Bebendo com Mick Jagger

O vocalista dos Rolling Stones se apaixonou pelo Tequila Sunrise na Califórnia, em 1972. Até hoje o coquetel é sucesso nas festas tropicais

Por Walterson Sardenberg Sº

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“Give me little drink from your loving cup”

Mick Jagger lançou um modo muito pessoal de cantar (embora pagando tributo a Don Covay), criou alguns dos melhores rocks do gênero e transformou os Rolling Stones numa máquina de fazer dindim. Mas, por favor, não inventou o Tequila Sunrise, como teimam alguns tratados sobre coquetéis. Apenas divulgou o drinque — depois de enxugar dezenas de galões, é bem verdade.

O Tequila Sunrise, assim como o blues de 12 compassos — pedra fundamental do rock —, tem simplicidade genial e origem enigmática. Sua combinação é perfeita: o tequila imprime a marca quente, enquanto o suco de laranja garante a acidez, e o granadine — produzido a partir da romã — adiciona o toque adocicado do final de boca. O coquetel faz jus ao nome sunrise (nascer do sol): logo após a montagem do drinque, nota-se a cor do granadine avançando sobre o matiz laranja como se fosse a aurora invadindo o horizonte — comparação que, vá lá, soa um pouco brega, mas nem tanto quanto Angie, canção em que os Stones erraram a mão no açúcar.

O nome Tequila Sunrise surgiu no fim dos anos 1930, no vocabulário do bartender Gene Sulit, do hotel Arizona Biltmore, de Phoenix, no Texas. Era então um coquetel absolutamente diferente da versão atual. Levava limão, soda e creme de cassis. O hotel sustenta que a variante que pegou, aquela com laranja, também é da lavra de Sulit. Será? Há antecedentes para descrer: o Biltmore garante ter sido desenhado pelo estupendo arquiteto modernista norte-americano Frank Lloyd Wright — e até batizou seu restaurante e seu bar com o nome de Wright. Eis aí um embuste. O próprio Wright atribuía o projeto a Albert McArthur.

Kurt Russell, Michelle Pfeiffer e uns bons dringues em Tequila Sunrise (1988)

A moderna versão do Tequila Sunrise, de acordo com a história mais verossímil, surgiu no bar Trident, em Sausalito, litoral da Califórnia — hoje, o refinado restaurante Horizons. No ano de 1972, atrás de seu balcão, o barman Bobby Lozoff — agora trabalhando com computação no Havaí — criou o Tequila Sunrise de laranja e o ofereceu a Jagger, em uma festa fechada para os Stones. “Mick pediu uma margarita e perguntei se topava experimentar algo diferente”, lembra Lozoff. Jagger aceitou, adorou e, a partir daí, espalhou a receita. Mal sabia que Lozoff, outro espertalhão, apenas adaptara o drinque Singapore Sling, criado em Cingapura, no ano de 1915. “Só troquei o gim pelo tequila”, informa o meliante, nesta história em que o único santo deve ser Keith Richards, o traquinas guitarrista da banda.

Ninguém também caminha com auréola sobre o cocuruto no filme Tequila Sunrise (no Brasil, Crepúsculo Tequila). Não há laranjas (no sentido de almas ingênuas) neste policial, rodado em 1988. Mel Gibson e Kurt Russell são amigos, atuando em lados opostos. Um é um traficante arrependido — ou nem tanto. O outro, um policial de moral volúvel. Ambos se apaixonam por uma ladina dona de restaurante, Michelle Pfeiffer. Reconhecido como o hábil roteirista de filmes inesquecíveis (Chinatown e O Poderoso Chefão, por exemplo), o cineasta Robert Towne ainda não tinha àquela altura a mão segura na direção demonstrada em Pergunte ao Pó (2006). Para compensar, o longa-metragem exibe as mais quentes cenas de amor de La Pfeiffer — em dupla com um felizardo Mel Gibson. É quando o tequila predomina sobre os demais ingredientes.

Tequila Sunrise garnished with orange and cherry, shot on a white background.
Tequila Sunrise: uma aurora invadindo o horizonte… Meio brega, bem gostoso

TEQUILA SUNRISE

Ingredientes

250 ml de suco de laranja fresco

50 ml de tequila prata

15 ml de grenadine

4 pedras de gelo

Cereja e meia rodela de laranja para decorar

Modo de preparo

Deposite quatro pedras de gelo em um copo longo. Acrescente o tequila. Adicione o suco de laranja. Não é necessário mexer. Agregue o grenadine com absoluto cuidado, devagarinho e bem na borda do copo, com o auxílio de uma colher bailarina. Sirva com a cereja e a rodela de laranja na decoração.

Rolling Stones querendo uma bicadinha da sua taça, J.J. Cale chorando as pitangas sobre o tequila e ela, Michelle, mandando brasa no vocal

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Créditos das fotos: Mick Jagger, Michelle Pfeiffer e Kurt Russell (Reprodução) / Tequila Sunrise (Evan Swigart/Wikimedia Commons)

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