Um dringue com Tatiana Spogis

Ela é sommelier de cervejas, gerente de marketing da importadora Bier & Wein, mestra na Academia Barbante de Cerveja, terceira colocada no III Campeonato Mundial de Sommeliers realizado em Munique, em 2013. Trabalhou no lançamento das cervejas de trigo alemãs no Brasil, em 2001, quando começou a onda dos rótulos especiais no Brasil, e tem muita história para contar. Conversamos um pouco sobre trabalho e muito sobre sensações. Ou melhor, estar com os sentidos afiados é a principal ferramenta de trabalho de Tatiana 

Por Sergio Crusco

Tatiana Spogis

Como começa sua história com cerveja?

Ihhh… Senta que lá vem história! Sempre amei cerveja. Das bebidas alcoólicas, sempre foi minha predileta.

Desde que época?

A parte oficial? Desde os 18 anos. Ha ha ha! Meu pai é uruguaio, de pequeno a gente tomava o suco de uva do uruguaio, que é o vinho com bastante água e açúcar para crianças. Quando comecei a trabalhar oficialmente com cerveja, a primeira reação da minha mãe foi de susto: “Ai, meu Deus, agora ela vira alcoólatra!”

latinhas_edit
Tatiana e o irmão tinham uma coleção de latinhas de cerveja parecida – jogaram tudo fora

Por que?

Sempre fui aquela que ia dando biquinho na bebida que sobrava da festinha, do churrasco, queria experimentar a cerveja, a caipirinha. Os adultos ficavam de olho em mim. Morávamos em Cotia e nas férias íamos até o Uruguai de carro, visitar nossos avós, que viviam em um sítio perto de Montevidéu. Ele tinha uma Veraneio laranja, punha um colchão de casal no bagageiro, botijão de gás – foi assim que sobrevivi aos anos 80. Íamos viajando, dormíamos em casa de primos, acampávamos em Florianópolis, passávamos rede de arrasto à noite pra pescar e comer no camping, era uma vida de superaventura. E nessa tinha as paradas estratégicas nas lojinhas, para comprar as cervejas especiais que meu pai adorava. Eu ficava com as latinhas, comecei a colecionar com meu irmão. Meus pais se separaram quando eu tinha 9 e, aos 13, minha mãe perguntou o que a gente ia fazer com aquele tanto de latinha. Dissemos que ela podia jogar tudo fora.

Você se arrepende de não ter guardado?

Não me arrependo, mas seria curioso saber que cervejas eram aquelas, pois tenho uma memória muito seletiva, tanta coisa pra guardar na cachola. Essa memória me faz falta hoje. Mas eram cervejas importadas, o Uruguai tinha muitas lojas, era a onda das cervejas em latinha, todo mundo tinha coleção, lá pelo começo dos anos 90.

lowebrau-edit
Uma das poucas que ficaram na memória foi a latinha da Löwenbräu

Não lembra de nenhuminha?

Tinha a Löwenbräu [Munich Helles alemã], a latinha azul bebê clássica, essa eu recuperei na internet. Uma eu adorava, tinha um camelo, que eu relacionava ao cigarro Camel, mas não consegui achar. Eu não era ligada tanto à bebida em si, mas gostava da embalagem. Quando entrei na faculdade de design gráfico, percebi que a coleção já era uma inspiração, porque gosto de organização visual.

O que os rótulos das cervejas nos dizem?

Os rótulos trazem muito da cultura dos países onde as cervejas são feitas. Na Europa eles são mais tradicionalistas, conservadores. Na Bélgica, apesar de toda a inventividade na produção da cerveja, eles estão começando agora a trabalhar na releitura dos rótulos. Os americanos são totalmente opostos, já vão para uma pegada cool, graffiti, interferências visuais. Os rótulos deles ficam muito loucos, mas às vezes com pouca informação para quem está acessando o produto pela primeira vez, para entender o que tem por trás daquele rótulo todo. Mas você percebe as tendências do velho e do novo mundo da cerveja pelos rótulos.

