Cerveja Mea Culpa lança Preguiça, uma witbier para quem não quer saber de complicação

Dringue está de volta. Mas chega sossegado, brindando com a cerveja Preguiça, witbier delícia da Mea Culpa, própria para quem não quer queimar a mufa. Ou finge que está na miúda e andou só matutando na vida…

Por Sergio Crusco

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Entra ano, sai ano, Dorival Caymmi continua dando pinta no Dringue, personificando a preguiça produtiva – fez pouco mais de 100 canções, todas obras primas

Voltar, encarar o tranco mais uma vez, botar na prática planos que até ontem eram sonhos, lidar com os dilemas do tipo “o que faço da vida?”, “quem sou eu?”, “onde estou?”, “para onde vou?”… Nada disso combina com decisões muito complicadas. Bom é recomeçar de mansinho, sem grandes solavancos. Não, solavanco ninguém quer.

Melhor abrir uma witbier, estilo belga de cerveja levinha, levemente perfumada, fresca. Nenhum aroma estrambótico para decifrar, nenhum papo que envolva grandes repertórios sensoriais. Fácil de beber, de entender e de gostar.

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Preguiça, witbier com alta dosagem de camomila e lúpulo japonês que traz o toque cítrico típico do estilo

A Preguiça (olha só que nome bom), quarto lançamento da série de cervejas da jovem Mea Culpa que brinda os pecados capitais, é assim. Mas tem seu toque original. O mestre cervejeiro Rodrigo Louro (que não é preguiçoso e é louro de verdade) subverteu a receita belga típica e eliminou a casca de laranja. Caprichou na dose de camomila, de efeito relax. E o caráter cítrico fica por conta do lúpulo japonês sorachi ale.

No lançamento da Preguiça, que rolou na filial do Aconchego Carioca de São Paulo, notei um amargor um tiquinho mais acentuado do que sinto na maioria das wits. Rodrigo disse que não, ela tem cerca de 11 IBUs (a medida de amargor das cervejas), igualzinho às outras. Perguntei se o dry hopping de sorachi ale não trazia essa sensação, uma pegada mais picante de lúpulo. “Talvez não no amargor. Procuramos fazer com que o lúpulo desse o caráter cítrico do estilo”, me explicou Rodrigo, também sócio e professor na escola de Sinnatrah Cervejaria-Escola. E a preguiça de entrar numa conversa cervejística altamente técnica me fez pedir mais um copo para entrar no clima que o novo rótulo sugere: não ter muito o que pensar.

Para quem perdeu o bonde da história (como o Dringue, que ficou paradinho por um tempo), vale recapitular os pecados que já estão no mercado. A Gula (R$ 19,90) é uma Blond Ale para gulosos, naturalmente. Vem em garrafa maior (600 ml), é leve, “para beber aos cântaros”, diz o pessoal da Mea Culpa, e pouco amarga (17 IBUs). A Vaidade (R$ 15,90, 355 ml) é perfumosa, uma American Pale Ale feita com três lúpulos, o que faz com que se avance no amargor (32 IBUs). Porreta, a Ira é India Pale Ale amarga para danar (92 IBUs), o que tem tudo a ver com nossos dias de fúria (R$ 16,90, 355 ml). A Preguiça custa R$ 14,90, garrafa de 355 ml também. (Preços pesquisados agora no comecinho de março, na Cerveja Store)

Aguardem Avareza e Inveja, crianças. Rodrigo já tem algumas ideias. “Estamos estudando estilos e ingredientes. Avareza talvez seja uma cerveja mais simples e barata. E acho que a Inveja será a cópia de alguma cerveja que eu goste muito, para mostrar a inveja que sinto de quem a criou”.

Quando acabarem os 7 Pecados Capitais, como é que fica? “Há muitos pecados modernos que, com certeza, vão render boas cervejas”, diz o mestre cervejeiro.

CADÊ O DRINGUE?

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“Vou ali e volto já”

Demos um sumiço de alguns… nem vou contar quanto tempo, os amigos começaram a perguntar: “Cadê o Dringue? Parou? Vocês não postam mais?” Depois de algumas respostas amarelas no estilo “vamos dar uma reformulada”, “andamos ocupados” ou “projetos novos pintando”, fui logo assumindo: preguiça. Assim, não se fala mais nisso. Mas ouvir “ah, não pode parar, é tão legal” também foi animador e fez bem à autoestima (palavrinha que dá preguiça essa, não?).

Estivemos ocupados, certamente. Afinal, ninguém aqui é Jorginho Guinle ou Paris Hilton, com uma penca de heranças para torrar (adoraria!). Minha companheira de blog, Cris Ramalho, com um novo projeto, sim, chique, virando roteirista de documentário – em breve nas bocas. Eu tocando a vida, tratando de arranjar dinheiro, inventando umas modas diferentes por outras vias que não o jornalismo, tendo ideias para o blog num eterno “amanhã escrevo” que só não é eterno porque interrompido hoje, com esse post. E alguns textos do nosso querido convidado Walterson Sardenberg Sobrinho aguardando edição (ou seja, postagem, não há nada o que editar num texto do Berg).

Como o blog se despediu de 2015 com uma linda imagem de Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi no texto sobre samba canção e uísque (volte no tempo aqui), resolvemos assumir a preguiça de ter ideias geniais de ilustração e damos um repeteco. A imagem de Caymmi refestelado no sofá de sua gravadora faz parte do livro Um Olhar na Música Popular Brasileira, de Cristina Granato, fotógrafa nada preguiçosa que clicou meio mundo.

Caymmi, que levou a fama de preguiçoso-símbolo, compôs pouco mais de 100 canções. Acha pouco? São todas obras primas. Vai tentar fazer um “João Valentão” pra ver o que é bom.

Aí a gente vai no Google para dar um lustro bacana na informação, tentar entender o que é preguiça, topa com uma dezena de estudos das universidades britânicas, memes tontos para postar no Facebook, matérias feitas em tópicos dando dicas para vencer a leseira e frases edificantes, montes delas, lavradas por quem pula da cama às seis da manhã. “Ai, que preguiça!” – fecho com Macunaíma. Ou com a tirada de Mário Quintana: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”.

Vou ali tomar minha Preguiça. Volto já.

Canções preguiçosas…

*

Créditos das imagens: Dorival Caymmi (Cristina Granato/Divulgação do livro Um Olhar na Música Popular Brasileira), Cerveja Preguiça (Sergio Crusco), Bicho Preguiça (Christian Mehlführer/Wikimedia Commons)

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