Bebendo champanhe com Marlene Dietrich

Ela era boa de bico, mas não tinha frescura: ia do champanhe ao vinho baratinho francês, passando por destilados fogo na goela como o Calvados e a vodca russa. Para sentir-se Marlene, damos o ranking dos melhores champanhes do ano (para quem tá podendo) e a lista dos grandes espumantes nacionais (para quem caiu no real)

Por Sergio Crusco

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Marlene Dietrich e o champanhe: promessa de um eterno domingo

“Como símbolo, o champanhe tem poderes extraordinários. Ele lhe dá a sensação de um domingo e de que dias melhores estão se aproximando. Se você pode arcar com um Dom Pérignon bem gelado numa linda taça, no terraço de um restaurante em Paris, olhando para as árvores ao sol numa tarde de outono, vai sentir-se o adulto mais sensual do mundo, mesmo se estiver acostumado a tomar champanhe”.

Marlene Dietrich, que cunhou o verbete sobre champanhe em seu delicioso ABC, talvez não precisasse de taça para ser e sentir-se sensual. Qualquer xícara ou copo funcionava. Com taça borbulhante, porém, uh lá lá. Claro, há grande diferença entre ser e sentir-se, mas sentir já está valendo quando se trata de alimentar a confiança e a fé em dias melhores, dar aquele tapa nas chaturas da vida. Para isso, nada melhor que o champanhe e seus “poderes extraordinários”.

Marlene sabia ser sacudida e popular também, ora essa. Não tinha melindres enochatos e garantia que a melhor bebida para qualquer parada era o gros vin rouge, “o vinho comum que os franceses tomam em vez de água”. E se a noite estava propícia para a animação ou fosse preciso enfrentar o inimigo, sapecava uma vodca: “É uma das mais saudáveis bebidas alcoólicas. Quando o Terceiro Exército entrou em contato com os russos, durante a Segunda Guerra Mundial, bebemos muito dela. As tropas russas, a quem entretínhamos, tinham um suprimento interminável”.

Antinazista ferrenha, a atriz alemã foi uma das mais atuantes entertainers do front, cantou diversas vezes sob fogo cruzado e desse tempo veio outra paixão etílica, o destilado francês de maçã Calvados, forte pra danar, “o elixir que bebíamos pela manhã para nos despertar para a ação”. Bebia de estômago vazio e às vezes tinha revertério, “mas era melhor vomitar do que ficar doente”. Escapou ilesa, salvo algumas cicatrizes nas pernas, até o final da guerra e até a entrada das tropas aliadas na Alemanha. Houve outro probleminha de percurso, narrado em sua autobiografia: pegou chatos. Consegue imaginar Marlene Dietrich com chatos?

“Uma mulher de avental é um convite ao abraço”

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“Acho que fiquei mais orgulhosa com minha fama de excelente cozinheira do que com a ‘imagem lendária’ tão zelosamente construída pelos estúdios”

Melhor voltar ao champanhe. Ou a outra visão que era bem grata à estrela: avental amarrado na cintura, colher de pau na mão, olhos e sentidos aguçados no ponto do guisado. Marlene foi grande cozinheira e o deve ao tédio hollywoodiano. Quando mudou-se de mala e cuia de sua amada Berlim para Los Angeles, preencheu os longos hiatos entre um filme e outro com os afazeres culinários.

Não tinha paciência para o tititi da cidade do cinema, detestava rodinhas de fofocas, só dava entrevistas por exigência contratual. Em vez de ficar entocaiada à toa, pediu à sogra que lhe enviasse um livro de receitas austríacas e, de pitada em pitada, tornou-se bamba. “Fiquei imediatamente entusiasmada com essa nova ocupação. Era para mim uma espécie de terapia, preenchia as várias horas de ócio no meu paraíso californiano”, disse em seu livro. “Acho que fiquei mais orgulhosa com minha fama de excelente cozinheira do que com a ‘imagem lendária’ tão zelosamente construída pelos estúdios”.

