A incrível origem da palavra cocktail

Quem inventou o coquetel? O americano? Errou! Tudo indica que foram os ingleses, a partir do estranho hábito de animar seus cavalos enfiando gengibre… Bem, leia essa história cheia de detalhes nem sempre muito elegantes

Por Sergio Crusco

horse_edit
“Aica, meu! Esse dringue tá porreta!”

De tão bonitinha, dá vontade de acreditar na história. Lá pelo começo do século 19, quando as forças armadas dos estados americanos do sul tentavam conquistar terras mexicanas (como de fato fizeram, garfando os territórios da Califórnia, do Texas e do Novo México), houve uma longa negociação de trégua entre as tropas e o rei asteca Axolotl VIII. Ao fim da conversa, acordada a trégua, o rei propôs um brinde. Sua filha, a linda princesa Xochitl (linda é por minha conta, já que é lenda mesmo e eu conto do meu jeito), encarregada de cuidar da mixologia no reino, veio apenas com uma taça na mão. Estabeleceu-se a saia justa: se o rei bebesse primeiro, seria desrespeito com o general. Se o general tomasse, poderia insultar o rei. Xochitl não teve dúvida: ela mesma bebeu, de uma só golada, a dose de pulque, fermentado do agave. A princesa, esperta, quebrou o clima de impasse e logo mandou ver uma rodada das boas para a tropa, que, à certa altura, língua enrolada pelo álcool, já não conseguiria pronunciar nada direito, ainda mais no idioma nativo:

­

– Meu, que drinque da hora! Quem inventou a parada?

– Foi a princesinha, filha do rei, a Cocktail.

mencken-prohibition
H.L. Mencken, na célebre imagem em que comemora o fim da Lei Seca, foi um dos pesquisadores da origem da palavra cocktail. No entanto, preferia praticá-la, em vez de estudá-la

De lenda em lenda, a origem da palavra coquetel conta com mais de 50 versões, compiladas por dedicados historiadores da manguaça. Até o jornalista H.L. Mencken, célebre bebedor e apaixonado pelo modo de falar do americano, entrou na dança. Não sem antes avisar que a origem do termo era “tão obscura quanto a da coisa em si”, Mencken cavocou algumas teorias. A mais divertida é de que um coquetel seria, na época colonial, algo preparado com os restinhos, ou os “rabos” (tails) das bebidas de várias garrafas, vendido a preço módico (enfim, era o resto do resto). A mistureba ia para um barril e era despejada no copo por uma torneirinha, então chamada de “cock”.

Ah, tem mais uma engraçadinha. Dizem que o apotecário Antoine Amédée Peychaud (sim, o que criou a famosa marca bitters de mesmo nome), na Nova Orleans do final do século 18, tinha por hábito servir misturas de brandies com bitters (isso era considerado remédio naqueles tempos) em tacinhas de colocar ovo, chamadas em francês de “coquetier”. Quem não se curava depressa ou fora mesmo à farmácia para conversar fiado, também enrolava a língua e pedia outra dose: “Vê mais um desse cocktail aí, ô, seu Peychaud”.

The_first_definition_of_Cocktail
Tá aqui a primeira definição da palavra cocktail na imprensa americana

Quem já leu um pouquinho sobre a história da coquetelaria sabe que o termo cocktail aparece pela primeira vez em 1806, no jornal The Balance and Columbian Repository, de Hudson, Nova York, em resposta a um leitor que, justamente, perguntava: “Afinal, que raios quer dizer cocktail?” “É um licor estilumante composto de qualquer tipo de destilado (spirit), açúcar, água e bitters”, respondeu o jornal.