Tatiana me convida a provar um dos novos rótulos importados pela Bier & Wein e eu, que sou presa fácil dos artistas gráficos sedutores, escolho a Tallulah, com ilustração linda (inspirada na atriz Tallulah Bankhead, já acho chique), da cervejaria Speakeasy, de San Francisco. Ela explica:

Essa é um Pale Ale mais encorpada, com um lúpulo americano bem interessante, que lembra frutas tropicais no nariz, tem uma pegada remetendo a goiaba.

tallulah
Tallulah, da cervejaria americana Speakeasy: relaxe, feche os olhos e procure sentir o aroma de goiaba

Sinto um cheiro bom, de fazenda, celeiro… Mas a goiaba não aparece. Acho que não tenho toda essa percepção.

Todo mundo tem. É que muitas vezes não pensamos no que consumimos. Precisamos ter mais tempo para degustar as coisas, senti-las, parar e perceber tudo o que consumimos no dia a dia é um exercício que temos de fazer mais vezes, com a comida, a bebida.

Como você treina seus sentidos?

Sempre fui traumatizada pelo tamanho da napa. Ha ha ha! Depois descobri a função dela e disse: “Agora está tudo explicado, aceito. Não quero mais tirar essa napa de mim”. No dia a dia, é parar e prestar atenção não só na cerveja, mas em todos os alimentos, aromas de frutas, especiarias. Mas como eu vou ter essas referências de frutas se não consumo vegetais? Minhas filhas, de 5 e de três anos (tenho um menino de 9 meses também) já são superligadas nos aromas. Hoje vou a uma feira e pego tudo no nariz, fecho os olhos na hora de cheirar e de comer, porque nossa vida é muito visual, somos muito impactados só pelo olhar. Acho muito romântico quando a gente tem essa oportunidade de sentir os aromas. O aroma é 80% do nosso paladar, que é a junção de aromas, das sensações táteis e dos gostos básicos. No meu caso, além da napa, uma das vantagens é ter um paladar superamplo. Só não gosto de comer pedra, porque dói o dente. De resto como de tudo, adoro misturar sabores, adoro experimentar coisa estranha, esquisita…

O que você já comeu de mais estranho?

Quando eu era criança eu adorava miolo de boi, branquinho, fritinho à milanesa, minha mãe fazia pra mim e todo mundo achava esquisitíssimo. Ah, lembrei de uma coisa estranha, essa não foi muito boa. Ha ha ha! Em Galápagos tinha uma turma pegando tatuzinho na praia e comendo vivo, e eu quis fazer a mesma coisa, mas a sensação foi estranha, porque o bichinho se mexeu dentro da minha boca. Aí descobri que não gosto de nada que se mexe.

Mas o gosto era bom?

O gosto até que era bom, lembrava ostra, gosto de mar. A praia era limpíssima, óbvio, eu não ia pegar tatuzinho no litoral de São Paulo.

emerita-edit
Emerita rathbunae, espécie de tatuzinho comum nas praias do Pacífico. Tatiana comeu o bicho vivo – e não gostou

Pensou na cerveja que poderia harmonizar com o tatuzinho?

Não! Pensei na sensação daquelas perninhas se mexendo na minha boca. Foi uma coisa de querer provar que eu não me impressiono, mas me dei mal.

No caso da cerveja, como se faz para ter esse repertório sensorial e distinguir os estilos? É fácil ficar perdido dentro de um empório, sem saber o que escolher, diante de tantas opções de rótulos. Eu, que me considero semianalfabeto em cerveja, às vezes fico confuso.

