Café Vlissinghe, um dos bares mais antigos do mundo, completa 500 anos na Bélgica

Numa viagem à Bélgica, descobrimos por acaso o Café Vlissinghe, em Bruges. A ideia era fugir da chuva, mas quase não saímos mais de lá

Por Sergio Crusco

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Interior do Café Vlissinghe, em Bruges: do mesmo jeitinho desde o século 19

Às vezes uma trapalhada ou um fenômeno da natureza salvam o dia.

Foi assim em Bruges, cidade encanto belga, que fui conhecer com meu amigo Estanislau em 2008. Pegamos logo cedo um trem em Bruxelas, onde estávamos hospedados, e fizemos de cara a peregrinação turística ao chegar: praças, canais, monumentos, catedrais, subir a torre central, com 366 degraus, e estar no meio do carrilhão enquanto os sinos batem – uma loucura.

Mas quem vai à Bélgica quer cerveja. Estanislau encasquetou de conhecer uma cervejaria centenária, indicada no guia que folheava. Mapinha na mão, tentando desvendar o misterioso traçado da cidade medieval, lá vem a chuva. Caudalosa, amazônica. Nos metemos na garagem de um prédio, sem esperança de que o temporal desse trégua. Tomamos coragem e tentamos ir em frente, mas o aguaceiro não parecia ter planos de arredar. Entramos num café, encharcados, pedimos dois capuccinos para destremilicar a alma. Estudei o mapa com calma, sem pingo pingando no papel.

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Mapa medieval de Bruges: agora se vira nesse furdunço para achar a cervejaria

– Tem uma viela logo adiante, por ela cortamos caminho e chegamos à boca da cervejaria.

Lá fomos nós, crentes e rentes do nosso destino.

Uma placa, porém, nos deteve: Herberg Vlissinghe – 1515.

– Estanislau, isso parece ser um bar e tem quase 500 anos.

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Fachada do Vlissinghe, com placa de 1515: vamos entrar e fuçar

Não foi preciso dizer nada para que concordássemos com a ideia de entrar e fuçar um lugar que já acontecia como boteco enquanto navegadores portugueses iludiam índios com brilhos e espelhinhos. Nem mais palavra para decidir sentar e pedir a primeira cerveja. E a próxima. De estômago vazio, nos contentamos com as linguicinhas curtidas servidas ali, típicas da cidade, umas das poucas opções comestíveis no menu do velho botequim. Nos fartamos. Lá pela terceira ou quarta (cerveja), a bexiga pede clemência. Para chegar ao banheiro, era preciso passar pelo pátio. A chuva havia parado.

– Vamos à cervejaria?

– Estanislau, são 500 anos – arredondei –, não consigo mais sair daqui!

– Tem razão.

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Belgian Blond Brugse Zot: paixãozinha

Tampouco havia muitas opções de cervejas na carta do Café Vlissinghe, lembro de quatro ou cinco, todas de estilo leve (entre elas, a gostosa e cremosa Brugse Zot, Belgian Blond Ale feita na cidade e que sempre hei de amar). Uma ninharia perto das cartas com a largura do Velho Testamento que já havíamos percorrido nos cafés de Bruxelas. Foi na Bélgica, por sinal, que comecei a desconfiar (ou ter certeza) de que havia algo de errado com a cerveja que eu bebia no Brasil. O movimento artesanal por aqui já crescia naqueles idos, eu é que estava por fora (podem me chamar de retardado, cervejeiros da vanguarda, que mereço).

Fizemos nossa viagem na base do “vamos ver o que acontece” e a falta de intimidade com a cornucópia de estilos belgas nos fazia recorrer a garçons para nos indicar uma nova emoção ou explicar que a tal Lambic era azeda pra danar (nos arriscamos, mesmo assim). Na base da tentativa (e acerto), descobrimos que Dubels, Tripels e Saisons eram as tais em luxo, aroma e sabor. E quando faltava ideia, era só imitar a mesa ao lado: “Quero uma taça igual à daquela moça”, pedíamos, maravilhados com a graça de haver uma taça para cada cerveja na Bélgica.

