O tiki tá com tudo

Os coquetéis tiki, inspirados nas ilhas do Pacífico na década de 1930, voltam à cena: coloridos, saborosos e – por que não dizer? – graciosamente cafonas. Em São Paulo você pode fazer um roteiro tropical e prová-los em bares como Frank, Barê, SubAstor e Brasserie des Arts

Por Sergio Crusco

tiki_pop

Imagem do livro Tiki Pop, de Sven A. Kirsten, que conta a história da moda tropical na coquetelaria

Numa dessas aventuras que a vida proporciona, lá fui eu viajar de navio pelo Mediterrâneo, com uma turma boa de copo e de piada. Trabalho pesado, não pensem que era só diversão. Mas uma das diversões, entre uma reportagem e outra para certa revista de celebridades, era ver quem pedia o drinque mais cafona, aqueles decorados com flores, mini guarda-sóis, cerejinhas artificialíssimas – e uma boa dose de doçura.

tiki_bette midler

Bette Midler, turistésima, cai de boca num coquetel tiki em Stella (1990)

É a imagem que a gente tem do turista americano querendo espantar o tédio que sofre lá no Illinois, iludido com uma vida mais colorida e de certa graduação alcoólica. Foi assim que a gente viu nos filmes, mesmo os de Elvis Presley, em que a bebida não era coadjuvante. E quem não viveu por aquelas bandas e na época certa não faz ideia de como os tiki bars e seus coquetéis causaram furor e viraram referência pop dos anos 1930 até os 1960.

tiki_gauguin_masp

Pobre Pescador, Gauguin, 1896

Se quisermos esmiuçar o fascínio do homem do Hemisfério Norte pelas cores luxuriantes e o modo de vida telúrico das ilhas do Pacífico, vamos bater lá no filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, que no século 18 se embasbacou com os relatos do explorador inglês James Cook e armou sua tese sobre o que seria o perfeito estado de graça da humanidade: viver em harmonia com a natureza. Escritores como Herman Melville (Moby Dick) e Jack London (O Lobo do Mar) surfaram na mesma onda. Mas quem de fato “fotografou” o mundo paradisíaco com que sonhavam filósofos e poetas foi o pintor francês Paul Gauguin (1848-1903), que se mandou de paleta e pincel para o Taiti e abafou a banca, captando toda a cor que estava ao sul da geografia européia.

Como nasceu o tiki bar

tiki_tomenta_perfecta_frank

Apresentação carrancuda do coquetel Tormenta Perfecta, assinado pelo bartender Spencer Amereno Junior, do Frank Bar, no Maksoud Plaza

Tá, o assunto aqui é dringue. E foi justamente um viajante que começou com essa onda colorida berrante na coquetelaria americana. Don The Beachcomber (1907-89) era o típico biscateiro, trabalhou como estacionador de carros, ajudante de contrabandistas de bebidas no fim da Lei Seca, entre outras mumunhas, inclusive a de “penteador de praia” – beachcomber é quem faz do seu sustento encontrar objetos de valor esquecidos ou perdidos na areia. Viajou bastante pela Polinésia e de lá trouxe alguns badulaques com que enfeitou seu primeiro boteco, aberto em Los Angeles, em 1934. O primeiro tiki bar da história, que logo atraiu a atenção dos descolados da época.

Bom de lábia e sedutor, Don logo se afinou com os famosos, era chapa de Marlene Dietrich e David Niven. Chegou a atuar como consultor em filmes hollywoodianos ambientados nas ilhas do Pacífico – o technicolor começava a bombar, Dorothy Lamour arrasando em seu sarongue. Mas simpatia e uma decoração exótica não sustentam a fama de um bar por muito tempo. O grande legado de Don foi ter criado alguns dos drinques clássicos com que nos deliciamos até hoje. Em seu obituário o New York Times contabilizou a autoria de 84 coquetéis, inclusive a do Mai Tai, a receita tiki por excelência, cuja invenção foi reclamada pelo empresário Trader Vic, outro gigante do ramo, que começou carreira na mesma década em Oakland, na baía de São Francisco.

www.tbfoto.com.br BARE - SP/SP - 08/04/2015 Foto: Tadeu Brunelli ATENCAO: Toda foto deve ser publicada com o credito do autor, na sua integra sem cortes ou modificacoes, de acordo com a Lei Nº 9.610 de 19/02/1998.

