Frigobar é o speakeasy à nossa moda

O Frigobar traz para São Paulo o clima dos speakeasies americanos, onde se bebia clandestinamente durante a época da Lei Seca. Coquetéis clássicos daquela era são revividos no bar quase secreto, onde é preciso ter senha para entrar

Por Sergio Crusco

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“Vai um dringue aí? Esse é só para a diretoria”

Tá na moda. Nas cidades mais sacudidas do mundo – Londres, Nova York, São Francisco – o último grito é arranjar um lugar bem mocozado, de preferência porão, montar um bar quase secreto e chamar o novo inferninho de speakeasy. Esses endereços procuram reviver a era em que o álcool foi proibido nos Estados Unidos, de 1920 a 1933, com o resgate de coquetéis clássicos e todo um jogo de cena bolado para o cliente se imaginar nos tempos da Lei Seca, manguaçando clandestinamente. Dá um barato diferente, isso dá.

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Twelve Mile Limit: clássico revivido

São Paulo, novidadeira que só, já tem o seu. O Frigobar vinha sendo cochichado nos meios dringueiros e sua espera, bastante aguardada. Abriu no dia 8 de setembro, num mocó chique: o subsolo do NOH Bar, nos Jardins, recheado de móveis e objetos antigos.

Leitura e viagens são alguns dos ingredientes da empreitada. Enquanto o bartender Pablo Moya visitou os Estados Unidos, seu sócio Sylas Rocha rodou Dublin, Londres, Paris e Estocolmo, de olho em tudo o de interessante que se fazia por lá. Dos compêndios de coquetelaria, sacaram receitas esquecidas da era da proibição como o French 75 (gim, limão siciliano e espumante), o Twelve Mile Limit (bourbon, rum envelhecido, brandy de jerez, limão siciliano e romã) ou o Mary Pickford (rum, maraschino, abacaxi e xarope de romã), batizado em homenagem à atriz, claro. Classicões como o Dry Martini, o Manhattan e o Old Fashioned não ficam de fora. Com assinatura e toques pessoais dos anfitriões.

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“A senha, meu chapa”

Há regras e espera para conhecer o Frigobar. Ele só abre às terças e quartas, só cabem 25 pessoas e a reserva deve ser feita por e-mail. Nem telefone tem. Quem chega lá é recebido com graça por Simon, o leão de chácara, e levado à entrada que não temos autorização para contar como é (e também não é legal contar tudo). Não sem antes dizer a senha. No barzinho diminuto, Sylas garante a animação: “É um show com começo, meio e fim”, diz. E, se estiver inspirado, também faz truques com cartas e alguns malabarismos.

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Z-Bloody Mary, com presunto e pepino

Fico impressionado com a rapidez e a técnica desses meninos da mixologia. Enquanto conta causos e explica as receitas que reproduz, cria ou reinventa, Sylas prepara coquetéis com a velocidade do sapateio de Fred Astaire e explica: “Drinque bom não dura mais de 10 minutos – de espera. De outro modo, o cliente fica impaciente e isso atrapalha sua percepção”.

Minha percepção sofreu abalos, no melhor sentido. A noite começou com um welcome drink bem levinho, o Celery Dry, com licor de aipo feito pelos próprios bartenders, dash de absinto, vermute seco e limão. Logo quis o drinque com nome de estrela, Mary Pickford, e gostei do seu jeito seco, pouco doce e refrescante. Mas embasbacado mesmo fiquei com o Bloody Mary maluco que Sylas criou. Além do tomate, o Z-Bloody Mary leva cubos de pepino e lascas secas e crocantes de presunto italiano de Parma por cima, mezcal no lugar da vodca (o que dá um tom defumado à mistura) e também mix de molho de soja com molho inglês apimentado. Você vai mordendo, bebendo e sonhando em ter uma mansão com piscina de suco de tomate incrementado. Tendo um bom bartender encarregado da manutenção.

