Bebendo tequila com Frida Kahlo

Tequila era a bebida preferida de Frida Kahlo, que a consumia em doses industriais, com a mesma paixão com que amava o pintor Diego Rivera, cuidava da casa, cozinhava, contava piadas cabeludas e celebrava a vida com os amigos – apesar das dores exasperantes que sofreu

Por Sergio Crusco

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Frida Kahlo: artista revolucionária e dona de casa prestimosa

“Eu bebo para afogar minhas mágoas, mas as malditas aprenderam a nadar”, dizia Frida Kahlo (1907-1954). Tinham fôlego de campeão olímpico, as danadas. Na conta da biógrafa Hayden Herrera, autora de Frida – A Biografia (2013), a pintora mandava uma garrafa de tequila por dia. Às vezes dispensava o copo, ia direto no gargalo, o que fazia brotar o vulcão de anedotas apimentadas com que adorava brindar seus convidados, na casa onde não faltava festa, embora as mágoas que a anfitriã tentasse afogar fossem muitas.

Estão retratadas em suas telas as imagens de tanto sofrimento – a poliomielite diagnosticada na infância e o terrível acidente de bonde sofrido na adolescência, que a fizeram sofrer dores exasperantes por toda a vida; as tantas operações a que foi submetida; o drama de ter passado por seguidos abortos (as sequelas do desastre que lhe perfurou o útero não permitiam que os fetos se desenvolvessem); as tentativas de suicídio; a sina de amar loucamente um homem, o pintor Diego Rivera, que não titubeava em traí-la com o primeiro rabo de saia que rodopiasse ali na esquina (inclusive com a própria irmã de Frida, com quem Diego teve um longo caso – e Frida também dava suas escapadas, com moços e moças). “Não pinto sonhos ou pesadelos, pinto minha própria realidade”, disse Frida em resposta à mania de enquadrarem sua arte na etiqueta surrealista.

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Frida e Diego Rivera (1931)

Guadalupe Rivera (filha do casamento anterior de Diego Rivera, com Lupe Marin) traça uma aquarela menos doída, ainda cheia de cores, da madrasta, com quem conviveu intimamente na infância e na adolescência. É a visão de uma jovem inebriada com os mimos de uma mulher que a acolheu como filha de verdade. No livro Las Fiestas de Frida y Diego: Recuerdos y Recetas (1993), Guadalupe nos fala de uma Frida festeira, bem humorada, sensual, piadista, musical. Além do amor e da pintura, seus grandes talentos eram a culinária e a decoração da casa – a célebre Casa Azul (hoje transformada em museu na Cidade do México) onde nasceu e viveu boa parte de seu casamento com Diego, entre idas e vindas de um romance intercalado por solavancos.

Quando casou-se com Rivera, em 1929 (ela aos 22 anos e ele aos 42), Frida não tinha o menor jeito com as caçarolas, a típica noivinha despreparada. Logo percebeu, porém, que uma das maneiras de garfar o coração do marido glutão era tornar-se boa cozinheira. Aprendeu rápido. Curiosamente, a primeira grande professora foi a ex de Diego, Lupe, que em dado momento entregou os pontos e admitiu que Frida a havia superado no preparo do mole poblano, prato de difícil execução, com uma infinidade de especiarias e pimentas.

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Mesa decorada com flores por Frida em 1937, em homenagem a Leon Trotsky, com quem teve um affair

Frida foi além nas suas investigações gastronômicas: fuçou compêndios de cozinha tradicional mexicana herdados da família, absorveu o que podia de mestres-cuca, feirantes, confeiteiros e da fiel cozinheira Eulália. Ia do trivial ao fenomenal, sempre com capricho nos detalhes que compunham cada refeição. Sua mesa era um primor. “Ela usava toalhas bordadas típicas, misturava louças simples customizadas com suas iniciais com potes e travessas de Talavera [artesanato em barro da região de Puebla], talheres de prata e copos azuis de vidro soprado a mão. Nunca faltavam flores no centro da mesa, quase sempre as que cultivava em seu jardim e com que também enfeitava seus cabelos”, escreve Guadalupe, que compilou mais de cem receitas comuns nas comemorações e no cotidiano da família.

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A noiva que se espanta ao ver a vida aberta (1943)

Quando a data era festiva, superava-se. “Frida era entusiasmada, aproveitava de tudo ao máximo. O mundo ao seu redor era suficiente para causar permanente regozijo. Celebrava os dias santos, os aniversários, os batismos e a maioria dos feriados religiosos e pagãos. Fazia com que todos estivessem envolvidos – amigos, familiares, estudantes, colegas – e adorava misturar-se às multidões nos mercados, nas praças, nas festas tradicionais”, conta a filha de Rivera.

