Nova carta de coquetéis do Riviera Bar promove a diversidade etílica

Há de tudo no novo cardápio de drinques do bar, criado por Kennedy Nascimento e sua equipe. Muitos tragos frutados e refrescantes, para quem é da leveza, e outros tantos encorpados e complexos, para quem quer meditar no sabor. No fim do post, algumas reminiscências do velho Riviera na década de 1980

Por Sergio Crusco

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Riviera, drinque de abacaxi e rum que é pura expressão tropical

Bacana estar ali na esquina da Paulista com a Consolação e, de novo, poder dizer: “Vamos dar um pulo ali no Riviera?”. Nada será como antes, porém. Agora o Riviera é trendy, garotas e garotos vestidos no último grito, como deve ter sido nos tempos de sua inauguração, em 1949. Tem decoração toda renovada (as linhas sinuosas de sua arquitetura cool são de nascença) e está longe de voltar a ser a salvação do boêmio sem dinheiro, como já foi. “Um pulo ali” hoje sai um tanto mais caro…

Mas quem gosta de bons drinques não pode deixar de conferir o trabalho da equipe do Riva, ainda mais em temporada de novidades. 14 receitas foram agregadas à carta do bar, agora bastante extensa, com mais de 50 itens. O bartender Kennedy Nascimento, responsável pela coquetelaria de todas as casas do Grupo Vegas, explica que quer oferecer variedade. “Quem visita a cidade quer conhecer o Riviera e, por isso, precisamos ter opções de perfis bem diferentes de paladar. Mas também é um bar com sua clientela fiel, bem paulistana. Há quem venha aqui toda semana e por isso é bom ter algo novo para sugerir”, diz Kennedy, com que já batemos um bom papo (confira aqui).

Dringue foi lá provar e adianta que há grandes emoções para quem é fã de coquetéis leves, refrescantes e frutados, uma tendência bastante clara nas barras paulistanas. O Riviera (R$ 25) é assim: leva rum Havana Club 3 anos com infusão de casca de abacaxi, cubos de abacaxi fresco, sumo de limão taiti e xarope de especiarias. Cítrico, com presença exuberante da fruta e com dulçor na medida certa, ele ainda vem com um toque de pimenta-da-jamaica, salpicada sobre uma fatia glaceada de abacaxi. Tornou-se imediatamente, segundo Kennedy, um dos mais pedidos da casa.

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Abaporu Fizz: leveza com gim, limão e creme de leite

O Abaporu Fizz (R$ 28) também tem pegada tropical. É feito com gim brasileiro Arapuru, limão, xarope de especiarias, creme de leite fresco, clara de ovo pasteurizada e gotinhas de água de flor de laranjeira. “Drinque com creme de leite… Ai, não sei, não”, talvez você pense. Mas ele é leve, muito elegante, predomina o limão. O creme e as claras entram para dar uma textura mais “fofa”, mas não espere algo pesado na boca, com consistência de milk shake. A coisa é fina.

O Eyes Opener (R$ 31), criado em 2013 por Kennedy, é a prova de que drinques amargos podem ter a cara do verão. Leva dois bitters de amarrar a língua: Campari e Fernet, mas que conversam perfeitamente com o limão, o néctar de agave e a ginger ale artesanal que compõe a maior parte do corpo do drinque. Bebe-se facilmente e a cor vermelha, em copo longo, dá aquele ar de sedução à cena.

Com dulçor, acidez e muito tempero, o Spice Samba (R$ 26) é outro que agrada os fãs de especiarias. Tem como base a Samba Nego, bebida composta de cachaça, caramelo, limão siciliano e erva doce. Numa taça coupe, ela é mesclada a mais limão fresco, o tal xarope aromático, clara de ovo e um toque especial para quem ama um frufru: o spray de bitter Angostura que finaliza o drinque forma o desenho do coqueirinho do logotipo do bar sobre a espuma.

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Eyes Opener: amargo, refrescante e sedutor

Aroma, muito mais aroma, você encontra no denso Extra Explosion (R$ 33), criado pelo bartender Sylas Rocha e mais recente vencedor do campeonato Juntos & Extraordinários, patrocinado pela marca de uísque Chivas. Leva o scotch envelhecido por 12 anos, xarope de camomila e o óleo saccharum de laranja, extraído das cascas das frutas com açúcar pelo processo de osmose. O perfume de tudo isso é exótico e adocicado. Parece mel, mas não é.