Mais umas linguicinhas, outras cervejinhas – a carta já havia sido explorada em sua plenitude. Palpitei:

– E então, vamos procurar a cervejaria?

– Sergio Crusco, 500 anos!

– Pois é. 500 anos de gente se estabacando e dando vexame na escadinha que vai dar no banheiro, pensa bem.

– Pois é isso mesmo – respondeu, já fazendo o gesto de “traz mais um chope” para a garçonete.

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Pátio do Café Vlissinghe e a escadinha que testa seu grau alcoólico na hora de ir ao banheiro

Bom, uma hora tivemos de sair de lá, mas imaginem como, embora tenhamos nos livrado de qualquer vexame (sabe Deus como). Ainda sobrou fosfato para conversar com uma adorável senhora que, no final da tarde, dava pão aos cisnes que singravam o canal em frente à sua casa.

E entramos em mais um bar, daqueles com carta quilométrica, que nos chamou atenção pela pira que ardia na entrada. Perto da estação, mais um, pequeno e fuleiro, onde Tom Jones gritava, arrependido depois de ter enfiado a faca no bucho da mulher: “Why, why, why, Delilaaaaaah?” Aí é coisa de quem extrapolou e nosso passeio em Bruges não podia terminar em melodrama. Conseguimos, no último minuto, pegar o último trem a Bruxelas.

No dia seguinte, café da manhã tomado, um esforço danado para abrir os olhos, lanço a ideia:

– Voltamos a Bruges?

– Tá. Mas dessa vez vamos direto para a cervejaria.

Demos com a fuça na porta. A cervejaria não existia mais – até cervejarias centenárias fecham ou mudam de endereço.

Catedrais, demos por vistas. Voltamos ao Vlissinghe.

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Gif extraído do site do Café Vlissinghe, com fotos históricas do bar

500 ANOS!

Enfim, o Café Vlissinghe completa 500 anos e está rolando comemoração no boteco até o final do ano (confira a programação no site oficial da casa, se estiver de passagem comprada para a Bélgica). Pesquiso sua história e descubro que não há documentação provando que um bar já funcionava ali desde 1515. Talvez bar e hospedaria ou mesmo outro tipo de negócio. Não há um registro preciso.

Ah, mas nenhum historiador minucioso vai me tirar o prazer de contar que bebi em um dos bares mais antigos do mundo, nem vem que não tem!

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Será que Rubens foi lá?

A estrutura atual do Vlissinghe – que, claro, passou por reformas durante sua longa vida – data do século 17. E desde o 19 sua decoração é intocada. Os locais o chamam carinhosamente de “pequeno museu”. Na categoria das lendas, a cadeira em que supostamente o pintor Peter Paul Rubens (1577-1640) se sentava é mantida no mesmo lugar. Adoro acreditar na história, mesmo ela tendo toda a cara de lorota pra caçar turista. Também constato, no site, que a carta do Vlissinghe está um pouco mais sarada do que na ocasião em que o visitamos (confira aqui), embora não tenha atingido as proporções bíblicas das demais biroscas belgas.

E descubro, na lista dos 60 bares mais antigos do mundo organizada pelo escritor especializado em cervejas Jay R. Brooks (veja aqui), que o Vlissinghe ocupa o 31º, porém honroso, lugar (e o nosso querido e carioca Bar Luiz, de 1887, é o 59º). Ele até que é jovenzinho perto daquele que se acredita ser o mais antigo, o Cave Bar, em Petra, na Jordânia. Há indícios de que o lugar, uma caverna, era usado como ponto de encontro desde o século 1 antes de Cristo, mas não se tem certeza de que tenha sido, desde os primórdios, um bar, antro de birita e perdição.

Prefiro voltar ao Vlissinghe.

Músicas que me lembram essa viagem

*

Créditos das fotos: Imagens atuais do Café Vlissinghe (Marc Ryckaert/Wikimedia Commons), Mapa de Bruges, Brugse Zot e Rubens (Reprodução), Gif de Fotos Antigas (Reprodução/Site Oficial Café Vlissinghe)

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