no letreiro. Millinery é a arte de produzir chapéus, e não qualquer chapéu. Os melhores.

Difícil pensar em quem aparecia para comprar acessório com tamanha finesse. As moças do East End trancavam as portas ao escurecer porque Jack, o Estripador, vivia ali na área. O bairro também não colaborava no glamour: só quem não tinha um penny aceitava morar naquele buraco. Jacob Adler, um ator russo, gozador, vindo de Odessa, dizia que Londres se dividia entre o West End e o East End. No West viviam os afortunados que vieram ao mundo com um beijo. No East moravam os outros.

Com a minha mania de imaginar coisas vagas, já estava pronta para escrever uma história de Amelia escondendo a dureza da vida e uma garrafa de gim ou brandy no sutiã, enquanto contava causos de bons tempos na nobreza húngara e levava uma freguesa na conversa. Depois eu postaria aqui receita de um drinque very British. Mas vamos seguir a cambalhota da História oficial: o East End hoje é a parte mais fulgurante, moderna e cheia de novidades turísticas em Londres.

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Delícias caseiras todos os dias

Spitalfields é um mercado de lojinhas coloridas e gente de todo lugar do planeta, dos ternos dos rapazes da City, o centro financeiro inglês, até os sujeitos que continuam pintando o cabelo de verde. E a A.Gold segue, firme, o velho letreiro testemunhando todos os vais e vens da moda. Em vez de millinery, a loja vende o fino, mas o fino do afeto: comidinhas de mãe, caseiras, docinhos e bebidas que não se encontram mais por aí.

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Paulo Garcia e o menu da semana no A.Gold

Tocada agora por outro imigrante, o meu amigo Paulinho Garcia, brasileiro, ele próprio o sujeito mais afetuoso que conheço, a loja A.Gold é um pedacinho do passado e traz comidas caseiras, artesanais. Vende delícias da infância, doces tradicionais, balinhas em papel, biscoitos do tempo da Amelia Gold, que vêm em latinhas coloridas. Os homens de terno entram lá e perdem a linha britânica, um cutucando o outro, sorrisões de “olha só, lembra dessa?”. Paulinho mora na casa, no andar de cima, e na cozinha prepara, todos os dias, sempre ouvindo jazz, tortas tradicionais, rosbife e yorkshire pudding, sanduíches, Scottish eggs e muitas delícias brasileiras – comida de mãe da gente.

English MeadE vende bebidas como o English Mead, no Brasil conhecido como Hidromel. É feito de mel com água destilada, depois fermentado – uma bebida tradicionalmente dada, na Inglaterra, aos recém casados, que tomam um trago na cerimônia e outro depois de um mês. Por isso é conhecida como Honeymoon mead. Paulinho explica que no verão ela é deliciosa, com bastante gelo, e no inverno cai bem quando temperada com laranja e gengibre.

Mesmo que você não seja inglês, se for à A.Gold vai reconhecer aquele momento de provar algo e se sentir um pouco em casa, um clima de sábado à tarde e risadas na cozinha, e por uns instantes parece que a vida é de graça. Porque na Hungria da Amelia, no leste londrino, ou em qualquer ponto do atlas, essa alegria de voltar a um tempo bom é igualzinha para todos nós.

Vai lá – A.Gold – 42 Brushfield Street, Spitalfiels, Londres. site: http://www.agoldshop.com

* Talvez a loja mude de nome para Old Spoon, por questões burocráticas, mas o espírito vai ser esse mesmo.

Sobre o English Mead – tem 12.5% de teor alcoólico. Vai bem com queijo cheddar ou acompanhando sobremesas. No Brasil, uma das empresas que produz Hidromel é a Valhala, de Campos do Jordão (SP).

Se quiser se arriscar a preparar seu próprio English Mead em casa, veja o passo a passo aqui.

Algumas músicas que Paulinho Garcia gosta de cantarolar enquanto cozinha…

*

Crédito das fotos: Reprodução do site A.Gold

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