Negroni, o drinque com alma de diva

É o coquetel das moças intrépidas, que são donas da situação e estão de olho nas boas coisas da vida. É também sinônimo de pecado, perigo e libido à flor da pele – o Negroni foi usado por Tennessee Williams como metáfora do desejo em um de seus romances

Por Cristina Ramalho

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Vivien Leigh em foto promocional para o filme Em Roma na Primavera (1961), em que o Negroni é personagem fundamental, com base no romance de Tennessee Williams

Outro dia mesmo as redes sociais ferveram com a notícia sobre Caco, o sapo, separado da Miss Piggy, que arrumou uma namorada mais jovem, mais magra e, basta uma olhada rápida na foto da moça, um chuchu. Não no sentido vintage da palavra, quando o legume, acreditem, jovens, era sinônimo de gata, de mulher bonita. A nova senhorita Caco está mais para um chuchu literal: aguada, sem appeal, de um verdinho pálido. Parece que Piggy, a sedutora salerosa, gargalhou quando lhe contaram a nova. “Moi, desoleé? Hahaha!”, sapecou, enquanto bebericava uns Negronis no Gilroy, o bar da moda em Nova York.

Piggy vem de uma longa e linda linhagem de mulheres donas da situação: Mae West, Marlene Dietrich, Ava Gardner, Sophia Loren, a Samantha do Sex and the City, a Charlize, a Scarlett, a Kristen, a Evan Rachel, as garotas mais curvilíneas e espertas do cinema sempre souberam que um drinque na mão e umas ideias na cabeça rendem os melhores enredos.

As moças intrépidas de hoje, de bem com as coisas boas da vida, aquelas que têm um olho nos rapazes, outro numa exposição em Londres, num dia leem filósofos bacanas e no seguinte discutem o biquíni preferido, adoram beber Negroni. É a cara delas, um coquetel fatale: vermelho intenso como as unhas de uma diva, amargo e difícil logo de cara, mas com um toque super doce e a alma diabólica. Para provar, balançar, se apaixonar.

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Negroni, rubro como a Ferrari, um clássico italiano

Mas e o Cosmopolitan, o favorito da Carrie Bradshaw? Ah, esse é para aquelas loiras que só pensam em Louboutins. Negroni, como diria o Tom Jobim, não é para principiantes. Tanto que o drinque virou até personagem de novela de Tennessee Williams, The Roman Spring of Mrs Stone, adaptada para o cinema. No filme, batizado no Brasil como Em Roma na Primavera, Vivien Leigh, cinquentona, se esbalda na Itália com um Warren Beatty na flor da gostosura. Entre um pensamento libidinoso e outro, ela pede para o jovem Beatty lhe preparar Negronis. E filosofa a respeito.

“Um drinque que deliciosamente insinua o perigo e a decadência moral, mais do que qualquer outra bebida, exceto o Absinto”, diz o chef e escritor Michael Procopio, do blog Food for Thoughtless.  Talvez a conjunção astral ajude a embalar essa vocação do Negroni para o pecado: o drinque foi criado em 1919/1920, quando o mundo se rendia ao jazz, aos anos loucos, às saias que subiram, às moças que fumavam na rua, os pensamentos rápidos e os modos ágeis como a era da mecanização.

Na real, como de praxe entre os coquetéis mais famosos, o Negroni brotou do improviso. A história típica: um bebedor cansado da mesmice pede a um barman para surpreendê-lo e voilá, surge um drinque clássico. O beberrão em questão era o Conde Camillo Negroni.  O bar, o Caffé Casoni, em Florença. Camillo pediu para o bartender Fosco Scarselli reinventar o coquetel Americano (feito com Campari, vermute doce e club soda). ‘É prá já”, mandou Fosco, substituindo o club soda por London Dry Gin. Nascia um ícone, cor vermelho Ferrari, veramente italiano.