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Sylas Rocha, the boss

Sylas conta que a criatividade dos bartenders americanos foi naturalmente testada com a Lei Seca. Toca inventar drinques que não pareciam drinques, em taças de chá ou canequinhas, como a do Mint Julep (uísque, angostura, hortelã e xarope de açúcar), de aparência inocente, mas forte pra danar. Os bitters também tiveram papel importante na época. Com tanta bebida ruim e de procedência duvidosa na praça, era preciso temperar, tapear, colorir o paladar dos pinguços com todo tipo de ingrediente aromático.

É o que vemos no Frigobar, embora ali todos os produtos sejam de primeira linha. Se quer ver e beber, é preciso colocar o nome na lista, pelo e-mail frigobarsp@gmail.com. São aceitas reservas de 4 pessoas no máximo, e não há possibilidade de mudar a data de sua visita depois de ter feito o pagamento antecipado de R$ 150. O preço inclui bastante coisa: o welcome drink da noite, um couvert, mais três coquetéis à sua escolha, água à vontade, sobremesa e café. Comidinhas e drinques adicionais são pagos à parte. No dia escolhido, você receberá sua senha e não deve esquecê-la: Simon não deixa entrar. Funciona das 21h às 2h e quem chegar depois das 22h também dança, fica de fora. Ah, o endereço é Bela Cintra, 1705, São Paulo. Mas não espalha.

A TAL DA LEI SECA

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“Porca miséria! Acharam meu gim”

É intrigante uma proibição que durou 13 anos e deixou os Estados Unidos no maior rififi. A lei, que tem nome de 18ª Emenda, foi obra de setores conservadores e religiosos da sociedade da época, que já vinham querendo brecar o hábito de bebericar desde o século 19. A União das Mulheres Cristãs pela Temperança foi um dos grupos que mais lutou pela medida. Vemos algo mais ou menos parecido em algumas bancadas de hoje, mas política discutimos aqui com parcimônia. Fato é que a Lei Seca, como toda proibição, gerou vontade, frisson, desespero, chilique, trimilique, crime, tráfico, contrabando, extorsão, corrupção e uma série de outros bichos.

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Um brinde ao fim da 18ª Emenda

Curiosamente, o ato de beber em si não estava prescrito na lei. Proibido era manufaturar, transportar e vender bebidas intoxicantes. Beber em casa podia, olha só. E os que tinham grana logo se prepararam, a partir de 1919, quando a lei foi anunciada, enchendo a adega com vinhos e destilados que imaginavam ser suficientes para brindar durante o período que durasse aquela chateação – sabia-se lá quanto tempo. Os pobretões tinham de se virar com o que se encontrasse no mercado negro ou descobrir a boca de birita mais próxima – os speakeasies ou bling pigs, todos eles dominados por gângsteres. Sobrava para eles, os pés-de-chinelo, ter medo da polícia e correr risco de vida. Gins fabricados em fundo de quintal e até em banheiras levaram muita gente à morte.

Outro mito sobre a Lei Seca é de que nunca se bebeu tanto nos Estados Unidos. De fato, a medida diminuiu o consumo – alguns historiadores que pesquisaram o assunto calculam que em cerca de 70%. Mas quem não abria mão da marvada bebeu, e bem. Mesmo após a decretação do fim da lei, em 1933, alguns estados americanos mantiveram a proibição – no Mississipi, até 1966. E o controle da Máfia sobre o comércio ilegal de bebidas estendeu-se por longos anos. A ação policial que atiçou o levante gay no bar Stonewall, na Nova York de 1969, foi motivada pela denúncia de que ali se vendia bebida falsificada. Juntou com homofobia, com cliente cansado de pagar caro por birita malhada, umas monas doidas para dar aquela lacrada no Village e deu no que deu. Mas essa história é boa para contar outra hora aqui no Dringue.

A trilha do Frigobar é outra delícia. Preparada pelo DJ Paulo Rita, tem uma queda especial pelas damas do jazz. Dá um bico em algumas coisas que tocam por lá

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Créditos das fotos: Imagens históricas (Reprodução), Twelve Mile Limit (Divulgação), Z-Bloody Mary e Sylas (Sergio Crusco)

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