Assusta. É como o vinho. Você entra numa adega, vê zilhões de rótulos e diz: “Não sei nem por onde eu começo”. Há pessoas que já sabem da uva X, Y ou Z, que aquelas características as agradam e vão procurar mais rótulos daquela uva ou daquela assemblage de uvas, mas nem todo mundo tem essa informação. A mesma coisa com a cerveja. Temos mais de 120 estilos catalogados e o ideal é que as pessoas se concentrem em entender o que cada um passa: a IPA, marcada pelo lúpulo; uma Strong Dark Ale, marcada pelo álcool, maltes tostados e notas frutadas; uma Pilsner, leveza, frescor; uma Witbier, fruta, delicadeza, porém mais encorpada. Cabe a nós, que trabalhamos com cerveja, passar essa informação adiante, pois as cervejarias especiais contam com poucos recursos de comunicação. É trabalho de formiguinha.

erdinger-taça-edit
O copão da cerveja de trigo alemã Erdinger era o must no começo do século

Mas já mudou muita coisa, não é verdade? Há cada vez mais informação para quem quiser achar.

Sim. Em 2001 entrou a cerveja de trigo no Brasil, a Erdinger foi um grande divisor de águas. De repente tomo mundo naquele ritual, com o copão típico da marca. Depois de seis meses, a Ambev lançou a Weissbier e começou a divulgar aos quatro cantos a palavra Weissbier. As pessoas entenderam o que era cerveja de trigo: “Opa, ele é turva, tem de ter o servicinho de rodar a garrafa para agregar a levedura que fica depositada no fundo”.  As pessoas começaram a ter informação de forma mais massiva.

É que às vezes nem dá para entender o rótulo, como você disse. É culpa do cervejeiro, que decide fazer uma cerveja “hermética”, só para iniciados?

Muita gente não faz isso de propósito, mas por não ter entendimento de comunicação. As microcervejarias brasileiras estão tendo o cuidado de colocar no rótulo a intensidade de amargor, de torrefação, de notas frutadas, informações simples que você consegue entender. E também sugerir harmonizações no próprio rótulo, que não existe é só para deixar a garrafinha bonita. Ele tem uma função de comunicação que precisa ser melhor explorada. Fica mais fácil para o leigo entender palavras como “amargor potente”. Ele vai dizer: “Opa, adoro amargor, vou nessa!” Notas de café… “Adoro café, vou nessa!” Agora imagina pegar uma cerveja superamarga, se você detesta amargor. Vai ser decepcionante, como tem gente que pega as Flanders e as Lambic, extremamente ácidas, e acha que a cerveja está estragada, avinagrou. Você tem de passar essa informação, para não causar dissabor a quem compra desavisado. Puxamos muito esse lado na aula de sommelier.

Para quem quer saber mais, na hora de fazer uma compra legal, escolher um rótulo num bar ou viajar para um país de cervejas boas, o que você recomenda?

Em primeiro lugar, abrir a mente para novas sensações através da cerveja. A tendência é sentar num bar, mandar descer duas ampolas, ficar bebendo e conversando. Você bebe, bebe, bebe, fecha conta, paga e amanhã nem lembra. Bebeu um monte e gastou um dinheiro razoável. Se cada um da mesa, dos quatro, vamos supor, pede uma long neck diferente, você já consegue fazer uma rodada de degustação e conhecer novos sabores. Se vai viajar, é legal usar a internet, tem muitos sites e blogs especializados em dicas de viagens. Tem agência que faz roteiros cervejeiros no mundo inteiro, para você conhecer cervejarias, se aventurar nesse universo com um guia especializado, tem vários sommeliers organizando excursões. Sempre vai ter aquela cerveja que é sua paixão, pra quem sempre você volta, mas tenta levar uma garrafinha diferente. Vai fazer um churrasco, pede para cada um trazer duas garrafinhas diferentes. Vê o que aparece, experimenta e se despe de preconceito.

