Um dringue com André Cancegliero e Fernando Pieratti, da Cervejaria Urbana

Centeio Dedo é a nova cerveja da Urbana, uma Rye IPA aveludada e potente – mais uma aventura de uma marca que tem causado polêmica, alegria e frisson. Conversamos com dois desses meninos maluquinhos que criam rótulos com nomes como Gordelícia, Trimiliqui e Prima Pode

Por Sergio Crusco

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André Cancegliero e Fernando Pieratti no lançamento da Centeio Dedo no Empório Alto dos Pinheiros (Fernando: “Mas vai colocar foto minha com cigarro na boca?”. Eu: “Foi a que ficou melhorzinha”. Fernando: “Então, vai com cigarro mesmo”.)

André, fala da Centeio Dedo, essa cerveja que estamos provando hoje. [Estamos no Empório Alto dos Pinheiros, templo da cerveja boa em São Paulo]

André – É uma American Rye IPA, um estilo pouco conhecido no Brasil. É feita com 30% de centeio, o que dá cremosidade à cerveja e uma certa picância. Ela é aveludada, também por causa do centeio, e tem esse amargor típico da IPA.

E mais esse nome maluco.

Ih, isso é coisa do meu sócio. Ele que inventa os nomes. Vem aqui, Fernando.

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Centeio Dedo: rótulo explicativo

De onde vem a inspiração para criar os nomes loucos da Urbana, Fernando?

Fernando – Do cu.

(Quem fica com cara de cu sou eu)

Fernando – Ha ha ha! Essa foi uma resposta que dei no Facebook, achei boa, repeti, mas não é nada com você. Brincadeira… A inspiração vem do dia a dia, humor juvenil de moleque grande que acha que ainda tem 15 anos, monta casa na árvore, faz cerveja, junta um monte de amigo bêbado sem filtro e fica falando merda.

André – Quando a Urbana não era comercial, algumas brincadeiras eram até mais pesadas. Outras, nem tanto. A que deu problema mesmo foi uma bem leve, quando só brincamos com o nome de uma cerveja famosa – não vai colocar o nome aí, por favor, se não vamos ter problemas de novo. Recebemos e-mail intimando, acharam na internet. Só que a cerveja que nós fizemos nem existia mais. E toca explicar que nem existia mais…

Como começou a Urbana?

André – Começou em 2010, era uma turma mais de engenheiros e menos de publicitários. O Fernando, que é publicitário, chegou depois, veio com umas ideias de decoração, umas bandeirinhas tailandesas, abajur. A gente nem sabia onde colocar o abajur.

Fernando – Cheguei em 2012 e comecei a fazer os rótulos da Urbana. Aprendi sozinho, no photoshop.

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Rótulo original da Summer Ale Refrescadô de Safadeza, quando a Urbana era ainda mais sacana, não menos gostosa

E qual foi o passo para se tornar comercial?

André – Em 2013 nos tornamos comerciais, antes montamos um clube de assinatura, tínhamos nossos assinantes e fazíamos uns 12 estilos de cerveja por mês. Era legal ter esse feedback, porque a gente fazia a nossa cerveja e gostava. Mas uma coisa é você gostar, outra é ter mais 6 mil vocês gostando. Fizemos umas 800 receitas, delas 260 ganharam rótulos, outras nem dava tempo de fazer rótulo.

800 é muita coisa! Como vocês organizam o portfólio hoje?

André – Já lançamos 18 cervejas comercialmente, mas mantemos cinco rótulos de linha, o resto é sazonal. O mercado demanda expectativa, novidade, o público quer saber o que vem por aí. A Antimatéria [Russian Imperial Stout], por exemplo, saiu quase zerada da fábrica, 90% já estavam vendidos antes de ela ficar pronta.

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Antimatéria Russian Imperial Stout: quem não tomou, corre lá, pode acabar

Vão fazer mais da Antimatéria?

André – Por enquanto, não.

Como decidem o que fica em linha e o que vira sazonal?

André – A cerveja tem uma explosão de vendas quando é novidade, depois estabiliza, depois cai. O que cai transformamos em sazonal.

Fica aquela saudade.