Das lembranças de Guadalupe, uma das mais ternas era observar Frida no preparo da lancheira de Diego. Onde quer que ele estivesse trabalhando, recebia um farnel guarnecido com doçura. Não faltavam pimentões recheados ou algum outro petisco suculento, acompanhado de pão para raspar os molhos gostosos, frutas da estação e uma jarrinha de pulque, bebida fermentada do agave. Decorava a merenda com flores e a arrematava com um bilhete em letra miúda: “Felicidades, mi amor”.

COMO BEBER TEQUILA

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Coleção de tequilas Frida Kahlo

Camisetas, almofadas, bonecas, sacolas, chaveiros e toda sorte de badulaques com a cara de sobrancelhas grossas de Frida Kahlo a gente vê por aí – basta dar um rolê por qualquer feirinha pop, em qualquer canto do mundo. Era natural que a imagem da pintora também fosse parar num rótulo de tequila, o que aconteceu em 2005 e causou fuzuê no mundo da arte. Isolda Kahlo, sobrinha da artista, armou a transação e foi duramente criticada pela sanha mercantilista com que cuidava do legado da tia. Rolou pedido de boicote ao Tequila Frida na internet. Houve quem defendesse a jogada de Isolda, com o argumento de que Frida adoraria ter um tequila com seu nome.

Beber uma garrafa por dia, todo mundo sabe, é problema. Mas Hugo Delgado, chef e proprietário do Obá Restaurante, em São Paulo, diz que beber um tiquinho todo dia é hábito corriqueiro no México. Começa cedo. “Ao meio-dia é tequila time“, diz ele. E as pessoas vão trabalhar normalmente depois de ter tomado uma ou duas doses? “Vão”, responde Hugo com mexicana naturalidade. E continua ensinando: “tequila”, no México, é palavra masculina, assim como “samba” no Brasil.

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Beber tequila com limão e sal não é crime. “Mexicano come e bebe tudo com limão”, explica Hugo Delgado. Mas o acompanhamento pode matar as características de uma bebida mais refinada – você é quem sabe

Para se chamar tequila, a bebida deve ser destilada do agave azul e ser produzida nos estados de Jalisco, Guanajuato, Michoacan, Nayarit e Tamaulipas. Tudo o que não vem dessa região ou é produzido com outro tipo de agave recebe o nome genérico de mezcal – ou seja, todo tequila é mezcal, mas nem todo mezcal é tequila. O pulque, bebidinha que ia na lancheira de Diego Rivera, é de agave também, porém fermentado. A lei mexicana permite que o tequila contenha até 49% de outros álcoois vegetais (geralmente de cana-de-açúcar). Os tequilas 100% agave, portanto, são mais puros e mais caros.

É pelos purinhos que você deve começar, se quiser conhecer melhor a bebida. Hugo recomenda provar primeiro os exemplares sem envelhecimento, os tequilas blancos, que repousam de 0 a 4 meses em tanques de aço e guardam as características florais e minerais da bebida. O tequila vai ganhando cor e complexidade nas categorias joven (oro ou gold, geralmente blends de tequilas jovens e envelhecidos), reposado (2 a 11 meses em barris de carvalho), añejo (pelo menos um ano em barril) e extra añejo (pelo menos três anos).

Aí vai do gosto. Quem prefere bebidas mais frescas vai de tequila jovem, fãs dos tragos mais complexos avançam nos rótulos envelhecidos. Na coquetelaria, o mesmo raciocínio: tequilas menos envelhecidos para drinques refrescantes e os mais idosos para misturas potentes. Para saber mais, leia a materinha da equipe Dringue no UOL, clicando aqui.

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“Nada me hará tan feliz como tres Margaritas”

RECEITA DE MARGARITA CLÁSSICA

Hugo Delgado nos ensina a fazer a Margarita perfeita, de limão, melancia ou abacaxi

Ingredientes 

¼ de xícara de Tequila 1800 Silver

2 colheres (sopa) de Cointreau (licor de laranja)

½ limão

Gelo

Sal

Clássica: 1 colher (sopa) + 1 colher (chá) de suco de limão

Melancia: ½ xícara de pedaços de melancia transformados em suco

Abacaxi: ½ xícara de pedaços de abacaxi transformados em suco

Modo de preparo

Umedeça a borda de uma taça martini com limão, passe a borda da taça num pires com sal para crustar (na de melancia e na de abacaxi, fica bem misturar um pouco de chili em pó ao sal). Reserve a taça. Coloque 5 cubos de gelo numa coqueteleira, agregue o tequila, o Cointreau e o suco da fruta de sua preferência. Agite bem durante 15 segundos e coe na taça crustada com sal.

Música para afogar as mágoas

*

Créditos das fotos: Frida Kahlo e Mesa para Trotsky (Reprodução), Frida e Diego (Reprodução/MoMA San Francisco), La Novia que se Espanta (Reprodução/Coleção Particular), Tequila Frida Kahlo (Reprodução/Frida Kahlo Corporation), Tequila com Limão (Reprodução/Restaurante 1900 Mexican Grill), Margaritas do Obá (Divulgação)

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