33_BOTTLES_BEER_COVER-edit
Tatiana aconselha. Tomou uma cerveja inesquecível? Anote, pois você pode esquecer. O livrinho é da editora americana 33 Books

Mas o preconceito às vezes vem de quem entende, aquele olhar de dó para a cerveja do outro, coitado, que não soube escolher… (Veja algumas noções Dringue de etiqueta aqui e aqui)

Pois é. Me perguntam qual a melhor cerveja do mundo. Depende do quanto você tem para gastar, com quem está, o que vai fazer no dia seguinte, onde está, quanto vai poder consumir, com o que vai consumir. Uma cerveja linda, para tomar ao pé da lareira, lendo um livro, num momento supercontemplativo, não é mesma que você vai tomar na beira da praia com os amigos no verão. O importante é estar aberto e atento às experiências. E na medida do possível – sem ser chato, porque você não pode criar rituais que te deixam “o mala” – vai anotando: “Tomei essa cerveja e adorei”. O que você achou dela? Faz uma notinha, tem aplicativo, site para isso. Você não precisa ir super a fundo se o seu interesse não for se especializar, mas mantenha as notas, porque a gente tem memória curta: “Puxa, tomei aquela cerveja… Qual era o nome? O que ela tinha?” Essas anotações podem virar um material bem interessante.

Todo mundo acha que a vida de sommelier é uma festa, beber cerveja todo dia, harmonizar com pratos deliciosos… Como é a realidade?

Bem mais ralação do que o glamour que muita gente acha que é. Acham que você vai fazer a harmonização de uma carta e come todos os pratos do restaurante, cada um com seis cervejas e vê qual combinou melhor.

Ué? Eu achava que era assim.

Nããããããão! Esse é um em mil casos. Eventualmente você tem a oportunidade de degustar alguns dos pratos, o que é o melhor dos mundos. Mas em geral é muito mais trazer o conhecimento adquirido e aplicar suas sensações da teoria para a prática.

Boon Kriek-edit
Fruit Lambic Kriek Boon, da Bélgica: um escândalo com carnes natalinas

Por isso a cheiração constante de frutas, verduras, especiarias, cerveja?

Sem dúvida, você tem de estar aberto às sensações. Na verdade, a harmonização é muito mais intuitiva do que se pensa e fazemos isso todos os dias. Ao montar um prato, você está harmonizando sabores. Por que eu vou montar uma feijoada com arroz, feijão, as carnes, a couve, a laranja e a farofinha? Como tudo isso coversa? O fondue de queijo com pães, castanhas e outros vegetais. O ovo com bacon no café da manhã. O café com leite. O sorvete com cobertura. A carne com chutney. O risoto com funghi. O que funcionou ali? Será que um desses elementos eu posso trazer através da cerveja e não da comida? Quero trazer uma sensação agridoce para o prato com a cerveja. Como eu faço?

Como você faz?

A Fruit Lambic, todo mundo diz, é cerveja para sobremesa, mas as carnes natalinas ficam incríveis com ela. Cerveja de fruta com carnes assadas, peru, porco, chester, é um show! São carnes gordurosas e essa brincadeira com o frutado e a acidez quebra a gordura, é lindo. Bacon com ovo não é incrível? Pensa numa Rauchbier, que quando a gente abre todo mundo fala: “Nossa, parece que tem bacon aqui dentro!” E não é bacon, é malte defumado. A Rauchbier é par perfeito do ovo. Então, você pode ir por essas associações.

Mesmo quando você não provou o prato de fato?

Às vezes complica. Vêm esses cardápios em que gostam de colocar nome estranho em tudo – “surpresa da vovó”. Que vovó? A sua ou a minha? Aí você troca uma ideia com o chef para entender qual é a surpresa, qual a característica mais marcante do prato, o ingrediente chave, o protagonista da cena, para ele poder conversar com as cervejas, a partir do seu conhecimento dos estilos, sabendo que notas eles têm. Mas tem umas harmonizações que são chave, infalíveis, se repetem e não têm muito segredo.

baladin isaac-edit
Isaac Witbier, produzida na Itália pela Baladin: par perfeito para ostras, sushi e frutos do mar

Quais?

Não tem erro Witibier com sushi e frutos do mar. Não tem erro Rauchbier com ovos ou sopa de ervilha, infalível. Não tem erro IPA com costelinha barbecue bem gordurenta, bem melecada, funciona lindo! Fruit Lambic, além dos assados, com brie, camembert, queijos de mofo branco, a cerveja fazendo a vez da geleia. Não tem erro Porters e Stouts com bolo de chocolate, cookie, trufa. Não tem erro Tripel com salmão, você faz uma redução de molho de tangerina com a própria Tripel e fica maravilhoso. Flanders Ale com foie gras ou patê de fígado também fica lindo.

