Edgar Allan Poe, Pedro Bó e uma prova de vinhos e brandies de Jerez

Em um de seus contos, Allan Poe narra uma cilada em que a promessa de um barril de Jerez Amontillado seduz a vítima. Sem fantasmagorias por perto, e a convite de um bom amigo, provar esses vinhos fortificados espanhóis, e o Brandy deles destilado, é puro prazer

Por Sergio Crusco

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Ilustração de Arthur Rackham para O Barril de Amontillado (1935)

Dia desses um amigo me chama, avisando que haverá uma degustação de vinhos espanhóis de Jerez, estou convidadíssimo. Animo-me, lembro imediatamente do conto de Edgar Allan Poe, O Barril de Amontillado, de 1846, e releio a história esquecida desde os tempos de adolescência. Desanimo-me à primeira linha, trata-se de uma bruta vingança, que começa com o convite para uma prova de vinho – o Amontillado, especificamente. O tétrico desfecho vem à mente antes que eu termine a leitura. Embora meu amigo seja boa gente e não imagino que tenha a intenção de me emparedar nas profundezas de uma catacumba, como o narrador Montresor faz com o fanfarrão Fortunato (pronto, contei), um chamado para provar Amontillado dá aquele frisson, um tã tã tã tã de Beethoven. Mesmo porque eu nunca havia posto um deles na boca.

É com essa gana que Fortunato, já um tanto tralalá em meio a um folguedo carnavalesco, metido em roupa de bufão e chapéu de guizos, persegue seu anfitrião. Montresor quer que o pateta, de quem não perdoa injúrias e ofensas, averigue se um barril de Amontillado que comprou por uma pechincha é Amontillado no duro, na batata, se não lhe passaram a perna. Montresor dissimula a ideia macabra que tem na cachola, advertindo que Fortunato sofreria com o frio e a umidade da cave, sugerindo que um certo Luchesi, outro entendedor de vinhos, talvez pudesse comprovar a autenticidade do produto. “O frio não é nada. Amontillado! Você foi ludibriado. E quanto a Luchesi, não distingue Jerez de Amontillado”, zomba Fortunato, supostamente um bamba na matéria.

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Edgar Allan Poe (1809-1849): gosto por vinhos finos e emparedamento humano

O Barril de Amontillado é um daqueles enigmas literários que gera debates apaixonados (tipo Capitu traiu ou não) entre quem estuda o autor. Que razões teria o narrador para vingar-se de Fortunato? Despeito é a principal hipótese: Fortunato é um novo rico, recém-aceito no círculo da maçonaria; Montresor vem de uma família abastada que perdeu dinheiro e status. O nome das personagens indica essa dualidade: Fortunato quer dizer “fortuna”, naturalmente, e Montresor significa algo como “aquele que sela o destino” (a divisa do brasão da família de Montresor é “ninguém me fere impunemente” ou “vou acabar com a tua raça”, o que dá no mesmo). Jogo de palavras bem ao gosto de Poe, que também se amarrava nessas paradas de emparedar gente, às vezes esquecendo um gato miando lá dentro, como denúncia do crime.

À luz do conhecimento de vinhos, o estudioso L. Moffit Cecil, da Universidade Cristã do Texas, mata uma charada: Fortunato não manjava tudo isso e é possível que Montresor o soubesse muito bem. O Amontillado é um tipo de Jerez, Pedro Bó. Leva esse nome por ser produzido na região de Montilla-Moriles, uma das denominações de origem da Andaluzia, mas tem permissão legal de levar o nome Jerez desde os tempos de Poe. Cecil considera o Amontillado superior aos outros Sherrys (como se diz na gringa) e deduz que Fortunato é alcoólatra (como Poe também era), até porque bebe sem o mínimo cuidado, num só glup, finos exemplares franceses de Médoc e Graves, servidos por Montresor no caminho subterrâneo com a clara intenção de embebedá-lo e fazê-lo cair na armadilha.

Vamos aos vinhos

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O Jerez Fino vai bem com azeitonas e petiscos. Muito melhor com frutos do mar

O Pedro Bó agora sou eu. Mas não vou parar numa catacumba e não corro o risco de ser emparedado. Jesús Peláez, diretor comercial das Bodegas Rey Fernando de Castilla, de Jerez de La Frontera, é um anfitrião sorridente, de fala solta e abundante, que abre os serviços com um discurso apaixonado sobre as particularidades climáticas da Espanha – que, claro, considera mais ricas em contrastes que as da Itália, da França e de Portugal para a produção vinífera. “Temos mais sol, mar, diversidade de climas e de solos”, diz.

No ambiente enfumaçado do Esch Café, Meca dos fumadores de charuto paulistanos, Jesús nos apresenta dois estilos de Jerez, o Manzanilla (R$ 116,50) e o Fino (R$ 118,03), de cor amerelo-palha. Ambos feitos com uvas Palomino, são secos, sequíssimos, e de alta acidez, o que me agrada muito. A fruta também está presente, cítrica no olfato e no paladar. Perfeitos para comidas do mar (na prova, fazem par com salmão defumado e ceviche). Porém, Fortunato que sou, não tenho esse nariz e essa boca para distinguir grandes diferenças entre eles, que devem ser servidos a cerca de 8 a 10°C. Mas babo com a receitinha que Jesús nos ensina. Ele tira a pele de camarões, primeiro cozinha apenas as cabeças com Jerez, espremendo-as levemente para que soltem seu sumo e maresia. Joga as cabeças fora e usa esse molho para saltear o resto, “muito rapidamente, só um minutinho”. Morou?

