A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Era para ser um aniversário com clima de filme. Não saiu como nos planos, mas nossa Marilyn Monroe foi tomar um Manhattan para celebrar que a graça da vida tá na surpresa. E nós trazemos a receita do drinque novaiorquino e músicas ótimas

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

Bela Sintra Barman Jose Garrido Manhattan
O Manhattan servido no restaurante português A Bela Sintra, em São Paulo

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

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RECEITA DE MANHATTAN

Como a maioria dos drinques clássicos, há controvérsias sobre a origem do Manhattan. Alguns historiadores dizem que foi criado em 1860 por um bartender chamado Black, na Broadway. Outra história, mais largamente aceita, diz que foi feito dez anos mais tarde em homenagem ao candidato à presidência Samuel J. Tilden, no Manhattan Club. A afirmação de que o drinque é novaiorquino da gema, porém, quase pouca gente discute. Aqui vai a receita clássica.

Ingredientes

2 partes (50 ml) de bourbon

1 parte (25 ml) de vermute tinto (seco ou doce, dependendo do seu gosto)

2 ou 3 lances de bitter Angostura

Casca de laranja ou limão para decorar

Cereja ao maraschino para decorar

Modo de preparo

Num mixing glass com bastante gelo, coloque o bourbon e o vermute tinto. Mexa até gelar bem (cerca de 30 segundos). Coe para uma taça tipo martini previamente resfriada. Finalize com as gotas de angostura e com a cereja e a casca de laranja para decorar.

Variações

Para fazer o Perfect Manhattan, use vermute branco e tinto na mesma proporção. Se quiser um Rob Roy, use uísque escocês. Para o Brandy Manhattan, use brandy no lugar do bourbon. O Cuban Mahattan é com rum e o Tijuana Manhattan, com tequila.

Marilyn canta em Quanto Mais Quente Melhor, Bette Midler pede um Manhattan em dueto com Tom Waits e algumas memórias de Nova York

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Créditos das imagens: Marilyn Monroe (Reprodução) / Manhattan do restaurante A Bela Sintra (Divulgação/Mauro Holanda)

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