E harmonias inimagináveis, mas que funcionam?

Tem coisas que o pessoal diz que não vai funcionar, mas a gente testa: um ceviche, que é extremamente ácido, combinar com uma Gueuze, que é um blend de Lambics ainda mais ácido. Tudo muito ácido, vou juntar, vai ficar horrível. Muito pelo contrário, às vezes esses extremos se ajudam. A sensação que se tem é de que tudo fica mais ameno: a gordura do peixe com a acidez da Lambic faz subir as notas de malte, que normalmente passam despercebidas numa Gueuze. Sou apaixonada por alcachofra, que como com molho de manteiga e limão. Fui provar também com uma Gueuze, mas as notas da cerveja ficaram muito animais. Aí pensei em fazer outro molhinho: Gueuze com manteiga, em vez do limão, e ficou incrível. O salpicão de frango com Lambic de maçã é de ajoelhar. E a Lambic de maçã sozinha para mim é enjoativa, mas, harmonizada com os pratos certos, é lindo. Aliás, Natal e Lambic para mim são sinônimos.

É seu champanhe!

Eu amo acidez, sou meio suspeita. Desde criança chupo limão, carambola, coisa que saliva a boca.

maltes-edit-2
Coleção de maltes, um dos ingredientes do cervejeiro, na fábrica da cervejaria Dortmund, em Serra Negra (SP)

Você diz que a cerveja tem possibilidades muito maiores de harmonização do que o vinho. O povo do vinho não quer te pegar na esquina?

Polêmicas… Talvez eles torçam um pouco o nariz para esse comentário, mas a cerveja tem algo muito mais amplo, que é a possibilidade de trabalhar com outros ingredientes. A cerveja é gastronomia líquida: além do malte, do lúpulo, da água e da levedura, posso entrar com especiarias, com frutas, grãos, café, chocolate, mel, raízes. O mestre-cervejeiro é o chef de cozinha da cervejaria e a liberdade criativa na cerveja é muito maior. O vinho é de uva, ponto. O enólogo pode até culpar a safra pelo vinho daquele ano não ter sido tão bom. Mas o cervejeiro não pode culpar safra nenhuma: é só malte, lúpulo, água, o tipo de levedura, a temperatura de cozimento, de fermentação, as especiarias que ele usou. Tem outra questão, a cerveja tem variedades superleves e ultraalcoólicas e o vinho tem sempre uma média de 12% a 14%, a não ser os fortificados. Isso me dá outras tantas possibilidades. Tenho a carbonatação como outra referência muito importante para a limpeza de boca – o que você encontra só nos vinhos espumantes. E o amargor, que no vinho é deixado de lado. Sabe aqueles vinhos tânicos, adstringentes, os trava-sorriso? Também tenho cervejas adstringentes, mas tenho o amargor como outro ponto de limpeza de boca, ele ajuda a cortar a gordura. São elementos de corte – álcool, carbonatação, amargor, acidez – que posso explorar muito mais na cerveja. Não é questão de puxar sardinha, é uma questão química mesmo.

Rodenbach_Grand_Cru-edit
Rodenbach Grand Cru, exemplo de Flanders Ale, uma das paixõezinhas belgas de Tatiana

Mas me diga qual a cerveja da sua vida.

