Bebendo Dry Martini com Bette Davis

O Gibson, variação do Dry Martini, é personagem de A Malvada, um dos filmes mais célebres de Bette Davis. Os puristas do Martini acham um horror a cebolinha que decora o drinque, mas quem há de discordar do bom gosto da estrela?

Por Walterson Sardenberg Sº

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Bette Davis, ao lado de Thelma Ritter, começa sua noite bem sacudida bebendo um Gibson – entorna outros tantos ao longo de A Malvada (1950)

Permissivo e ruidoso em seus filmes, o cineasta espanhol Luis Buñuel era um purista quando se tratava de seu drinque favorito, o Dry Martini. Ele derramava alguma gotas de vermute Noilly-Prat e meia colher de Angostura sobre o gelo. Sacudia tudo em uma coqueteleira e, depois, conservava apenas o gelo, que mantinha vestígios dos dois perfumes e nada mais. Sobre o cubo, em uma taça previamente gelada, depositava a dose generosa de gim. Buñuel chegou a levar em consideração a opinião de extremistas, apreciadores de um Martini tão seco a ponto de sustentar que bastava um raio de sol atravessando uma garrafa de Noilly-Prat, antes de atingir o drinque. Certa vez, o diretor do Museu de Arte de Nova York, na sua frente, substituiu a Angostura pelo Pernod. A Buñuel, a troca pareceu abominável.

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O cineasta Luis Buñuel em foto de Man Ray – para ele, embora ateu, as variações malucas do Dry Martini eram o mais cabeludo dos sacrilégios

É de se supor que o cineasta se escandalizasse com outras variações do Dry Martini, como o Hoffman House (leva um bitter de laranja) e, sobretudo, o Gibson. Contra este, embora ateu, talvez endereçasse pragas bíblicas. Afinal, o tradicional Gibson é um Dry Martini à la rigueur, não fosse, e eis toda a diferença, a decoração: uma cebola em conserva espetada em um palito.

Ousar macular o gim com uma cebola? A Buñuel isso devia se assemelhar a um gim das selvas. Ou algo assim. O gim, nobilíssimo, foi criado por um alquimista holandês no século 15, a partir do zimbro, ou Juniperis communis, uma frutinha originária da Toscana, na Itália, e tida como um estimulante para os rins. Daí veio-lhe o nome, genever (em holandês), genièvre (francês) e gin (inglês). Mas a bebida só passou a ser chamada assim depois da mistura do zimbro com o álcool bidestilado de cereais (trigo, cevada e milho) e adicionado, na segunda destilação, a algumas ervas típicas da alta perfumaria etílica: a raiz da angélica e a casca da cássia, por exemplo.

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As Gibson Girls, de Charles Dana Gibson, muito donas de seu nariz e avançadinhas para a época, a virada do século 19 para o 20

Apesar da cebolinha, o Gibson ainda é considerado um drinque elegante – embora fora de moda. Não se sabe se foi criado pelo desenhista Charles Dana Gibson, mas a ele deve sua divulgação. Este artista americano tornou-se célebre, no começo do século 20, em virtude das garotas que desenhava, moças de personalidade forte e sufragistas, um ideal de independência nascido com a época. Eram as Gibson Girls. No cinema, esta mulher forte, capaz de rivalizar profissionalmente com os homens, e até com vantagem, ganhou corpo (e copo) nas personagens de Bette Davis, atriz capaz de grandes bilheterias, embora não fosse exatamente uma beldade.

Bette Davis beberica um Gibson em uma de suas cenas memoráveis: aquela em que diz “Apertem os cintos; será uma noite turbulenta” no clássico All About Eve, escrito e rodado por Joseph L. Mankiewickz em 1950. No Brasil, o filme ganhou o infeliz batismo de A Malvada e, devido a ele, costuma-se fazer uma confusão, atribuindo à grande atriz o papel-título. Ao contrário. Bette vive uma artista da Broadway, de quem uma fã de maus bofes, a jovem Anne Baxter, se aproxima para danar-lhe a existência. Esta, sim, é a malvada. Mas pérfida, no duro, foi a Academia de Hollywood: negou a Bette o prêmio de melhor atriz, ganho por Judy Holliday. Depois dessa, só tomando um Dry Martini. Ou um Gibson – por que não?

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Ei-lo, com cebolinha e tudo

RECEITA DE GIBSON

Ingredientes

60 ml de gim

9 ml de vermute seco

1 gota de Angostura

5 cubos de gelo

1 cebola pequena em conserva

Modo de preparo

Junte os ingredientes, menos a cebola e a Angostura, em um mixing glass (copo de misturas) com 5 cubos de gelo. Mexa com a colher de bar para resfriar. Sirva em uma taça pré-resfriada, adicione a gota de Angostura e decore com a cebolinha espetada em um palito.

Do I feel high?

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Créditos das imagens: Gibson (SteveR-/Creative Commons), Demais imagens (Reprodução)

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