Bebendo gim e vinho do porto com Billie Holiday e Lester Young

Top and Bottom – metade gim, metade vinho do porto – era o drinque que Billie Holiday gostava de tomar com o saxofonista, amigo e parceiro musical Lester Young. Só que sua bebida preferida, no duro, era o velho e bom uísque. Para o champanhe, Lady Day dizia “não”

Por Sergio Crusco

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Clássica imagem de Billie Holiday durante uma gravação nos anos 1950

Billie Holiday não gostava de champanhe. “Detesto”, frisa um par de vezes em sua autobiografia, Lady Sings The Blues. Era uma lady, no entanto, e não rechaçava uma taça quando um cavalheiro de verdade a oferecia. Foi assim em Montreal, quando ela experimentou o vinho borbulhante pela primeira vez, encorajada por um rapaz canadense que a advertia sobre os malefícios do uísque – ele lhe estragaria a voz. Billie aceitava a cortesia, mas corria para a cozinha para dar uns goles no destilado de malte. Esse sim, sua paixão.

Por alguns segundos, chegou a ter certeza absoluta de sua desconfiança do champanhe, em San Fernando Valley, na Califórnia. Um garoto da plateia quis dar uma de engraçadinho, começou a fazer barulho com os copos enquanto Billie cantava Strange Fruit, o estarrecedor poema de Lewis Allan que narra o linchamento de negros no sul dos Estados Unidos. Não contente, o rapazola baixou feio o calão – “preta” foi uma das palavras mais amenas que dirigiu à cantora.

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“Esse é do bom”: Billie aprova o uísque americano de centeio

Durante o intervalo, insegura em continuar cantando, Billie encontrou o comediante Bob Hope, que lá estava com Judy Garland para ver o show. “Vá lá e cante”, encorajou Bob. “Deixe aquele filho da puta fazer mais alguma coisa que eu cuido dele”. Cuidou: ao primeiro pio do sem vergonha, Bob subiu no palco, trocou cinco minutos de impropérios com o moleque, que deixou o nightclub com cara de cuíca. A plateia quase botou o lugar abaixo com aplausos para Billie e Bob – e vaias para o mequetrefe.

Mas a noite se revelaria ainda mais sacudida. Ao final do espetáculo, Bob esperava Billie na sala de jantar com um balde enorme, gordo de champanhe. Seria desfaçatez recusá-lo. Depois de beber algumas taças, vendo lustres e espelhos tremelicarem no salão, Billie disse a Bob: “Cara, esse negócio é forte mesmo, esse champanhe é muito maluco”. Lívido, o humorista replicou: “Escute, garota, você não percebe que acabamos de ter um dos piores terremotos que já aconteceram por aqui?”

Não eram duas ou três taças de vinho que nocauteariam Billie Holiday. Era dura na queda. Conseguiu ficar “limpa” de sua adicção por heroína enquanto esteve encarcerada numa fazenda penal em 1947, depois de uma das muitas ciladas que a polícia americana a pregou. Teve saudade do uísque, porém. Encarregada da cozinha, decidiu destilá-lo a partir de cascas de batata, imitando o método de um velho chinês que fabricava uísque caseiro com arroz, em seus tempos de infância em Baltimore. A coisa parecia estar indo bem, até que o mau cheiro da poção fermentada a denunciou. Ficou duas semanas sem cigarros por causa disso.

Top and Bottom

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Lester Young e Billie Holiday: almas gêmeas musicais

Há que se descontar, nas histórias contadas por Billie, seu gosto maroto por lorotas – não foram poucos os biógrafos que detectaram imprecisões (para usar um termo educado) em Lady Sings The Blues, escrito em parceria com o jornalista William Dufty, outro paieiro. Foi Dufty quem sugeriu que a cantora usasse óculos nas fotos promocionais do livro, para dar um quê cool ou intelectual. Billie nunca usou óculos, a não ser os de sol.

No que diz respeito a bebidas, é certo que Billie não era lá muito fã dos coquetéis, gostava dos tragos puros. Mas abria exceção para a mistura de gim com vinho do porto, que ela e o amigo Lester Young, saxofonista tenor, apelidaram de Top and Bottom – gim era o “top”, que ficava na taça acima do porto, mais denso, o “bottom”. Foi o combustível usado para muitas das gravações que fizeram juntos – justamente as preferidas de Billie.