Jack Sparrow, a tradução tiki do bartender Rafael Pizanti, do Barê, em São Paulo

O segredo de Don era o rum, bebida barata na época, com que inventava suas alquimias com o suco de frutas frescas, bitters e apresentações vistosas, flores, canudinhos, copos malucos – aquelas que a gente vê nos navios até hoje. Não, não eram drinques típicos das ilhas que Don visitou – lembre-se: ele era bom de bico e fez muita gente engolir a conversa com gosto. No quesito culinário também tapeava: dava um ar incrementado em pratos orientais que havia aprendido em suas perambulações como ajudante em restaurantes e dizia que a gororoba era da Polinésia.

Em pouco tempo já havia inúmeros imitadores, bartenders criando outras misturas, cada um querendo dar mais show que o outro. Depois de duas ressacas bravas (a Grande Depressão e a Lei Seca), o país viveu uma febre tiki, explicada por um historiador do assunto, Jeff “Beach Bum” Berry. “Ir a um tiki bar funcionava como tirar miniférias. As pessoas estavam ávidas por fantasia e com pouco dinheiro no bolso. Todos os olhos estavam voltados para o Pacífico Sul, percebido como um lugar de abandono exótico, onde não era preciso trabalhar para viver. Era exatamente o oposto de estar numa cidade americana no inverno de 1934”, disse Berry em entrevista ao site Eater.com.

tiki_tonga_room

Cartão postal da década de 1950 do Tonga Room, em São Francisco

Apogeu e decadência

Don e Vic prosperaram nos negócios, viram suas marcas transformarem-se em redes e abrir filiais em várias cidades americanas (existem até hoje, sendo a Trader Vic’s global, presente até na Arábia Saudita, e o Don The Beachcomber com um endereço na Califórnia). Stephen Crane, marido de Lana Turner, entrou no ramo e abriu o Luau, o tiki mais chique de Los Angeles. Em 1945 foi a vez de São Francisco ganhar seu tiki lounge de respeito, o Tonga Room, funcionando até hoje no Fairmont Hotel, onde uma piscina interna foi transformada em “lagoa”. O lugar passou recentemente por uma reforma de um milhão de dólares e voltou com tudo aos seus dias de glória.

tiki_elvis_presley

Elvis passa aquela cantada em Feitiço Havaiano (1961)

Durante a Segunda Guerra Mundial, outro tempo de dureza e incertezas, fantasiar com um coquetel de abacaxi e rum nas mãos continuou sendo uma boa pedida. A traumática presença das tropas americanas no Havaí acentuou o apreço pelas coisas daquele paraíso longínquo. E a anexação do arquipélago aos Estados Unidos no fim da década de 1950 deu nova dose de combustível para a onda tiki: agora era possível dar um pulo no paraíso pelo preço de uma passagem doméstica.

Foi o tempo de Elvis e dos filminhos em que se enrabichava com belas ilhoas. E de seriados de tevê como Hawaiian Eye, em que uma turminha desvendava crimes em cenário tropical. A surf music de Jan & Dean e dos Beach Boys botou lenha na fogueira. E dá-lhe Mai Tai, Pain Killer, Piña Colada, Zombie, Navy Grog, Daiquiri (Cuba entrou no pacote tiki), Bora Bora, Planters Punch – todos os clássicos criados por Don, Vic e seus seguidores. Agora em taças malucas, com máscaras tiki. Essa, aliás, é a origem do nome: os deuses Tiki da Polinésia, carrancudos e amedrontadores.

tiki_barbarella

Barbarella (1968) é kitsch, mas não é tiki

Mas as modas passam. A coquetelaria americana, de maneira geral, viveu um momento de ocaso na virada dos anos 1960 para os 70. Pedir um Old Fashioned passou a ser exatamente o que o nome do drinque sugeria: algo fora de moda, manguaça de gente quadrada. Drinques tiki, então, amargaram o ostracismo. Ora, veja só se tem cabimento abacaxizinho, guarda-chuvinha e cerejinha combinando com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Grateful Dead, protestos contra a Guerra do Vietnã, minissaia, Barbarella e Woodstock. A indústria alimentícia – sempre ela – acabou por jogar a pá de cal no mercado de drinques tropicais, quando inventou aqueles mixes para coquetéis, cheios de sacarose. Manja aquela Piña Colada que vem pronta no garrafão de plástico, similar à batida Baianinha vendida em supermercado? Qualquer coisa tiki virou sinônimo de doçura de doer os dentes, pedida de turista jeca em resort temático.