Continuo amando as cervejas de trigo, que foram minha porta de entrada para o universo da cerveja, meu primeiro grande trabalho foi o lançamento da Erdinger no Brasil. Ela é encantadora até hoje. Extremamente encorpada, linda espuma, fácil de beber. Mas estou numa fase de curtir as Flanders, da Bélgica. Tenho uma paixãozinha belga. É uma cerveja de alta fermentação com lactobacilos e em barris de madeira, tem as leveduras selvagens também atuando, mas não é de fermentação espontânea como a Lambic. Na Flanders você tem as notas animais, só que mais sutis, tem notas vinhosas, balsâmicas, acidez super-refrescante. Outro estilo de que gosto muito são as Saison, também belgas, que fazem brincadeira com as leveduras em alta fermentação, notas mais terrosas. Tem o amargor, mas também uma característica frutada. Acho tão prazeroso beber Saison, adoro! São cervejas alcoólicas, mas que não parecem tão alcoólicas assim. A Saison foi minha cerveja de casamento.

Só teve cerveja?

Só cerveja, água e refrigerante para as crianças.

Hora de experimentar mais um rótulo americano importado pela Bier & Wein, a Ballast Point Even Keel Session IPA – e o semianalfabeto aqui nunca soube muito bem o que é uma cerveja Session. Tatiana ensina:

A ideia da Session é transformar estilos de personalidade em versões mais leves e com baixo teor alcoólico. É justamente o oposto das versões Imperial ou Double. Ou seja, uma versão daquele estilo “X” para se beber em “seção”, o dia todo. Uma forma perfeita para mostrar que cerveja “levinha e fácil de beber” não precisa ser “aguada e sem gosto”. Essa, por exemplo, é uma Session American IPA. Você sente a explosão do aroma de lúpulo no nariz, típico americano, com uma pegada mais cítrica, resinosa e frutada. Põe na boca, o amargor esta lá, intenso e bem equilibrado ao malte. Mas o corpo é superleve e tem só 3,8% de álcool. Não satura o paladar e nem embebeda no primeiro copo, como são capazes muitas IPAs e seus 7,0% em média de álcool.

EvenKeel_can-edit
Ballast Point Even Keel: soco de lúpulo com teor alcoólico dos mais bobos

Uma cerveja de bolso.

Sim, dá para tomar a tarde toda.

E essa onda das cervejas superlupuladas, amarguíssimas, como você vê?

Hoje o que busco é equilíbrio, as coisas têm de ser harmônicas. Sabe aquelas pessoas que falam demais, são escandalosas ou fechadas demais? Gosto quando as coisas fluem gostosas. Gosto de cerveja lupulada, mas o lúpulo tem de estar bem inserido.

Tem uma coisa de macheza aí também? Minha cerveja tem de ser amarga pra caramba!

Tem. O cara bate no peito, quanto mais amarga melhor. Depois tem ataque cardíaco, porque lúpulo também acelera o coração, se você toma em muita quantidade. Hoje tem essa disputa de querer fazer a cerveja mais amarga, a mais alcoólica, a mais intensa. A acidez tem de ser boa, o amargor, tudo equilibrado. E quanto mais as pessoas fazem sua própria cerveja, mais começam a respeitar a cerveja dos outros, porque descobrem: “Opa! É difícil fazer cerveja!” É uma alquimia delicada, conseguir padronização, produzir sempre com a mesma qualidade. Mas tem essas modas: “Eu tomava pilsner a vida inteira e de repente ela virou a vilã, uma porcaria que não vale nada, bom mesmo são as belgas supercondimentadas. Agora bom mesmo são as superlupuladas americanas. Agora são as ácidas”. Calma… Tem momentos em que o que você quer é só a boa e velha Pilsner, facinha de beber, leve, despretensiosa. Não é toda hora que você quer explosão aromática.

Morada-etilica-hop-edit
Hop Arábica IPA da Morada Etílica: equilíbrio de aromas e sabores, segundo Tatiana

Do que você provou recentemente, o que é um bom exemplo de equilíbrio?

Tem um monte de cervejaria nacional fazendo um belo trabalho. O André Junqueira, da Morada Etílica, manda muito bem. A Hop Arabic dele é o melhor rótulo nacional que já provei, uma IPA com café incrivelmente equilibrada. Todas as vezes que abri uma garrafa, estava perfeita. A Kölsch deles também está excelente. Acho bacana a criatividade brasileira de buscar novos ingredientes, o ruim é quando você cita muito um ingrediente e ele não está presente ali na cerveja, não se consegue encontrar.