No final dos anos 30, com a ascensão do nazismo, o paraíso dietrichiano transformou-se numa espécie de embaixada multinacional, agregando refugiados de vários países ocupados pelo exército de Hitler. Acolheu atores, diretores e técnicos desamparados. Lançando mão de outro atributo que não condizia com a estampa de vamp, o instinto materno, ampliou seus conhecimentos culinários, tratando de confortar refugiados saudosos do paladar pátrio e em busca de trabalho na Cidade dos Anjos. Ajudava a todos, intermediando contratos e fornindo-lhes o estômago.

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O ABC de Marlene, uma delícia de ler, cheio de filosofia e receitinhas

Enaltecia a superioridade das gastronomias russa e sueca. Achava-as mais ricas que a francesa – embora fosse experta em preparar um magnífico pot au feu (guisado caseiro típico) e outras especialidades da cozinha cotidiana. Não gostava de preparos pomposos e acreditava que o “olho” era o principal medidor de uma receita. “Na verdade, minhas artes culinárias se limitam a pratos bem simples. Trata-se mais de uma ‘cozinha camponesa’ do que uma ‘cozinha urbana’.”

Simplicidade, para Marlene, não queria dizer pressa. Abominava a fast food americana. Em seus primeiros tempos de Hollywood, tentou sem sucesso adaptar-se aos hambúrgueres; considerava-os “ruins e insossos”. “A cidade alemã de Hamburgo não tem nada a ver com essa aberração”, fazia questão de esclarecer. Mas apreciava a comida do interior dos Estados Unidos e dizia aprender muito com as cozinheiras negras – “estas, por natureza, cheias de imaginação e ideias”.

Ideias não lhe faltavam, sabia aproveitar as sobras e fazer delas um banquete. No seu ABC de Marlene Dietrich – entre aforismos, truques de beleza e de mãe – estão todas as dicas. Inclusive a do zabaione de ponto perfeito, que se gabava de fazer sem usar a técnica de banho-maria, com gemas, açúcar e vinho fortificado italiano Marsala (na falta dele, improvise com Porto, dá certíssimo).

Por isso, meninas, enquanto o champanhe não chega, é possível sentir-se Marlene (ser, não garanto a ninguém) nos momentos mais prosaicos da vida: “Uma mulher de avental é um convite ao abraço. O avental de uma mulher jogado por sobre a cadeira da cozinha é uma maravilhosa natureza morta”, ela registrou no ABC.

OS DEZ MAIS CHAMPANHES DO ANO

Embora listas e rankings sejam algo subjetivo e discutível, apresentamos aqui os 10 melhores rótulos para 2015 segundo a Fine Champagne Magazine, editada na Alemanha. Os preços, meus anjos, são aqueles de assustar. Mas vai que um dia a vida muda

dom-ruinart1 Dom Ruinart Rosé 2002

2 Laurent-Perrier Alexandra Rosé 2004

3 Louis Roederer Cristal Rosé 2004

4 Dom Ruinart 2004

5 Charles Heidsieck Vintage Rosé 1999

6 Dom Pérignon Brut 2004

7 Piper-Heidsieck Rare 2002

8 Krug Vintage 2000

9 Louis Roederer Cristal 2004

10 Henriot Millésime 2006

E OS CINCO TOP ESPUMANTES NACIONAIS 

aliança brutPara quem gosta de ver borbulhas em sua taça e sonhar com eternos domingos, mas não está com essa bola toda para garantir o champanhe francês de cada dia, aí vai a lista dos cinco rótulos premiados com medalha Grande Ouro no IX Concurso do Espumante Brasileiro, realizado em outubro pela Associação Brasileira de Enologia 

– Aliança Brut (Cooperativa Vinícola Nova Aliança)

– Panizzon Espumante Chardonnay Brut (Sociedade de Bebidas Panizzon)

– Terrasul Espumante Moscatel (Terrasul Vinhos Finos)

– Stravaganzza Brut (Vinícola Don Giovanni)

– Casa Galiotto Brut (Vinícola Galiotto)

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Para ler mais sobre champanhe aqui no Dringue visite nosso post de estreia, Vem romance aí, escrito pela Cristina Ramalho

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Dietrich na vitrola e outros sons borbulhantes

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Créditos das imagens: Reprodução

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