André – Sim, ficamos de olho nessa saudade dos fãs. A La Sorciere [Belgian IPA] tem muita gente pedindo para voltar. É uma das próximas que vão voltar.

E as que vem aí, quais são?

André – Uma cerveja em parceria com o Falcão, uma Blond Ale com caju, chamada Cornífera. Outra exclusiva para o Paulo Almeida, aqui do Empório Alto dos Pinheiros, cujo estilo ainda não está definido. E mais uma em parceria com a cervejaria holandesa De Molen, também segredo.

O Falcão da música brega?

André – Ele mesmo.

Como rolou essa história?

André – O pessoal da Confraria Lupulados fez um meme com o Falcão segurando a cerveja deles, a Severina. O Falcão adorou, procurou os garotos para fazer uma cerveja. Os garotos nos procuraram para fazer a cerveja juntos e a ideia foi em frente. Virou uma colaboração.

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Falcão lupulado provando a sua cerveja, a Cornífera, em breve perto de você

Como foi criar uma cerveja com o Falcão?

André – Ele é bem tímido, bem diferente do personagem Falcão que a gente vê com terno brega e girassol na lapela.

Fernando – Nem dá para imaginar que o cara escreveu aquela letra: “Não é verdade que mulher feia só sirva pra peidar em festa, conforme poderia acreditar Hebe Camargo”.

André – Fomos trocando ideias e explicando: “Falcão, a cerveja é sua também”. Aí ele veio com a ideia de botar caju, que é uma coisa bem da terra dele, na receita. E deu o nome, Cornífera.

Fernando – No fim, ele fez a gente dar um monte de risadas.

Cornífera, Prima Pode, Refrescadô de Safadeza, Gordelícia… Esses nomes todos dão problemas e já renderam polêmicas com as feministas. Como vocês se defendem?

Fernando – Eu não me defendo, mas dá trabalho. Essas meninas não estão abertas a diálogo. Querem nosso fim e pronto.

André – Eu viajo muito aos Estados Unidos, visito muitas cervejarias, algumas que têm essa pegada de humor como a nossa – só que o humor deles é mais ácido, o nosso é mais besteirento. Um deles me falou uma coisa certa: “Você está vendendo um produto para maiores de 21 anos [aqui, 18]. Relaxa, quem não quiser comprar que não compre”.

Fernando – Eu falo o que quiser. Acho fácil usar o mundo da cerveja para atacar o território do homem, mas eu não sou o machinho que fica em frente à TV vendo futebol e falando de boceta.

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India Brown Ale Prima Pode: nome que deu perrengue

O nome de cerveja Prima Pode foi um galho, não foi?

Fernando – Na hora de dar nome para a cerveja, alguém chegou e falou que tinha pegado a prima. Aí, foi consenso: a cerveja foi batizada de Prima Pode. Uma menina na rede social achou aquilo um absurdo, onde já se viu, ela tinha sido abusada por um primo.

Mas não é só primo que abusa!

André – Um senhor de 90 anos veio em nossa defesa, dizendo que tinha sido molestado por padres no internato.

Fernando – Eu entendo a dor dela, claro, um abuso é horrível. Mas ela não pode se achar no monopólio das dores do mundo por causa de um nome de cerveja. Se o primo quer transar e a prima também, não é violação, é consensual.

E a Gordelícia? Também deu o que falar…

André – Curiosamente, a Gordelícia é nossa cerveja que tem mais saída, é o maior sucesso entre as mulheres. Eu estava lá no Eataly, no restaurante de carne, bem em frente ao lugar onde estão as cervejas, inclusive as nossas. Comecei a reparar que as meninas pegavam a garrafa da Gordelícia, faziam selfies e mandavam sei lá pra quem.

As gordinhas?

André – Muitas gordinhas, acho que elas se identificam. E umas magrinhas também.

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Belgian Strong Golden Ale Gordelícia: hit da Urbana

Por que a Gordelícia é tão popular?

André – Um pouco pelo estilo, um pouco pelo nome, e também porque a Gordelícia é fácil de beber, é menos agressiva do que os nossos rótulos mais ousados. É gostosa! Muitos homens gostam também.

Mas não há como negar que há muito machismo no mundo da cerveja.

