O bourbon do caubói vira ingrediente chique nos bares do mundo

A bebida americana à base de milho já foi a preferida dos caubóis que não se importavam muito com o que estivessem bebendo, contanto que subisse. Hoje é queridinha nos bares descolados do planeta e se presta ao preparo de drinques clássicos e charmosos

Por Sergio Crusco

cowboy-whiskey
John Wayne bebe um trago de seu bourbon antes de topar a próxima aventura

Nos filmes de caubói ou nos de detetives, é comum ver o intrépido herói mandando ver de um gole só uma dose pura de uísque, para logo em seguida apertar os olhos e franzir a boca numa expressão que sinaliza algo parecido com um ouriço do mar descendo pelo esôfago. Quantas vezes você não viu John Wayne e Clint Eastwood fazendo cara de quem bebeu, não gostou, mas está pronto e de cabeça feita para a próxima parada?

A qualidade duvidosa dos uísques americanos não é lenda de Hollywood, nem a cara azeda do caubói é um recurso meramente dramático. Nos tempos da Lei Seca (1919-1933) produziu-se muita bebida clandestina nos Estados Unidos e quem quisesse ficar alegrinho a qualquer custo, na base do “se não tem tu, vai tu mesmo”, apelava para qualquer coisa.

Com a abolição da lei, quem tinha algum dinheiro podia comprar uísques importados da Escócia ou do Canadá, destilados de várias procedências, queria ver longe o temido “produto nacional”. Quem continuava com o dólar furado no bolso tinha de se virar com a bebida doméstica, cuja maioria dos produtores não se preocupava em elevar os padrões de excelência.

allabouteve478
Margo Channing (Bette Davis) em seu clássico pifão de gim doméstico em A Malvada (1950), de Joseph L. Mankiewicz

Uma cena de A Malvada (1950), com Bette Davis, ilustra a má fama da bebida “made in USA” naqueles idos. Minutos antes de receber seus convidados para uma festa, a anfitriã é advertida pelo mordomo: “Há uma mensagem do bartender: ‘A senhorita Channing se deu conta de que encomendou gim doméstico por engano?’” No que ela se safa: “A única coisa que encomendei por engano foram os convidados. Eles são domésticos também e não se importam com o que bebem, contanto que suba!”. Minutos depois, é a própria Miss Channing quem amarra um porre de dry martini e coleciona azeitonas à beira do piano, vítima da própria imprudência ao errar a mão no pedido.

SOBREVIVENTES

A sobrevivência do uísque americano em todas as suas variantes (o bourbon e o tennessee whiskey, por exemplo) deve-se à relutância de alguns produtores, que se negaram a continuar produzindo bebida barata para caubói em filme de bangue-bangue. Aprimoraram métodos e confiaram em seu talento para transformar o que parecia a muitos um quebra-galho de fundo de quintal em bebidas finíssimas.

WILD_TURKEY_Jimmy_Russell
Jimmy Russell na destilaria do Wild Turkey, Kentucky

Um deles é Jimmy Russell, 80 anos, que confere diariamente a qualidade do seu bourbon, o Wild Turkey, no estado de Kentucky, desde a década de 1940. Hoje quem está à frente da destilaria é seu filho, Eddie Russell, que comenta a obstinação do pai: “Vivem perguntando a ele por que não larga seu trabalho. E ele responde que aquele não é um trabalho, é uma paixão”.

Inovação e olhos para o consumidor moderninho, no entanto, estão dentro da visão de mercado de Jimmy e Eddie. Depois de sedimentar a fama da destilaria com o Wild Turkey 101, de teor alcoólico dos brabos (50,5%), entre outros rótulos, eles partiram para a criação de um bourbon mais suave. O Wild Turkey 81, com 40,5% de teor alcoólico.

O apelo light do 81 fez com que ele virasse queridinho de bartenders por todo o mundo, e brilhasse na composição de drinques clássicos como o Manhattan, o Old Fashioned e o Boulevardier. Pode pedir à vontade, garota. Garantimos que você não vai fazer careta de caubói ao provar esses tragos. Mas vá com calma: mesmo a versão amena do Wild Turkey não desapontaria o bom bebedor John Wayne, que foi fã inveterado de bourbon nas telas e nos bastidores.

DSC_0269

RECEITA DE MANHATTAN.

Ingredientes 

60 ml de bourbon

30 ml de vermute tinto doce

2 gotas de bitter de laranja

1 pedaço de casca de laranja

Preparo

Prepare a taça, previamente resfriada, esfregando a casca de laranja pela borda, para que ela desprenda aroma a sabor. Coloque todos os ingredientes (menos a casca de laranja) numa coqueteleira com gelo, mexa e coe diretamente na taça. Dê uma leve espremida na casca de laranja sobre a bebida e decore o drinque com ela.

UM DRINGUE COM EDDIE RUSSELL

WILD_TURKEY_Eddie_RussellEddie Russell, mestre da destilaria Wild Turkey, esteve no Brasil para promover seu produto e contou que sua vida não é feita só de bourbon: “Aprecio um bom vinho, claro. Mas sou apaixonado pelo mundo dos destilados. Se há um destilado sendo bem feito em algum lugar do mundo, é este que quero provar”.

PARA SER BOURBON

Para que possa ser considerada um bourbon whiskey, a bebida precisa ter sido produzida nos Estados Unidos a partir de uma mistura de grãos em que pelo menos 51% seja milho (porém, este percentual não pode ultrapassar os 79%), não ter quaisquer aditivos como coloração ou aromatizadores, ser envelhecida em barris de carvalho branco, nunca usados e carbonizados por dentro. E repousar por no mínimo dois anos.

Queridos, curtam seu bourbon deliciosamente. Só não vale fazer a mistura preferida do John Lee Hooker…

*

Créditos das fotos: Jimmy e Eddie Russell (Divulgação), John Wayne e Bette Davis (Redprodução), Manhattan (Divulgação)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s