Pois é, sabia, pois a conversa mudou de rumo com algumas novas descobertas. Quem ajudou a sedimentar a história oficial foi o bartender e historiador da bebida David Wondrich, autor do livro Imbibe, lançado em 2007, obra que rapidamente se tornou espécie de bíblia para o mixologista moderno. Nela, considerou patacoada a maioria das histórias antes contadas e trabalhou com três referências que considera “canônicas” sobre as origens do termo e do coquetel em si. A primeira, a de que teria sido criado por uma mulher, Betty (ou Betsy) Flanagan, citada pelo escritor James Fenimore Cooper (o mesmo de O Último dos Moicanos) no livro O Espião. Betty (personagem ficcional inspirada numa mulher que realmente existiu, Catherine “Kitty” Hustler, dona de uma hospedaria) teria sido a rainha do borogodó no condado de Westchester, Nova York, então uma “terra de ninguém”, inventora de uma beberagem de grande sucesso (cuja receita Flanagan esquece de dar) chamada “cock-tail”. A segunda é a própria citação do The Balance. A terceira aparece na novela História de Nova York, do escritor e historiador Washington Irving, publicada em 1809, que fala “daquelas bebidas obscuras, os cock-tails”, sorvidos avidamente pelos marylanders, povinho considerado ralé pelos novaiorquinos de então (até hoje, chamar alguém “marylander” é gíria pejorativa, politicamente incorreta, naturalmente).

Por aí dá para perceber que pedir um coquetel não devia dar muita moral ao cidadão de bem, até que, em 1862, o bartender Jerry Thomas resolveu dar um basta nesse fuzuê (“ora, onde já se viu, beber coquetel pode ser muito chique, sim”) e publicar Bar-tender´s Guide, obra que daria status de arte ao ofício de misturar bebidas.

bar 4
O Bar-tenders Guide, de Jerry Thomas, lançado em 1862, começa a fazer com que os coquetéis deixem de ser considerados “coisa de gentinha” para virar uma arte refinada

Depois de publicar Imbibe, no entanto, David Wondrich teve notícias de outras evidências sobre a origem do termo. Ele aparecia numa publicação de 1798, e não era americana. Assim como os ingleses inventaram o vinho espumante antes dos franceses (a história você lê aqui no Dringue), parecem ter criado o coquetel antes dos americanos também. Encontrou outras referências à palavra “cock-tail” ainda mais antigas, não necessariamente designando a bebida. Aí é que a coisa começa a fazer sentido, sem deixar de ser muito maluca.

Pocotó

No século 18, quem vendia um cavalo na Inglaterra tinha um truque para fazê-lo parecer vivaz e pimpão à vista do possível comprador. Enfiava gengibre no popô do animal – dava um “upa neguinho” no bicho. Era um Vick Vaporub ao contrário. O cavalo empinava a cauda, como um rabo de galo, ou como outra coisa que você pode estar imaginando, caso manje o palavreado erótico inglês.

ginger-1q48l3a-1000x675
Gengibre, o ingrediente que dava o “up” – e continua dando

Não se sabe agora o que veio antes – o ovo ou a galinha. Mas o fato é que “ginger” também era gíria para designar “goró”. O sujeito tomava um e ficava saidinho, no grau, pronto pro samba. Havia o hábito de se adicionar gengibre ou pimenta à bebida, para torná-la mais estimulante. Outros autores chamam de cocktail apenas esse complemento, e não a bebida em si, como descreve o inglês John Badcock (e não façam brincadeirinha com o nome do moço) em 1825, no livro Sportman’s Slang (Gíria dos Esportistas): “Gim ou cerveja, ou os dois, combinados com uma raspada ou duas de cock-tail”. Ou seja, aquilo que faz o cavalo saltitar. Em algum momento, a expressão passou a valer para o conjunto da obra – e deu no que deu: nosso drinque-símbolo de boteco, o Rabo de Galo, é tradução literal dessa confusão toda.

O que Wondrich não sabe explicar, e continua pesquisando, é como, na tradição americana de preparo dos coquetéis, os bitters substituíram o gengibre e a pimenta dos “esquenta-rabo” ingleses. Já que topou com outra referência, dessa vez americana, do destilador William Crawford, citando exatamente o jeito inglês de preparar seu drinque predileto: “With pepper in it”. Sinal de que o estilo british fez escola do outro lado do oceano.

Enquanto não se encontre o fio da meada, prefiro continuar acreditando piamente na história da princesinha, especialmente na hora de pedir o próximo coquetel, por mais que quem estude e escreva me prove para sempre o contrário. No meu, não, violão.

(Para ler o texto de David Wondrich publicado no site Saveur, dá um clique aqui.)

Para entrar no embalo

*

Créditos das Imagens: Reprodução/Internet, Gengibre (Universidade de Delaware)

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s