Hoje se fala na criação de uma escola brasileira de cerveja. Você acredita nisso?

Escola? Na verdade, estamos tentando descobrir nosso terroir, conhecemos pouco as nossas próprias frutas, ervas, raízes. Agora é um reinventar, porque tá todo mundo, a própria Europa, o velho mundo fazendo releituras de estilos, vendo como se pode recriar esses estilos e criar outros.

Os belgas, alemães, ingleses…

Todos eles. Inclusive a Lei de Pureza Alemã está sendo discutida na própria Alemanha, os microcervejeiros de lá buscando trabalhar outros ingredientes. A lei é muito bacana, porque você pode ter uma cerveja incrível sem nenhuma adição de conservadores, tudo natural, simplesmente água, lúpulo, malte e levedura, acabou. Agora, por que não posso entrar com um fruta, com uma especiaria? Na Lei de Pureza, não posso. A identidade da cerveja brasileira vai começar a vir junto com a pesquisa de matérias primas nacionais, estilos que combinem com nosso clima. Brasileiro gosta de frescor, alegria, e se você consegue traduzir isso em cerveja, funciona muito bem. Agora tem pesquisas de leveduras nativas brasileiras, de usar as nossas madeiras no envelhecimento de cerveja, e aí vai se criando uma personalidade. O Brasil já está atraindo os cervejeiros de fora, querendo buscar essa riqueza de informação sensorial dos nossos produtos, que são pouco explorados não só na cerveja, como na indústria alimentícia como um todo, nos iogurtes, sorvetes… Mas isso não significa a criação de uma escola brasileira, é mais uma reinvenção, uma adaptação de paladar.

caipirinha-cinira-edit
Pra variar, Tatiana gosta de beber uma caipirinha. Essa é a Cinira, com manga, tangerina e lima da Pérsia, preparada pelo bartender Eduardo Renna no restaurante O Rei do Picadinho

O que você bebe além de cerveja?

Caipirinha e uísque. Vinho me dá um sono mortal. Quer fazer uma noite romântica comigo virar um desastre, é abrir uma garrafa de vinho. Ainda bem que com meu marido é a mesma coisa.

Como é trabalhar com bebida e encontrar o caminho da temperança? Sua mãe não tem mais medo de que você vire alcoólatra?

Ha ha ha! Ela lembrava das festinhas em que tinha de me vigiar. Mas, quando comecei a trabalhar com bebida, aprendi a beber menos e melhor efetivamente. Odeio ressaca, odeio passar mal, isso ficou lá pra trás, graças a Deus! Aí minha mãe veio com essa: “Se eu soubesse, te punha pra trabalhar com cerveja bem antes!” Você aprende a consumir com mais cuidado, não quer esquecer o que bebeu no dia seguinte, porque está com uma baita ressaca. Você quer lembrar: “Aquela cerveja, que incrível, espero que eu possa tomar de novo”. Taí, hoje tive a oportunidade de beber duas tacinhas com você e para mim está ótimo. Bom é dividir, beber com calma, conversar. Tem a sensação da maresia, que é gostosa, claro, mas não precisa ficar bêbado. Não tem essa de “esqueci o que fiz”. Esqueceu é de parar de beber.

Que músicas vão harmonizar com as cervejas? “Secos & Molhados é minha paixão, sempre. Tem o Queen e o Dire Straits da adolescência. Dos atuais, Florence + The Machine. As divas, Aretha Franklin, Nina Simone… E minha irmã pequenininha, que é só quatro anos mais nova, a Naná Spogis”. Pra começar, Nina pedindo um pé de porco… e uma garrafa de cerveja

*

Créditos das imagens: Tatiana Spogis, Cervejas e Caipirinhas (Divulgação), Coleção de Latinhas (Reprodução Internet), Tatuzinho (Reprodução/Under Mexican Skies), Livrinho de Anotações (Reprodução/33 Books), Coleção de Maltes (Sergio Crusco)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s