Um dringue com Christianne Neves

A pianista, compositora e arranjadora Christianne Neves está num caso de amor com os vinhos da Itália, que visita com frequência e onde acaba de gravar um novo álbum, revivendo clássicos pop. Por outros países onde passa, não deixa de espalhar música e provar o que há de melhor

Por Sergio Crusco

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O que vinho tem a ver com música?

Vinho e música lembram celebração, não vejo essas coisas separadas. É o contexto de estar junto, do encontro, de preparar uma comida – massa, de preferência. Tocar ao vivo ou entre os músicos é assim, a mesma harmonia. Na Itália isso é muito forte.

Você, que tem andado pela Itália, o que provou de bom por lá?

Estou surpresa com a uva Nero d’Avola, típica da Sicília. É um vinho bem encorpado, tem sabor de terra. A Sicília é uma região muito árida e o vinho capta esse cenário. Acho que os entendedores do assunto não preferem essa uva, mas é o tipo de vinho que eu gosto. Ele lembra um pouco o Malbec argentino.

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Tenuta Rapitalà Nero d’Avola

Lembra de algum rótulo especial de Nero d’Avola?

Os vinhos da Tenuta Rapitalà são ótimos.

Que outras uvas italianas você curte?

A Primitivo, da Puglia. Os Chianti e a uva Sangiovese, da Toscana. Por falar em Toscana, outra paixão é o Brunello de Montalcino. Abri uma garrafa dele para comemorar os 40 anos. Outra para comemorar os 50.

Como rolou essa ponte entre Brasil e Itália para você?

Bom, tenho De Dominicis no nome, isso já é um começo. Durante uma turnê com a Fernanda Porto, há alguns anos, fomos parar em Palermo, na Sicília, onde dei um workshop, Il Pianoforte Brasiliano. Fiquei amiga de vários músicos que estavam na plateia, rolou uma energia de ligação com eles. Fui sendo chamada para shows e festivais, hoje vou para lá duas ou três vezes por ano.

Vai lançar um disco lá, não é verdade?

Sim, um disco de clássicos italianos com arranjos de jazz. São aquelas canções bem tradicionais, Senza Fine, do Gino Paoli, Io Che Amo Solo Te, do Sergio Endrigo, La Cura, do Franco Battiato. Mas fiz de um jeito pouco tradicional, com trio e a participação de vários cantores italianos.

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Errazuriz Blend

Em outros países por onde você toca, também descobre bons vinhos?

Estou sempre de olho, pesquiso, vou experimentando, aprendendo aos poucos. Estou nessa onda do Nero d’Avola, é uma fase. Acontece que alguns vinhos acabam gostando de mim também. Tocar no Chile, por exemplo, é sensacional, porque eles sempre colocam vários vinhos no camarim, brancos, tintos – e a gente vai provando. Dos últimos chilenos que bebi, me apaixonei pelos da vinícola Errazuriz.

Vi um cartaz com seu nome em um festival de jazz uruguaio. Achei engraçada a imagem da vaca.

Ha ha ha! É que o festival é patrocinado pela fazenda que produz o doce de leite Lapataia.

Bom, se gosta de vinhos encorpados, deve amar o Tannat uruguaio.

Sim, adoro o Tannat, especialmente o Amat, das Bodegas Carrau.

Erik Satie (1866-1925), compositeur français. RV-57030 /©Roger-Viollet
Satie, vinho e suingue

Tem outras bebidas que dividem sua atenção com os vinhos?

Sou do vinho mesmo. Muito de vez em quando, uma caipirinha de Absolut. Cerveja já tentei várias vezes, mas acho que ela é quem não gosta de mim. É dor de cabeça na certa.

E com que música esses vinhos todos têm harmonizado atualmente?

Estou na fase de rever minha coleção de vinis. Ando ouvindo tudo do Erik Satie e do Claude Debussy. E muitos espanhóis, Manuel de Falla, Isaac Albéniz e Joaquin Turina, um nome menos conhecido, que compôs várias danças flamencas.

O MOMENTO MUSICAL DE CHRISTIANNE NEVES

Eyin Okan, o terceiro álbum de Christianne, flerta com a percussão africana em vertentes que desembocam na América e na Europa, com pegada jazzística acentuada. Até Erik Satie ganhou inesperado suingue em sua versão da Gnossienne 1. Um pouco do que a pianista anda ouvindo a gente também ouve aqui. E enquanto o novo trabalho italiano não chega ao Brasil, vamos de Senza Fine, bela valsa de Gino Paoli, com Ornella Vanoni.

*

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Bueno-Cipresso 2005

ONDE ENCONTRAR
Alguns dos vinhos prediletos de Christianne Neves podem ser encontrados no Brasil. Na falta do Tenuta Rapitalà adorado, há outras opções de vinhos 100% Nero d’Avola como o Sallier de la Tour Nero d´Avola 2011, da Tasca D’Almerita (R$ 92,39 na Mistral)* ou o Caleo Nero d’Avola 2013 (R$ 42,43 na Adega Brasil). Alguns exemplares do Brunello de Montalcino, vinho potente elaborado a partir das uvas Sangiovese são o Bueno-Cipresso 2005, da linha do narrador Galvão Bueno (R$ 478,10 na Adega Brasil), ou o Brunello di Montalcino Argiano (R$ 379 no Empório Mercantil). Com bom potencial de guarda, os Brunellos decerto podem ser reservados para os aniversários redondos, como fez Christianne. O premiado uruguaio Amat Tannat também está na linha dos vinhos para grandes ocasiões (R$ 223,90 no Emporium Dinis). Entre os vinhos da vinícola chilena Errazuriz, o destaque fica para o Blend 2011, ainda não disponível no Brasil. Feito com as uvas Grenache, Mourvedre, Syrah, Carignan e Marsanne, uma explosão de frutas no aroma e no paladar. Na Vino Mundi, a safra 2008 pode ser encontrada por R$ 209. Na mesma loja há opções mais econômicas de rótulos da mesma vinícola, como o Errazuriz Estate Series Cabernet Sauvignon 2012/2013 (R$ 80,43) e o Reserva Merlot 2012 (R$ 80,43).

* (Preços e disponibilidade pesquisados em 15/9/2015)

Créditos das Fotos: Christianne Neves e rótulos (Divulgação), Erik Satie (Reprodução)

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