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Vivien não dá descanso a Warren Beatty: quer mais amor e Negroni

O conde sacou a boa ideia e fundou a destilaria Negroni. A bebida foi parar em bocas famosas e seguiu o roteiro starlet: Orson Welles elogiou, Hemingway, claro, carimbou a qualidade, e aí, pronto. Virou item obrigatório de toda carta de coquetéis clássicos. Na gangorra da história, tem brilhado na onda retrô chique, à la Mad Men, em Nova York, Buenos Aires, Paris…  Em São Paulo, em julho, teve até uma Negroni Week por bares bacanas. Negroni tá na moda?

“Negroni não é moda. Negroni é amor. É um dos drinques mais esquizofrênicos que existem, pois consegue ser muito amargo, muito doce e muito alcoólico ao mesmo tempo. Quem aprende a gostar não deixa de tomar. É viciante”, diz Rodolfo Bob, consultor em mixologia da empresa O Bar Virtual.

Agora, porquê comecei essa história falando de mulheres? Porque com aquele gosto tão amargo e o espírito vermelho carmim, o Negroni é um drinque com alma de Maria Callas. De Dietrich. De Piggy. De acender o fósforo da fantasia.

BEBA EM NOVA YORK, EM SÃO PAULO OU FAÇA EM CASA MESMO

www.tbfoto.com.br BARÊ - SP/SP - 16/12/2013 Foto: Tadeu Brunelli ATENÇÃO: Toda foto deve ser publicada com o crédito do autor, na sua íntegra sem cortes ou modificações, de acordo com a Lei Nº 9.610 de 19/02/1998.
Don Vito Corleone, a tradução do Negroni por Rafael Pizanti, do Barê, leva um tiquinho de uísque

The Gilroy, onde a Piggy dá pinta, fica no Upper East Side, 1561 2nd Ave, e lá você bebe Negronis de todos jeitos. Do clássico – uma parte gin, uma parte vermute, outra parte de Campari – a recriações charmosas, como o Boulervadier (Larceny Bourbon, Cynar, Aperol e Bitters) ou o caliente Oaxaca (Ilegal Mezcal Joven, Antica Formula, Campari).

Cá no Brasil, especialmente em São Paulo, não é difícil encontrar um bom Negroni nos bares estrelados, alguns com toques autorais. O Don Vito Corleone do Barê, por exemplo, é preparado pelo bartender Rafael Pizanti com um quê de uísque (10 ml), o que traz uma nota amadeirada ao drinque.

Fazer em casa não requer grande técnica, apenas os ingredientes corretos. Ele costuma ser elaborado com partes iguais (30 ml) de gim, vermute tinto e bitter, mas Rodolfo Bob também sugere uma variante: aumentar a dosagem de gim para 45 ml para dar destaque ao destilado. Gim de boa qualidade, claro – Bob gosta do Beefeater. Para quem quer um drinque potente, é indicado o Carpano Punt e Mes. Se quiser mais doçura, o Carpano Antica Formula. Também é possível, segundo o bartender, fazer um blend de vermutes (15 ml de cada) para ganhar em equilíbrio e complexidade. Se preferir, ainda, um drinque menos amargo, o bitter Aperol é próprio para paladares suaves. É fundamental, porém, resfriar as taças antes de servir o drinque, escolher um gelo grande e maciço para manter a temperatura sem aguar a bebida (lembre-se que é para beber devagarinho) e torcer uma casca de laranja para que os óleos se misturem ao coquetel.

Aí vai a receita clássica:

Ingredientes

30 ml de gim

30 ml de Campari

30 ml de vermute tinto

1 tira de casca de limão ou laranja

Gelo

Modo de preparo

Misture todos os ingredientes líquidos com a colher bailarina num mixing glass, com muito gelo. Coe numa taça resfriada, com um gelo grande. Torça a casca de laranja ou limão sobre o drinque e jogue-a dentro do coquetel.

Para fazer o Don Vito Corleone do Barê, as proporções dos ingredientes são as seguintes:

40 ml de gim

20 ml de vermute tinto

20 ml de Campari

10 ml de uísque

1 lance de bitter de laranja

Twist de laranja

Divas… 

*

Créditos das imagens: Vivien Leigh e Warren Beatty (Reprodução), Negroni (Reprodução/Campari.com), Don Vito Corleone (Tadeu Brunelli/Divulgação)

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