Você é pinguço?

A cachaça aparece em drinques cada vez mais chiques, que em nada lembram a não menos gostosa caipirinha. Aprenda a prepará-los com o bartender Kascão Oliveira e entenda um pouco sobre o preconceito histórico sofrido pela nossa boa e velha pinga – o que leva até hoje qualquer bebedor mais atirado a ser chamado de pinguço

Por Sergio Crusco

Cachaca Wiba Barman - Kascao Oliveira Wiba Wasabi
É de cachaça com wasabi, tá? E não digam que não é chique

O filho de uma amiga, em certa fase da infância, veio com a ideia engraçada de perguntar aos adultos, fazendo cara marota: “Você é pinguço?”

A mãe, vermelha como Bloody Mary (bebida que ama), explicava: “Filhinho, somos pessoas refinadas, bebemos bebidas de qualidade. Pinguço é quem bebe cachaça na esquina”.

À parte as conclusões sociológicas que se possa tirar da conversa, sempre me divertia com a pergunta e respondia: “Eu? Sou bem pinguço”. Ele morria de rir.

Imagino que o menino devia se divertir a valer com a sonoridade brasileirinha da palavra que acabara de aprender, cada sílaba com seu tom, sua música, seu suíngue. Saía dançando e cantarolando pela casa: “Eu sou pin-gu-ço! Eu sou pin-gu-ço!” Hoje, formado engenheiro, é dos moços mais sóbrios que já vi: não bebe um pingo. Sua mãe e eu, no entanto… Bom, deixa pra lá.

Mas já percebeu que quem ultrapassa os limites do bom senso não tem outra pecha na vida a não ser essa? Numa festa de casamento, pode ter sido servido o melhor champanhe, se a criatura tropeça no rabo da noiva, conta descalabros sobre a vida pregressa do noivo para a rodinha de tias-avós, cai de cara no bolo e vai parar no YouTube, não dá outra. O cochicho corre solto: “Que pinguça…”

engenho
Aquela aquarela de Debret retratando um engenho de cana brasileiro no começo do século 19

Por que a danada da cachaça é quem leva a culpa? Ih, história e histórias bem longas. O preconceito dá tese acadêmica (aliás, já foi feita, leia aqui o trabalho do historiador Lucas Endrigo Brunozi Avelar). Muito resumidamente, a cachaça produzida no Brasil colonial atrapalhou um bocado os negócios da Coroa. Cana-de-açúcar sempre deu como capim por aqui e a grande commodity era mesmo o açúcar. A bebida destilada do caldo era barata, opção bem mais mão-na-roda (para os pinguços) do que fazer a cabeça com os vinhos e bagaceiras importados de Portugal. A caninha foi usada como moeda de troca entre traficantes de escravos e em todo o tipo de transação em que se quisesse passar a perna no fisco.

Foram várias as tentativas de manter o monopólio português no comércio de birita – leis, proibições, taxações. Deu bafo: a Revolta da Cachaça, em 1660, no Rio de Janeiro, talvez tenha sido o primeiro panelaço da nossa história. Os donos de engenho não se conformaram com a ordem imperial de destruir todos os alambiques e de apreender qualquer carregamento de quem ousasse navegar com pinga na pança do navio.

O Caribe era forte concorrente no comércio de açúcar e a cachaça, moeda paralela, representava boa chance de lucro num mercado dividido. Defendendo o bolso de Portugal, toca a Igreja demonizar a cachaça, no que conseguiu bons resultados. E toca dondoca cujo marido ganhava boa bufunfa transando a marvada no mercado negro torcer o nariz para aquele hábito ralé, dizendo “ui? coisa de pobre!”. Morou na timeline?

Cachaca Wiba Barman - Kascao Oliveira Wiba Sensation
Wiba Sensation, criação toda pink de Kascão Oliveira

Corta para São Paulo, anos 1980. “Naquele tempo, se eu falasse de cachaça, estava arriscado a perder o emprego”, diz o mítico bartender Kascão Oliveira, que nem ousava oferecer a branquinha ou a dourada para os baladeiros que molhavam o bico com suas criações: Hebe Camargo, Pelé, Roberto Carlos e toda a turma de poderosos que sacudiam a boate Gallery, inferninho mais chique de então.

Os tempos mudam (as timelines é que continuam meio parecidas). Kascão, ao lado de outros bartenders e mixologistas modernos, hoje é um dos grandes divulgadores das possibilidades da cachaça na coquetelaria. Ela vem perdendo a fama de bebida do populacho, finalmente, e aparece em drinques vistosos e bem equilibrados, que vão muito além da caipirinha, como os que você vê aqui. Ou alguém vai supor que você seja pinguço ou pinguça ao empunhar uma taça de Wasabi Berry (lá em cima) ou Wiba Sensation (aqui pertinho)?

Claro que os meios de se produzir cachaça – de envelhecê-la em diversos tipos de madeira, de extrair o melhor que o sumo da cana pode oferecer – evoluíram muito dos tempos coloniais para cá. Isso dá tanto assunto e bons dringues, temos muito o que papear. Mas ainda acho a maior graça na pergunta do amiguinho: “Você é pinguço?”

AS RECEITAS PINGUÇAS DE KASCÃO

Wiba_crédito Camila Cicolo 28-Edit2As novas alquimias de Kascão são preparadas com as cachaças Wiba!, produzidas em Torre de Pedra (SP) por Wilson Barros (manjou o jogo de sílabas?). São finíssimas, Wilson garante que usa nelas só o coração da destilação, com menos aldeídos, os malditos que provocam queimação e ressaca. Tem a branquinha, a descansada em amburana e a preparada com blend de carvalhos. Mas sempre é bom lembrar para ir com jeitinho: elas pegam, como qualquer bebida alcoólica de alto grau.

Wiba! Sensação 

Ingredientes

50 ml de Wiba! Blend de Carvalhos

50 ml de suco de Caju

50 ml de licor de morango

50 ml de refrigerante Citrus

Decorar com Morango

Modo de preparo

Em uma  coqueteleira, coloque 10 cubos de gelo. Adicione todos os ingredientes, menos o refrigerante Citrus. Faça o shaker e passe para um copo longo. Complemente com Citrus e finalize decorando com 1 morango. Beba com um canudinho.

Wiba! Wasabi Berry

Ingredientes

40 ml de Wiba! Amburana

1 colher de bar de geléia picante

Uma pitada de wasabi em pasta

30 ml de suco de blueberry

Modo de preparo

Em uma coqueteleira com gelo, coloque todos os ingredientes. Faça o shaker durante 8 segundos. Coe transferindo o drink para uma taça tipo coupe.

As receitas acima podem ser provadas no bar Armazén Paulista (Alameda Jauaperi, 570, Moema, SP). Se quiser manter-se na tradição da Caipirinha, Kascão recentemente criou uma carta multicolorida para o recém-inaugurado Rei do Picadinho (Rua Iguatemi, 488, Itaim, SP).

Música – e letra – de Pixinguinha 

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Créditos das fotos: Drinques (Divulgação), Cachaças Wiba! (Camila Cicolo/Divulgação), Debret (Reprodução)

2 comentários sobre “Você é pinguço?

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