Bebendo com etiqueta 2

No post anterior falamos sobre a chatice de quem entende de vinhos, esnoba com a grana alheia ou insiste em encher a taça do amigo. Aqui vamos ao dia seguinte – em especial para as moças que depois do pilequinho costumam declarar seu amor ou exagerar na sinceridade

Por Cristina Ramalho

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“Tenho a impressão de que esses meninos estão cheios de más intenções”

Tem aquele conto da Dorothy Parker, “Você esteve ótimo”, que é a definição da amnésia alcóolica. A clássica: você acorda sem saber onde está e quem é, e um simples telefonema de uma testemunha ocular dos escorregões aciona sua memória e a vontade de sair correndo para sempre. Dorothy descreve a moça que liga para o sujeito que pintou os canecos na noite anterior e vai contando, na base do “isso acontece, não esquenta” que o moço jogou lulas em su tinta no decote da esposa de outro. “Mas isso passa, mande flores para ela no hospital e tudo bem”. E conta que ele cantou. E que brigou com o garçom. E que chamaram a polícia. E a cada frase ele vai se horrorizando mais e mais.

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“Tem certeza de que o ponche tá levinho?”

Um pitaco de conselho: Você não se lembra? Nunca queira saber o que fez. Pode ser um estímulo ao suicídio. Como uma história que Ruy Castro conta em seu perfil do escritor carioca Aníbal Pinheiro. Festeiro que recebia em casa todo o grand monde literário e boemio do Rio de Janeiro nos anos 50, Aníbal usava de psicologia. Quando um convidado inconveniente ligou para saber se, bêbado, havia feito algo muito errado na noite passada, ele respondeu: “Ora, esquece. Só ficou chato quando você fez cocô no meio da sala”.

A amnésia às vezes é um ótimo álibi – mas para evitar que alguém lhe atire na cara o que talvez nem seja verdade, melhor se prevenir. Se ainda assim passar da linha, não perca a pose. Vamos tentar ajudar as garotas que depois de um pilequinho juram amor eterno. Ou soltam a língua para contar tudo o que sabem.

* Se beber não passe email, já me ensinou um amigo. Completamos: nem whats app, nem mensagem, nem post no face. Melhor desligar o celular. Palavras escritas ficam – ou voltam da tumba, ainda mais fortes, quando a gente pensa que todo mundo enterrou o assunto.

* Ideal é ter uma amiga/ um amigo com uma campainha do lado: vai telefonar para ele? Pééééé! Vai checar o face dele? Pééééé!

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“Hoje ninguém me segura”

* Ele foi um canalha, ou desapareceu, e você chegou à balada disposta a beber até cair. E a catar quem aparecer. A gente adverte: o álcool altera a capacidade de análise. Antes de sair com o primeiro que lhe dê a mão, beba uma água, tome um café, tente avaliar o sujeito. Imagine acordar ao lado de um tipo vesgo de língua presa que abre um sorriso de manhã dizendo: “E eu achava que não tinha sorte no amor”.

* Agarrou quem não devia? Negue. Negue. Negue. Firme. É sua palavra contra a dos outros.

* O peixe morre pela boca – e nós também. Feche o bico ou vai contar o segredo da melhor amiga na roda, às gargalhadas. Ou descrever, achando a maior graça, os predicados sexuais do seu ex para aquela mesa cheia de amigos dele.

* Confesso: depois de três Dry Martinis, me achando engraçadíssima, fui contar uma fofoca tenebrosa justo para o cara sobre quem fofocavam. Eu tinha adorado a história e esquecido o personagem. Ainda emendei: “Tem alguém para quem não posso contar isso”.

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“É só mais um uisquinho, Ivan”

* Assunto sério, nem pensar. Falar de política? Péééé! Discutir temas contundentes, tipo religião, Chico ou Caetano e outras questões inflamáveis? Pééééé!

* O sujeito é gato, já é a segunda vez que estão juntos, dançaram a noite toda na festa, vão para a cama. Que noite! Você está indo bem, um pouquinho desinibida, e sente que é o momento do elogio. Só que erra o nome dele. É aí que entra a amnésia favorável. Quando ele vier com “O que você falou?”, faça cara de perdida e diga, a voz pastosa: “Onde estou?” “Quem sou eu?”

* Você chegou na festa e deu de cara com ele de braços dados com outra? Se não der para conter as lágrimas, melhor dar a volta e se mandar. Ou, se acha que dá para segurar a onda, faça a cara de “Eu sou linda e tenho um segredo”.

* Mas o melhor e único conselho é um só: o importante é ter charme. Aprontou todas?  Suma por uns dias e volte gloriosa, linda, fina, como se nada tivesse acontecido. O mundo gira depressa e, francamente, sem um pilequinho para soltar a franga, a vida é um pouco entediante.

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Mais algumas noções de elegância etílica? Você lê aqui.

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Joni Mitchell ensina: se vir o seu bonitão chegando com um novo amor, be cool

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Crédito das fotos: Reprodução

2 comentários sobre “Bebendo com etiqueta 2

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