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Barricas de carvalho dispostas em sistema de solera e criadera na propriedade das Bodegas Rey Fernando de Castilla, em Jerez

Os Jerez são elaborados por uma técnica tão antiga quanto complicada, o sistema de solera e criaderas. Depois de receber uma injeção de álcool vínico, para que se tornem fortificados, envelhecem em barricas (as soleras) preenchidas com apenas 5/6 de sua capacidade. Em cima delas, barricas mais jovens (criaderas) recebem vinhos igualmente mais jovens. Na hora do engarrafamento, é retirada a apenas uma parte da solera, volume que é reposto com líquido da criadera de cima, que é completa com líquido da que está mais ao alto, e assim por diante. Sobre o vinho adormecido, uma camada de levedura selvagem da região de Andaluzia, chamada de flor, limita a oxidação do Jerez. O que o faz mais fresco que outros fortificados.

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Oloroso: cor âmbar e notas de mel e frutas

(Quem explica essa história bonitinho, para qualquer dumb como eu entender, é a sommelier e chef Lis Cereja, no blog da Enoteca Saint VinSaint. Dá um pulo lá, mas espera que ainda não acabou por aqui.)

Chegam à mesa, em seguida, dois exemplares de Oloroso (R$ 408,35) e Palo Cortado (R$ 457,59), também vindos da Palomino, mas diferentões. Como recebem uma quantidade maior de álcool vínico, que “mata” a flor, oxidam pelo contato com o ar e ficam mais encorpados. São mais alcoólicos (17,5% contra os 15% dos anteriores), devem ser servidos a cerca de 18°C e neles vêm as notas adocidadas, de mel e frutas secas, e uma linda cor âmbar. Só que continuam secos. Dá até para arriscar uma carne vermelha, mas recomenda-se ainda emparelhá-los com as comidas do mar. Fortunato Bó não identifica grandes diferenças entre eles, tampouco bebe num glup, curte-os devagarinho com jamón.

Com os Brandy de Jerez, a noite continua tranquila e enfumaçada. Lembro dos filmes ambientados no século 19, em que qualquer assunto sério era discutido gravemente na biblioteca, com charutos e brandy. E o salto de complexidade (e de preço, nada é perfeito) entre o Fernando de Castilla Solera Reserva (R$ 127,88) e o Gran Reserva (R$ 297,50), agora percebo claramente nesse par, é bem largo. O primeiro, com 36,6% de álcool, é encantador, com sua cor riquíssima, que os espanhóis chamam de caoba, mas que pode ser traduzida como castanho-avermelhada (não me venham com acaju!).

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Lembra do Pedro Bó? Parabéns, isso é perspectiva histórica

Os brandy são destilados a partir de todos os Jerez anteriores, e novamente envelhecidos em tonéis de carvalho, para chegaram ao seu equilíbrio sedoso e às notas evidentes de frutas secas como ameixa e damasco, além de baunilha na boca. Você prova o Reserva e acha muitíssimo bacana. Mas no Gran Reserva, 40% de álcool, tudo isso “grita” de maneira mais vibrante, porém com elegância, a maciez é ainda mais envolvente. É a bebida clássica de quem fuma charutos, vai bem com chocolates e queijos duros como o parmesão. “Isso é meu!”, exalta a moça ao meu lado, fazendo gesto de “ninguém tasca”, protegendo as taças com as mãos. Dá para ter um caso de amor ciumento com uma garrafa dessas, juro.

“Tá. E o Amontillado? Contou aquela história toda, e aí?”

Fu-fu. Enganei vocês, mas sem motivo sinistro, só brincadeirinha. Embora a Fernando de Castilla produza Amontillado, Jesús não o levou à prova. Fiquei que nem Fortunato, com água na boca para prová-lo. Quem quiser me convidar, aceito. Mas que seja à luz do dia, em lugar público bem movimentado. E sem pá de pedreiro escondida sob a capa.

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Sherry Brandies Solera Gran Reserva e Solera Reserva: dá para pedi-los em namoro, numa boa

E OS DRINGUES?

Jesús Peláez nos pede uma dica de marketing. Como fazer com que os brasileiros adquiram o hábito de ter uma garrafa de Jerez ou de Brandy de Jerez sempre em casa, como se faz com o uísque ou outros fortificados mais difundidos, como o Porto? Sugiro que ele divulgue seus produtos entre os bons bartenders da praça, que certamente saberiam criar coquetéis especiais com essas bebidas e ajudariam a divulgar tanto o vinho quanto o destilado, despertando a vontade de conhecê-los melhor puros. Ele conta que na Feira de Sevilha o Jerez é consumido com refrigerante e gelo, maneira que não vê com muita empolgação, mas faz calor e bebe-se muito durante o festejo. Meu amigo parte para a prática. Pede ao bartender do Esch um Negroni que misture três partes iguais de brandy, Campari e vermute, deixando a vodca de lado. E fica bom!

Os vinhos das Bodegas Rey Fernando de Castilla são importados no Brasil pela Casa Flora.

Para saber mais sobre Edgar Allan Poe e suas relações com a bebida, leia o texto de L. Moffit Cecil aqui.

Para ler O Barril de Amontillado em português, vem aqui.

Sevillanas e a última cena da ópera em um ato The Cask of Amontillado, de Daniel Pinkham

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Créditos das imagens: Reproduçåo (Ilustração, Edgar Allan Poe e Pedro Bó), Facebook/Bodegas Fernando de Castilla (Barricas, Fino e Oloroso), Sergio Crusco (Sheery Brandies)

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