Cerveja Dádiva se inspira no voo da libélula para criar receitas sutis

A jovem Cervejaria Dádiva, comandada por Luiza Tolosa, aposta na leveza e lança novo rótulo: uma amber ale com toque de lúpulo na medida certa para quem gosta de bebidas tranquilonas

Por Sergio Crusco

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A libélula é símbolo de mau agouro para uns e de sorte para outros: fazemos parte do segundo time

Diz uma fábula que a libélula já foi dragão. Tapeada pelo coiote, quis provar que tinha o poder de se transformar. Virou inseto e nunca voltou a ser o que era, vítima da própria vaidade. Há outras lendas, sobretudo europeias, que contam contos terríveis sobre esses bichinhos: trariam má sorte se sobrevoassem a cabeça de alguém, teriam sido cavalos no inferno e enviados pelo próprio demo para atazanar a paz na terra (cavalinho-do-diabo é um de seus nomes populares no Brasil). Um mundo de crendices medonhas, barra-pesada.

Gosto mais do mito do povo zuni, habitante do Novo México. Numa época de escassez, um casal de irmãos foi deixado para trás pela tribo, que viajou em busca de alimento. Para consolar a irmã menor, o garoto talhou um brinquedo em forma de libélula, que tomou vida, encantou as fadas do milho e trouxe nova colheita farta. A tribo voltou à vila, as fadas não mais permitiram que os zuni passassem fome.

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Lager da Dávida, já pela metade: tava bem bom

Luiza Lugli Tolosa deve preferir a lenda zuni. Escolheu a libélula como símbolo de sua cerveja, a Dádiva. Acredita que o voo do inseto que gosta de pairar sobre as águas seja sinal de boa sorte, liberdade, horizontes a desvendar – um “ufa” para as chatices da vida. A libélula tem visão de 360 graus, safa-se bem do predador. Mas não se engane: tem mandíbulas fortíssimas e quase nunca perde a presa que persegue – seu acerto é de 95%, segundo os libelulólogos.

Num mundo dominado por homens – o da cerveja e tantos outros mundos –, Luiza aposta na leveza da simbologia e na de sua própria produção. Seus três rótulos – uma Premium Lager, uma Munich Dunkel e a mais nova, uma Amber Ale – são bastante sutis. Na Lager, pouco lúpulo e destaque para os sabores do malte, o que dá um jeitinho quase doce à cerveja. O lúpulo surge com mais força, pero no mucha, na Amber Ale. Segue o estilo sossegado que, até agora, tem caracterizado o trabalho de Luiza.

Pergunto se ela se incomoda com a fama que ganhou, em pouco mais de um ano desde a estreia da Dádiva, de fazer cervejas “femininas”.

“Não acredito em cerveja feminina. Falar em cerveja artesanal ou especial também me incomoda um pouco. Gosto de falar em cerveja de verdade e, mesmo no mundo da cerveja de verdade, há as boas e as ruins, as receitas que você vai gostar mais ou menos”, diz.

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Luiza Tolosa em sua fábrica: história de amor conquistado com a cerveja

Sua história no ramo da cerveja não começou com um paixão avassaladora, como se vê por aí. Ela nem era fã. “Não foi amor à primeira vista, foi amor conquistado”, diz Luiza, formada em Administração. “Trabalhei numa ONG que incentiva a o empreendedorismo e acho que me contaminei com a ideia. Quando quis empreender, na área de alimentação, constatei que o varejo não estava aberto para o pequeno produtor. A cerveja não dependia do grande varejista, tinha outros caminhos: os bares, os empórios, os restaurantes”.

Decisão tomada, Luiza matriculou-se no curso de sommelier do Instituto da Cerveja Brasil. Foi aí que o namoro esquentou: “Cada aula era uma descoberta, cada estilo, uma surpresa”, conta a empresária, que cita a Odell IPA, a Vedett Witbier e a Amber Ale Speak Easy Prohibition como algumas de suas beijocas mais gostosas dos últimos tempos.

A fábrica da Dádiva, situada em Várzea Grande (SP), tem capacidade de produzir 24 mil litros por mês, fabrica chope e cerveja e ainda atende a necessidade de algumas marcas ciganas (isto é, sem fábrica própria) como a Capitu e a Dannemann. Sinal de que a libélula tem voado gostosamente por aí.

QUEM SÃO ELAS

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Dádiva Premium Lager – Chope e cerveja claros, de sabor suave de malte e aroma de lúpulo, com cor dourada e sabor refrescante. Lembra biscoito, é tranquila e fácil de beber. Teor alcoólico: 5,1%. Temperatura ideal: 2° a 4°C

Dádiva Munich Dunkel – Chope e cerveja de estilo alemão. Receita bem maltada, com notas de tosta de malte, corpo médio e cor castanho claro. Teor alcoólico: 5,2%. Temperatura ideal: 4° a 8°C

Dádiva Amber Ale – Chope e cerveja no estilo americano com presente teor de malte, sobressaindo-se notas de toffee, castanhas e caramelo, com aromas cítricos vindos do processo de dry hopping. Teor alcoólico: 5,7%. Temperatura ideal: 4° a 8°C

Roisin Murphy, Beady Belle e Sabina Sciubba: vozes de libélula.

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Crédito das fotos: Libélula (R. A. Nonenmacher/Wikimedia Commons), Luiza Tolosa e Cervejas (Dercílio Vanzelli/Divulgação), Copo (Sergio Crusco)

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