Daria para fazer longa poesia sobre como o drinque simbolizaria a parceria musical de Billie e Lester, mas soaria totalmente despropositada. Não havia nada de “top” ou “bottom” entre os dois. Eram almas gêmeas na música, na grande amizade que viveram e nos vícios que os corroeram. Tinham a mesma densidade no estilo, no fraseado, na inventividade. Na sutileza com que atacavam as notas, atrasando-as ou adiantando-as a seu modo, como se brincassem de pular amarelinha em ritmo próprio, e ainda botassem a língua para as amiguinhas, sem nunca perder um compasso. Na liberdade com que tratavam as melodias, reconstruindo-as, moldando-as com notas alternadas até que pudessem transformá-las em suas, únicas e intransferíveis.

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Foto autografada de Billie com a mãe, Sadie Fagan: na assinatura, os títulos de Lady e Duquesa

Foi Lester, um cavalheiro, quem a apelidou de Lady Day – dando nobre significado ao pejorativo “Lady” que ela havia ganhado de cantoras de cabaré menos afortunadas de talento, portanto invejosas, que a consideravam soberba. Acolhido na casa de Sadie Fagan, mãe de Billie, depois de ter sofrido o diabo num hotel de última categoria em Nova York, Lester deu o título de Duchess à matriarca. Billie retribuiu a gentileza elegendo-o President – ou simplesmente Prez. “Éramos a família real do Harlem”, dizia.

“Lester é o maior do mundo”, escreveu Billie. “Ele canta com o seu sax, quando você o escuta, pode ouvir as palavras”. Sobre um duelo de músicos em que Lester, de sopro suave, enfrentou (e humilhou) o saxofonista Chu Berry, de som potente, disse: “Que diferença faria um maior ou um menor volume de som, se as melodias de Lester se moviam daquela maneira maravilhosa, com todos aqueles encadeamentos, aquelas mudanças de tom, todas aquelas notas que pegavam o ouvinte de surpresa?”

Se fosse Lester Young falando de Billie Holiday, daria exatamente na mesma. E se faltam palavras, basta ver o olhar de ternura infantil com que Billie curte o solo do irmãozinho Lester na única filmagem que se tem dos dois juntos.

RECEITA DE TOP AND BOTTOM

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O Top and Bottom preparado pelo músico Ethan Iverson, estudioso da obra de Lester Young

Supõe-se que “Top and Bottom” tenha sido o batismo sacana de Billie e Lester a um drinque que já estava nas bocas desde o século 19 – uma brincadeira com piscada de olho sexual da dupla. Não há nos compêndios de coquetelaria receita com esse nome. O pianista e estudioso do jazz Ethan Iverson, autor do blog Do The Math e membro do trio The Bad Plus, ficou curioso. Pediu à sua mulher, a escritora Sarah Deming, autora do blog The Spiral Staircase, para investigar o assunto. Sarah encontrou a descrição de um trago parecido, chamado Princeton Cocktail, na “bíblia” Modern American Drinks, lançada por George J. Kappler em 1895. Ela diz que outras fontes citam o drinque pelo nome de Flesh and Blood.

O casal testou a receita, usando o bitter de laranja indicado por Kappler e também um tantinho de xarope de açúcar, o que ajuda o drinque a ficar mais complexo, redondo e palatável. Não é de se imaginar, no entanto, que Billie e Lester andassem com vidrinhos de bitter para lá e para cá na eventualidade de preparar um coquetel no estúdio, entre a criação de uma e outra maravilha. O negócio ali devia ser fogo na goela.

Se quiser preparar o seu, anote a receita de Sarah:

Ingredientes

60 ml de gim
20 a 25 ml de vinho do porto ruby gelado
1/2 colher de chá de açúcar refinado fino ou xarope de açúcar simples
3 lances de bitter de laranja

Modo de preparo

Encha a coqueteleira com gelo fino ou quebrado. Adicione o gim, o açúcar e o bitter e mexa até a coqueteleira ficar suada. Coe num copo baixo. Adicione o vinho do porto suavemente, fazendo-o deslizar pelo canto do copo, para que fique sedimentado no fundo.

Para beber ao som de Billie e Lester, claro

*

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Billie usa óculos, só de mentirinha

Créditos das imagens: Reprodução, Top and Bottom (Ethan Iverson/Reprodução)

 

6 comentários

  1. é um blog completo… além do texto maravilhoso, tem um grau altíssimo de informação etílica, que vem acompanhada de deliciosas ilustrações… sem falar do plus que é o drin-in-gue… que deixa a gente assim: frouxa, boba e alegrinha. cheers! Sergio Crusco!

    Curtido por 1 pessoa

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