O dia em que a Porradinha me fez virar na Linda Blair

O primeiro porre, quem não esquece? Basta um jerico vir com a ideia — e outro asno acatar. Se a pedida for Porradinha, as chances de precisar chamar um exorcista são grandes. Mas há um jeito mais fino de saboreá-la, como ensina o chefe de bar do restaurante paulistano Tuju

Por Sergio Crusco

linda_blair_exorcista
Virei na Linda Blair, jurei que aquilo não mais me pegava, mas quem nunca descumpriu a promessa?

— É. Esse tapete vamos ter de jogar fora.

Foi a primeira frase que ouvi pela manhã, a voz de Zuleica, dona da pensão, dando ordens à empregada de como colocar tudo em ordem depois do vexame da noite anterior. Uma dor de cabeça miserável, a sensação de atropelo por uma jamanta, a vergonha de ter sido responsável pela perda total do tapetinho que guarnecia a entrada do banheiro comunitário e pelo trabalho quintuplicado e infame causado à pobre faxineira.

Foi a primeira ressaca e pela primeira vez a promessa de nunca mais chegar àquele ponto. Devidamente não cumprida. Quem nunca fez a promessa?

Naquele tempo, aos 18 anos, eu já havia sentido as alterações que algumas doses a mais podiam causar à cachola, à coordenação motora e à capacidade de pronunciar um idioma inteligível. Mas nunca havia ultrapassado o limite da insanidade.

Cachaca_Pitu
Pitú: Pazuzu engarrafado

Um amigo de infância, que igualmente começava a vida universitária em São Paulo, hospedado na mesma pensão de estudantes no bairro do Paraíso, veio com a ideia de jerico, abraçada por outro asno:

— Porradinha é muito louco. Você coloca pinga no copo, depois soda limonada, tampa com a mão, dá uma batida no joelho. A coisa fica efervescente e você bebe tudo de uma vez. Maior barato.

Fomos ao boteco da esquina nos munir para o novo divertimento. Uni-duni-trê, a escolhida foi Pitú — e a musiquinha acaba aqui por receio de uma rima deselegante. Até hoje tenho trimilique à visão daquele camarão rubro.

Levou muito pouco tempo para eu me transformar em Linda Blair mandando brasa na cara do exorcista. Faltou girar a cabeça em 360 graus. Talvez tenha acontecido. Lembro da face de terror da pensionista chinesa, funcionária do Consulado Britânico, tentando me acudir, perguntando se eu precisava de ajuda. Foi o primeiro porre, mas desde já eu conseguia entender, com voz de Pazuzu, que não há remédio ou auxílio para quem desgraçadamente atinge aquele estado.

— Acho que você não pode fazer nada (“e é bom sair de perto rapidinho, se não quiser fazer o papel do padre”, deveria ter acrescentado).

Para curar o trauma de cachaça, o tempo foi longo, alguns anos, embora outras bebidas e combinações tenham me feito virar mais algumas vezes na Linda Blair ao longo da juventude. Até aprendi a beber pinga, com respeitosa parcimônia. Ainda bem que a gente aprende — a pelo menos desviar do tapetinho.

 

Porradinha-MENOR

RECEITA DE PORRADINHA DO TUJU

Recentemente, fiz as pazes até com a Porradinha, que está na carta de drinques populares revisitados do Restaurante Tuju. O chefe de bar Danilo Monteiro ensina a receita, com vodca no lugar da pinga e espuma de limão siciliano com jambu (a erva paraense que adormece a língua) no lugar do refrigerante. Mas você pode usar qualquer cachaça branca de boa qualidade para alcançar um bom resultado.

Ingredientes

30 ml de vodca Absolut

3 gotas de bitter de menta

Espuma de limão siciliano para completar *

Modo de preparo

Sirva a vodca em um copo com gelo, cubra com a espuma de limão siciliano e acrescente três gotas de bitter de menta para finalizar.

* Espuma de limão siciliano

Coloque no liquidificador ou no sifão 30 ml de clara de ovo, 60 ml de suco de limão siciliano, 15 g de quinino (opcional, se quiser mais amargor), 150 ml de água, 4 folhas de jambu (ou hortelã). Bata por 20 segundos, coloque a espuma na geladeira durante cerca de 5 minutos e retire para preparar sua Porradinha.

A Porradinha é mais um dos drinques populares que ganharam versão chique. Já falamos do Rabo de Galo harmonizado com uma boa conversa de botequim em crônica da Cristina Ramalho. Leia aqui.

Miriam Makeba, ao anunciar a canção, explica do que ela trata: o dia seguinte. Provavelmente você não entenderá a letra, no idioma xhosa, da África do Sul. Chega um momento, porém, em que fica difícil entender qualquer coisa — ou a gente recebe uma Linda Blair poliglota.

*

Créditos das fotos: Porradinha (Bruno Geraldi/Divulgação), Linda Blair e Pitú (Reprodução)

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