Vinhos da argentina Viñas Don Martin ouvem música clássica na bodega

Um empresário suíço que é fã de Malbec e um vinhateiro alemão que cuida de seus mostos com a música dos grandes mestres. Isso dá samba – e ótimos vinhos. Lá em Mendoza, na Argentina…

Por Sergio Crusco

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Cave das Viñas Don Martin, na região de Mendoza, Argentina

Felix Martin Altorfer nasceu na Suíça e, durante os períodos de férias, seu pai dava um pulo na França. Era fã dos vinhos vizinhos, especialmente os de Bordeaux. Voltava com o bagageiro cheio. “E os filhos tinham de ajudá-lo a tomar tudo aquilo”, ele conta. Vejam que chato.

Martin cresceu, tornou-se executivo de uma empresa multinacional, viveu anos em São Paulo, rodou o mundo e provou outros sabores. Hoje dá até uma esnobadinha em Bordeaux, nem acha a região tão sensacional assim. Prefere vinhos chilenos, espanhóis e portugueses. Mas o xodó de verdade, no duro, está na Argentina: a uva Malbec.

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Chardonnay 2016: frutado e leve na boca

Ao aposentar-se, não teve dúvidas do que faria logo em seguida: vinho. Mais precisamente Malbec, em Lujan de Cuyo, na região de Mendoza, a mil metros de altitude, solo e clima extremamente favoráveis para a casta. “Comprei 60 hectares de terra que não tinha nada de uva, apenas cebola e alho. Plantamos Malbec, Syrah, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Petit Verdot, Pinot Noir e Chardonnay”.

Agora ele é Don Martin, senhor das Viñas Don Martin, por supuesto. Seu carro-chefe é o Malbec, não há o que discutir, mas a vinícola, que tem como filosofia fazer pouco e bom vinho, expande seus estilos, como podemos provar com o novo Finca Altorfer Chardonnay 2016 servido durante nosso encontro. Tem aromas florais e frutados delicados, leve na boca, acidez de maçãs, muito fresco.

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Andreas Vollmer e Martin Altorfer durante almoço harmonizado com seus vinhos em São Paulo

Martin sorri ouvindo os elogios dos presentes ao seu vinho branco. Seguimos com um Finca Altorfer Malbec Rosé 2016 bem atraente, com presença bem viva de groselha no paladar. Já vou imaginando uma piscina e alguma fonte inacabável daquele vinho quando Martin interrompe o devaneio: “Sim, é muito bom para o verão. Mas, para o meu paladar, um pouco doce”…

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Fina Altorfer Malbec: boa expressão por preço justo

Fica feliz mesmo quando provamos o Finca Altorfer Malbec 2015 da linha de entrada da Don Martín, que descreve “como um vinho jovem, com pouca madeira elegante e fácil de beber”. Todos estes rótulos têm o preço sugerido de R$ 59 pela importadora e são vinhos com que você pode fazer sucesso no encontro do “cada um traz o seu” – sem quebrar o orçamento. O Finca Altorfer Malbec 2013 (R$ 75) da linha Premium da vinícola está alguns patamares acima, com mais tempo de madeira e caráter forte de frutas vermelhas como amoras e cerejas no paladar. É o preferido de Martin.

A coisa, porém, muda de figura quando provamos o último vinho do almoço. O Finca Altorfer Cuvée Spéciale 2014 (R$ 139) é um blend de Malbec, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot. Uma explosão de frutas maduras no paladar, macio e volumoso na boca, final longo. É aquele da ocasião especial, traz festa e sedução. Passa 12 meses em carvalho de primeiro uso e também é o preferido de Andreas Vollmer, enólogo, administrador e sucessor de Martin na vinícola. “Não se trata de um corte tradicional, em que três vinhos vinificados separadamente são misturados. As três uvas são maceradas juntas, o que provoca um enlace químico de aromas muito maior”.

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Cuvée Spéciale: explosão de frutas vermelhas

Música clássica, fases da lua e agricultura (quase) orgânica

Andreas divide a vida de vinhateiro com a função de cônsul da Alemanha em Mendoza. Nascido em uma família do vinho, produtora de Riesling no sudoeste alemão há 400 anos, explica um pouco da filosofia da vinícola que, a olhos céticos, pode parecer exótica. Música clássica é ouvida durante todo o processo de vinificação nas bodegas. Andreas acredita na teoria do cientista japonês Masaru Emoto, de que pensamentos e energias positivas podem ser transferidas para os líquidos, e assim os aromas dos vinhos podem ter seu desenvolvimento estimulado pelo som divinal de Schubert, Liszt ou Mozart.

Outro cuidado tomado nas Viñas San Martin é colher as uvas durante a fase de crescimento da lua – entre a nova e a cheia. “É quando tudo tem mais vitalidade na natureza”. E se a maturação resolver acontecer durante o período e que a lua mingua? “Não acontece. A cada ano conseguimos identificar o momento ideal para a colheita, seguindo o calendário lunar”, responde Andreas, com naturalidade. Também explica que faz todos os esforços para manter-se orgânico, embora as vinhas ainda não contem com essa certificação. Em todos os seus anos na Argentina, garante que apenas uma vez foi necessária a intervenção com defensivos químicos, para salvar a lavoura.

Os rótulos das Viñas Don Martin são importados para o Brasil pela Wine Lovers.

 

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Andreas Vollmer na cave das Viñas Don Martin

Um som pra você, uvinha!

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Créditos das imagens: Reprodução do site Viñas Don Martin (Fotos na Cave), Sergio Crusco (rótulos)

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