Uma aula de coquetelaria mediterrânea com Márcio Silva

Drinques leves, cítricos, refrescantes, aromáticos, com sabor de férias sem fim. Assim foi o workshop de coquetéis com o bartender Márcio Silva – inspiração para sonhar com uma vida tranquila lá longe…

Por Sergio Crusco

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O coquetel Poção Tupã e a paisagem da Vila Beatriz – um ramo de manjericão desmilinguido e outro armado com estilo pelo professor

Pensam que é moleza seguir uma receita de coquetel e conseguir o mesmo resultado do bar top ten? Drinques deliciosos, bem equilibrados, com decoração perfeita? Bem que me esforcei, mas bastou a primeira aula de coquetelaria com Márcio Silva para descobrir que estou longe de alcançar qualquer espécie de perfeição nesse ramo.

A ideia era mostrar a um grupo de jornalistas a alquimia de alguns drinques de inspiração mediterrânea, de autoria de Márcio, na sede da importadora Mr. Man. Coisa que a gente vê nos filmes e fica sonhando em viver (para o resto da vida, não só nas férias) – beira mar, ingredientes frescos, comida saudável. “Esses drinques nos fazem desconectar do estresse, da buzina, da fila, do computador. Viver um momento nosso, curtir a vida, estar presente”, disse Márcio, que trabalhou durante 20 anos na Europa, em bares e como treinador de bartenders, tendo passado um bom tempo em Barcelona, de onde trouxe o jeito sutil e refrescante de pensar a mixologia.

Pois bem. Já comecei lambão no primeiro movimento, deixando cair gim pra fora da taça na confecção do Elixir Tonic, um gim tônica bem perfumado. Márcio, com benevolência, disse “não se preocupe, acontece”. Após misturar o gelo e a tônica, dei três batidinhas de colher no copo, imaginando-as corretas. Aí veio a bronca: “Essas batidinhas são proibidas, o bartender é um bailarino, preparar um drinque é uma dança muito suave”, ensinou, com pose de quem enlaça a dama.

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Spritzer 733 Bianco: delicadeza é tudo na hora de verter o espumante

Minha sutileza paquidérmica fez outra das suas ao finalizar o coquetel com um buquê de manjericão, tomilho e alecrim amarrado por uma fatia fina de casca de laranja (cada ingrediente representando um país mediterrâneo). Os buquês das meninas que acompanhavam a aula ficaram lindos, o de Márcio, claro, perfeito. O meu desamarrou, desmilinguiu drinque abaixo. “Não faz mal”, consolou-me Márcio, de novo benevolente. “Os aromas das ervas vão ficar bem presentes no drinque”. E dei-me por cotente de ter preparado a bebida mais aromática da tarde. Ha ha ha.

O Spritzer 773 Bianco foi mais fácil, não entornei nadinha e até que me saí bem na técnica de verter espumante com a boca da garrafa apoiada na haste da colher bailarina, para manter a perlage do vinho, não espantar as borbulhas. A mexida, depois de adicionados os outros ingredientes, também deve ser suave. Estava quase feliz quando, pimba, dei mais três batidinhas de colher na borda da taça. Bronca número 2.

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O bartender, consultor e mixologista Márcio Silva e o pé de manjericão depenado pelos alunos

O terceiro coquetel, Poção Tupã, exigiu maceração de folhas de manjericão roxo e mais uma aula de leveza. Usar a coqueteleira com muito gelo, agitá-la na altura do rosto, mas sem perder o contato visual com o cliente – isso é primordial na etiqueta de hospitalidade do bartender. É preciso imaginar o ritmo de um trem dando a partida, acelerar os movimentos sem perder o ritmo, diminuí-los de maneira elegante também, como o maestro que vai alcançar o pianíssimo.

Não é mole, é pesado. Conseguir chacoalhar uma coqueteleira com graça e sem atravessar, sorriso no rosto, imagino, leva muito treino. Na seleção de ritmistas da bateria de escola de samba, creio, eu também seria reprovado. E no raminho de manjericão final, alegoria que arremata o drinque como as plumas da passista, pluft, me dei mal de novo, tudo afundou – chuva na hora do desfile. Márcio arranjou outro buquê para mim, para que pelo menos a foto desse certo.

Pronto, estava lindo. Não era Barcelona, Sicília, Chipre ou Mikonos, estávamos na Vila Beatriz, em São Paulo, mas aquele pedacinho de bairro ainda não totalmente depenado pela especulação imobiliária também ficou bem na foto. Não deu vontade de ser bartender, profissão que admiro (adoro um bom dringue e a dança atrás do balcão) e que, entendi perfeitamente, exige técnica, estudo e disciplina. Mas que passou pela cabeça a ideia de, sei lá, montar uma banca de quindim e brigadeiro em Palermo, isso passou. Até a Albânia tá valendo.

RECEITAS MEDITERRÂNEAS

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Spritzer 773 Bianco

SPRITZER 773 BIANCO

Ingredientes

50 ml de vermute Oscar.697 branco

Meia taça de prosecco Pasqua

1 gota de bitter de laranja

1 fatia de limão siciliano

Modo de preparo

Encha a taça de gelo. Coloque o vermute, verta o espumante delicadamente, usando a haste retorcida da colher bailarina, acrescente a gota de bitter de laranja. Mexa suavemente com a colher de bar, de baixo para cima, e acrescente a fatia de limão siciliano para perfumar e decorar.

POÇÃO TUPÃ

Ingredientes

50 ml de gim Principe de los Apostoles

25 ml de suco de limão siciliano

5 ml de suco de grapefruit

15 ml de xarope de açúcar orgânico

10 g de manjericão

Modo de preparo

Macere as folhas de manjericão com o suco de limão, o suco de grapefruit e o xarope de açúcar orgânico numa coqueteleira. Colque gim, muito gelo, tampe e bata na coqueteleira sem perder o ritmo por alguns segundos. Use o passador e uma peneira (coagem dupla) para transferir o drinque para uma taça com gelo. Decore com um buquê de manjericão.

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Elixir Tonic com buquê de ervas desmazelado

ELIXIR TONIC

Ingredientes

50 ml de gim Mare

30 ml de suco orgânico de uva branca

10 ml de licor de pêssego Merlet

1 lance de bitter Angostura

150 ml de água tônica 1724

Modo de preparo

Em uma taça grande, adicione cubos de gelo e verta todos os ingredientes. Misture bem com uma colher de bar. Decore com um buquê de manjericão roxo, alecrim e tomilho, amarrados por uma fatia fina de casca de laranja.

Os ingredientes usados por Márcio Silva são importados pela Mr. Man, empresa da qual é consultor estratégico.

PARA SABOREAR

Para provar os drinques de Márcio Silva sem pagar mico de bartender iniciante, você pode dar um pulo no Cuttelo SteakBar, que ele abriu no Alto de Pinheiros (Rua Cerro Corá, 1556, SP). Os coquetéis suaves estão lá, mas há muitas opções para quem gosta de tragos potentes. O Negroni, por exemplo, é elaborado com dois blends diferentes de drinques amadurecidos em barris de carvalho. No cardápio, estrelam as carnes de corte Angus, massas e risotos, além de petiscos para quem quer só bebericar e beliscar. Rock retrô, jazz e blues estão na programação de música ao vivo.

Inspiração mediterrânea

*

Créditos das fotos: Sergio Crusco

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