Ué? Eu não disse lá no título que o tiki tava com tudo? Pois é. As modas voltam. Na virada do milênio, com o boom da coquetelaria autoral (ou melhor, mixologia) em grandes centros como Nova York e Londres e se espalhando pelo mundo, o talento do bartender foi revalorizado e os ingredientes naturais, muitas vezes processados no próprio bar, é que fazem toda a diferença. Nada de mixes industriais, hoje até o suco de tomate das boas casas do ramo é preparado com frutas frescas. Sinal aberto para o tiki voltar à cena, com toda sua opulência de cores e sumos, em bares estrelados do planeta.

O meu eu quero com guarda-chuvinha, OK?

PEQUENO ROTEIRO TIKI EM SÃO PAULO

BRASSERIE - Tiki Lemon Grass -

Tiki Lemongrass, criação de Marcelo Serrano no Brasserie des Arts, São Paulo

É possível fazer uma peregrinação tiki em alguns dos bares bacanas de São Paulo e beber drinques clássicos com o charme das canecas típicas e as receitas recriadas com o toque pessoal dos nossos bartenders.

Nos Jardins, Marcelo Serrano colocou uma carranca tiki toda invocada na nova carta da Brasserie des Arts. O Tiki Lemongrass (R$ 29) leva vodca, infusão de mate, abacaxi, capim-santo, rum jamaicano Appleton, grapefruit e soda limonada.

Ali pertinho, no Barê, Rafael Pizanti também criou sua alquimia à moda tropical, o Jack Sparrow (R$ 27), com nome de pirata, uísque Jack Daniel’s, maracujá e o toque cítrico de refrigerante natural de gengibre.

Outro mixologista que não ficou de fora da onda (e leva o prêmio por ter encontrado a taça mais divertida) é Spencer Amereno Junior, do Frank Bar, no Maksoud Plaza. Seu Tormenta Perfecta (R$ 31) vem com Rémy Martin VSOP, Rum Angostura 5, mel, cítricos de grapefruit e limão e Frank’s Extra Spiced Ginger Ale.

Fabio La Pietra, na nova carta do SubAstor (sobre a qual já falamos aqui), Vila Madalena, também recriou uma receita tiki clássica, o Pain Killer (R$ 29), em que usa dois tipos de rum, laranja, coco, abacaxi e Absinthe Bitter.

Dá para fazer tudo numa noite, tipo bar hopping, se você estiver estiver decidido a mergulhar na praia tiki de vez.

RECEITA DE MAI TAI

Tonga_Room_tiki

Mai Tai do Tonga Room, no Fairmont Hotel, São Francisco

Embora haja inúmeras maneiras de preparar o Mai Tai, escolhemos aqui a do Tonga Room, de São Francisco, por ser um dos tiki bars mais longevos da história.

Ingredientes

30 ml de suco de limão

90 ml de suco de abacaxi

7 ml de xarope de amêndoa

30 ml de rum envelhecido

30 ml de rum claro

30 ml de licor de laranja (Cointreau)

Gelo picado

1 cereja maraschino para decorar

1 fatia de abacaxi para decorar

Modo de preparo

Coloque todos os ingredientes num copo grande (no mínimo, 250 ml), adicione o gelo e mexa. Jogue a cereja, decore com  a fatia de abacaxi e se quiser, com um ramo de hortelã. Compartilhe, pois a receita é farta.

*

Playlist tiki saindo para a mesa 5!

*

Créditos das fotos: Tormenta Perfecta (Rubens Kato/Divulgação), Jack Sparrow (Tadeu Brunelli/Divulgação), Pain Killer (Leo Feltran/Divulgação), Paul Gauguin (Reprodução/MASP), Mai Tai (Cortesia Fairmont Hotel), Demais Imagens (Reprodução).

4 comentários sobre “O tiki tá com tudo

  1. Pingback: Nova carta de Laércio Zulu no Anexo São Bento conta histórias com coquetéis | Dringue

  2. Pingback: Poke Haüs acende a chama da coquetelaria tiki em pleno inverno | Dringue

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s