André – Sim, tem muito machismo no mundo da cerveja, como em qualquer outro mundo, mas não é o nosso caso. Acreditamos num mundo em que as diferenças sejam tratadas com tanta simplicidade para que a gente possa fazer piada com todas as diferenças. E com a gente não tem essa, viemos todos de famílias matriarcais. Minha mãe, Beatriz, cuida do financeiro da Urbana, e você sabe que em qualquer empresa é o financeiro quem manda. Ela é uma fera!

Acreditam em cerveja feita “para mulher”?

André – Cerveja boa pra mulher é qualquer uma! Não tem essa de fazer cerveja pra mulher, pra pobre, pra índio. Queremos fazer cerveja boa, toma quem quer.

Sem falar que há mulheres brilhantes no ramo.

André – Sim! Não há pessoa mais importante no mundo da cerveja brasileira hoje do que a [mestre cervejeira] Cilene Saorin. Cilene é nossa papisa! Tem a [mestre cervejeira] Kátia Jorge, a [sommelier de cervejas] Carolina Oda e tantas outras moças talentosas. Não há distinção de sexo. É empenho, trabalho e talento.

Sem talento, aliás, não se vai longe. A graça do nome da cerveja acaba rapidinho. O que fica é a qualidade, não é?

André – Se você faz uma cerveja bosta com um nome engraçadinho, o cara prova uma vez, posta no Instagram, o povo curte, dá um kkkkkk e acaba ali. O rótulo é o cartão de visitas, mas a gente não quer vender uma cerveja só.

Fernando – O André, como cervejeiro, queria fazer a cerveja que ganhasse prêmios – e conseguiu. Eu queria construir uma marca verdadeira do zero, verdadeira a ponto de poder falar até palavrão, coisa que eu nunca poderia fazer em qualquer outra fábrica ou agência de publicidade. É um território autêntico, para fazer a cerveja que quisermos, dar o nome que quisermos. Aí a gente sabe que o sucesso é de verdade.

É O QUE TEMOS PARA HOJE

cerveja-urbana-sporro-editAcompanhar o trabalho da Cervejaria Urbana, cujos rótulos são produzidos na fábrica da Cervejaria Blondine, exige rapidez e fígado. Alguns entram nas prateleiras e se esgotam tão rapidamente que, se você piscar, é capaz de dançar (um deles, aliás, foi batizado de Piscadinha). Lançar cervejas-surpresa faz parte da estratégia dos sócios André Cancegliero, Fernando Pieratti, Vinicius Cabral e João Braga, mas quem quiser manter-se fiel tem um portfólio de cinco estilos bacanas o ano todo. Além da Belgian Strong Ale Gordelícia, tem a Session IPA Refrescadô de Safadeza, a Extra Special Bitter Sporro (Pra Quem Merece), a American Wheat Boo! (tranquilinha, feita de trigo) e a potente Belgian Strong Brown Ale Trimiliqui – essa está no meu ranking atual de prediletas.

No ranking mundial, a Urbana também faz bonito. No último World Beer Award, em Londres, papou cinco medalhas: Prima Pode (medalha de ouro no estilo American Brown Ale), Trimiliqui (medalha de prata no estilo American Brown Ale), Fio Terra (medalha de bronze no estilo India Pale Ale), Bergamosh (medalha de bronze no estilo cerveja aromatizada com frutas), Bad Ass (medalha de bronze no estilo cerveja defumada).

Aí chega a hora em que a gente pergunta que som os entrevistados querem ouvir no Dringue. “Nosso gosto musical é tão eclético quanto nossas cervejas. Sou de Piracicaba. Ouço do sertanejo raiz ao mais podreira”, diz André. “Raimundos, Ramones e Tim Maia, porque ele é gordo. O Fernando toca piano, é dos clássicos e do jazz, Miles Davis, Stan Getz”. Vinicius Cabral, que chega no fim do papo, pede música brasileira antiga da boa: Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa e Pixinguinha.

*

Créditos das fotos: André e Fernando, Centeio Dedo (Sergio Crusco), Refrescadô de Safadeza e Prima Pode (Reprodução/Brejas.com.br), Falcão (Reprodução/Facebook Confraria Lupulados), Sporro, Antimatéria e Gordelícia (Divulgação)

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