Uma tarde com os vinhos de Andrea Bocelli

Os produtos da Bocelli Family Wines não são puro golpe de marketing: a família do tenor popstar produz vinhos na Toscana desde 1730 e causou ótima impressão numa degustação realizada em São Paulo

Por Sergio Crusco

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Andrea Bocelli na propriedade da família, em Lajatico, Toscana

Quando você vê um vinho com um nome famoso no rótulo, logo desconfia: “Opa, esse aí arranjou mais um jeito de defender um troco”. Brad Pitt, Angelina Jolie, Madonna, Drew Barrymore e Jay Z são algumas das celebridades que emprestam seus nomes a bebidas. No mundo do lúpulo, é comum ver bandas de rock complementando o orçamento com suas próprias cervejas, caso do Queen, sobre o qual já falamos aqui no Dringue.

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Bocelli Pinot Grigrio IGT: felicidade engarrafada

A história de Andrea Bocelli é um tanto diferente, quase uma pegadinha para os desavisados. A família tem vinhedos na Toscana desde 1730, quando se estabeleceu na região cultivando também grãos, oliveiras e produzindo mel e azeite. Só duzentos anos mais tarde as terras começaram a revelar seu verdadeiro potencial para a vinicultura, a partir do trabalho de Alcide Bocelli, avô do tenor, que modernizou os métodos de produção na fazenda. “Ah, a história do vovô que plantou a uva, toda vinícola conta para dar aquele ar de tradição”, pode-se pensar. Mas acredite, são vinhos bons, sinceros e recomendáveis. “O vinho veio antes da música”, deixa claro Alberto Bocelli, irmão mais novo de Andrea, arquiteto e diretor executivo da Bocelli Family Wines, durante uma degustações de cinco rótulos da companhia em São Paulo. Andrea apareceu por lá rapidamente, ganhou uma salva de palmas e garantiu que provaríamos o que ele considera “vinhos da felicidade”.

Claro, a marca Bocelli foi megaturbinada pelo sucesso do tenor que já vendeu mais de 70 milhões de discos e transita entre o mundo clássico e popular com versatilidade. Da mesma maneira que lota teatros e estádios com sua voz poderosa, árias de ópera e hits românticos, seu toque de Midas faz com que os vinhos da família sumam das prateleiras. A produção é de cerca de 400 mil garrafas por ano, sendo 40 mil delas provenientes de uvas cultivadas na fazenda da família, em Lajatico, província de Pisa. Imagine isso tendo de ser dividido entre fãs do cantor em todo o planeta.

O Pinot Grigio IGT 2013 (R$ 159), primeiro a ser servido, vem de videiras cultivadas em Colli Euganei, no Vêneto. Ganhou-me de cara. Sou fã dos brancos cítricos, minerais, levemente aromáticos. Bastante fruta no paladar, mas bem tabelada com a acidez. Como não sou especialista em degustação, posso dizer, à minha moda, que é um vinho redondo, enche a boca, muito equilibrado e cumpre a promessa de felicidade de Andrea. A quem interessar possa, o enólogo e diretor comercial da empresa, Antonio Sanguineti, que conduziu a degustação, explicou que a produtividade dessas parreiras antigas, de cerca de 30 anos, é de 2,5 garrafas por planta, enquanto normalmente uma planta rende de 8 a 10 garrafas.

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Sangiovese, uva-símbolo da Toscana, rende rótulos bem equilibrados

Em seguida vieram dois 100% Sangiovese IGT (R$ 169), de uvas provenientes de Morellino, sul da Toscana, envelhecidos em barricas de carvalho por quatro meses. A Sangiovese é a estrela da região, com ela são elaborados os famosos Brunello di Montalcino, os Chianti e os Rosso di Montalcino, além dos Supertoscanos (vem um deles em seguida). O da safra 2013 tem grande acidez, porém equilibrada com o paladar bem evidente de frutas vermelhas. Gostei mais dele do que o 2015, que me pareceu mais “agressivo” no paladar. Mas Sanguineti, que entende do riscado, considera o 2015 superior – foi um ano excepcional na região, ele diz. O vinho mais jovem, no entanto, tende a melhorar, explica o enólogo, que promete um tempo de guarda de 25 anos para o rótulo. Fico meio acabrunhado em não ter percebido a superioridade do segundo Sangiovese, mas um amigo degustador de alta quilometragem me consola: “Não há nada de errado na sua percepção. O 2013 está mais ‘pronto’, arredondado. O 2015 ainda vai evoluir”. Suspiro aliviado e dou uma golada, sem cuspir, da taça que me encantou. E logo da outra, já que não estou disposto a esperar 25 anos.

Os vinhos Supertoscanos são uma denominação alternativa para cortes que não estão dentro dos padrões estabelecidos dentro das denominações de origem clássicas da região. Eram classificados como Vino da Tavola, o degrau mais baixo da nomenclatura italiana. Alguns desses “fora da lei”, no entanto, não tinham nada de ordinários e, por isso, a partir da década de 1970, seus produtores se uniram para criar essa nova denominação, uma espécie de “vale tudo” que permite o uso de uvas não autóctones da Toscana, e conquistar o IGT, sigla italiana para a indicação geográfica. É o caso do Tenor Red IGT 2015 (R$ 200), elaborado com 34% de Cabernet Sauvignon, 33% de Sangiovese e 33% de Merlot, também de Morellino. Tem notas marcantes de frutas vermelhas como cereja e cassis e uma adstringência acentuada, para quem gosta de taninos que amarram a língua. Imagino que funcione bem com uma carne bem gordurosa.

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Bocelli Poggioncino: uma explosão de fruta

Por fim, o Poggioncino IGT 2015 (R$ 265). Segundo o enólogo, ele representa todo o terroir da propriedade dos Bocelli, em Lajatico. É produzido com 60% Sangiovese, 20% Canaiolo, 10% Malvasia Bianca e 10% Colorino. Envelhece 18 meses em barris de carvalho e pode ser considerado um pot-pourri de frutas, com notas de framboesa, morango, cereja, groselha, damascos e peras, além de aromas vegetais e uma certa picância. Isso é o que está na descrição da ficha técnica, pois apesar de sentir o “bosque” no nariz e na boca, não tenho sensibilidade para captar exatamente toda essa informação. Foi o vinho mais elogiado da tarde, arrancou “ohs”. Reconheço que é excelente, não ficaria nada chateado se me presenteassem com ele. Mas ainda fico com os 100% Sangiovese e o branco lá do comecinho.

Curiosidades. Lá pelos idos de 1930, Alcide Bocelli criou uma marca para o gado de sua fazenda, com as letras AB. Manteve a tradição ao batizar seus filhos com essas iniciais, talvez para não sobrar dúvidas sobre quem eram os donos dos animais. Alessandro seguiu à risca dando o nome de Andrea e Alberto aos seus. Alberto Bocelli está bem envolvido com a empresa, mas faz suas arquiteturas pela Itália, restaura casas históricas na Toscana e criou o Teatro del Silenzio em Lajatico. Durante o ano todo o teatro fica quieto, como o nome indica. A arena ao ar livre só ganha vida uma vez por ano, com um concerto de Andrea e seus convidados. O jovem Alessio Bocelli, filho de Alberto, é quem está 100% envolvido com o negócio vinhateiro da família.

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Os irmãos Andrea e Alberto Bocelli

Vai lá: Esses e outros vinhos da Bocelli Family Wines são importados no Brasil pela Italiamais, tel. (11) 3044-1116. Consulte a disponibilidade, pois eles costumam sumir com rapidez

Andrea Bocelli e um pouco da Toscana

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Créditos das imagens: Divulgação/Bocelli Family Wines e Divulgação/CH2A Comunicação (Taças)

2 comentários sobre “Uma tarde com os vinhos de Andrea Bocelli

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