Quer saber dessa mixologia toda? Chegue cedo, arranje um bom lugar no balcão e converse com Sylas, residente da casa e um dos bartenders mais carismáticos da cidade. Enquanto rola o papo, eu, que não tenho planos de extração de óleos, provo o Perfect Cuban Manhattan (R$ 35), uma das receitas clássicas, mais ou menos conhecidas, que constam na seção de “novidades” da carta. É quase simples: um Manhattan preparado com rum Bacardi 8 anos, dois tipos de vermute (Carpano Classico e Noilly Prat), mais dois lances de Angostura. É profundo, complexo, meditativo. De se atracar com ele, beber demorado, dar uma filosofada. Nessa linha mais potente, outra boa pedida é o Martinez (R$ 35), com gim, vermute, licor Luxardo e Angostura. Um trago seco e amargo que merece a simpatia de quem, por exemplo, gosta de Negroni.

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Spice Samba: cachaça com especiarias e frufru na finalização

A segunda parte da casa, intitulada Clássicos do Riviera, mescla algumas receitas que, de fato, foram criadas para casa e outras que se transformaram em hit no balcão vermelho. Entre os autorais, permanece em destaque o Rê Bordosa (R$ 23), invenção de Kennedy com cachaça branca, jurubeba Leão do Norte e amaro de alcachofra Cynar – a pura expressão do drinque de boteco tratada com arte. Outros clássicos do balcão de fórmica estão ali, como a Maria Mole (brandy com vermute e Angostura, R$ 26) e o Rabo de Galo (cachaça branca, Cynar, vermute e bitter, R$ 24). Também nessa seção está o gringo New York Sour (R$ 28), com bourbon, limão e uma camada de vinho tinto no topo – o do Riviera é um dos melhores da cidade.

Adiante, teremos mais clássicos, incluindo uma seção dedicada ao Gim Tônica, com várias marcas do destilado e temperos e diferentes. Provar a carta toda exigirá longas e repetidas jornadas dos fiéis.

Vai lá: Riviera Bar e Restaurante, Avenida Paulista, 2584, tel.  (11) 3258-1268

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Perfect Cuban Manhattan: troque o bourbon por rum

O RIVA E EU

Ando meio Glória Maria em relação a certos assuntos e reminiscências. Há coisas que é melhor não contar: revelam a idade. Mas o fato é que os “pulos ali” no Riviera durante os anos 80, mais precisamente a segunda metade da década, foram muitos. Era a sala de estar dos boêmios. Se não houvesse o que fazer, se não se soubesse ao certo com quem encontrar, era dar um pulo, não especificamente no Riviera, mas em qualquer um dos outros bares que se espremiam perto da esquina da Consolação com a Paulista. Havia o Baguete e o Café Europa. (Ou foi o Café Europa que depois virou Baguete? Não lembro. Véio e gagá.) Havia sempre gente com quem conversar fiado, o pedaço fervia e cada filme que acabava em frente, no Belas Artes, despejava uma horda de cinéfilos no outro lado da avenida para um café ou um chope. A boate gay Nostro Mondo, bem pertinho dali, também bombava. As madrugadas eram loucas.

O Riviera, depois de ser o Vaticano da resistência cultural na época da ditadura, já vivia seus primeiros sinais de decadência e era visto por muitos como “coisa do passado”. Entre a turma moderna, que frequentava o Madame Satã (inclusive eu, que por uns meses posei de dark, só andava de preto e adorava o Morrissey), não pegava muito bem dizer que se ia ao Riva, como chamado pelos íntimos. Era lugar de gente freak, representava tudo o que os da vanguarda, com cabelos espetados e maquiagem à Siouxsie Sioux, se sentiam no dever de combater.

Só que eu adorava o Riva e não me intimidava com imposições tribais, tinha amigos em várias frentes de estilo, era bem promíscuo nesse sentido. E o lugar quebrava bons galhos em tempos de dureza. A porção de espaguete ao sugo era grande, alimentava duas pessoas a preço ridículo. O famoso sanduíche Royal (recriado de maneira chique no cardápio do novo Riviera) também era farto – uma bola de gordura empanada com ovo. Mas matava, e bem, a fome.

O chope era fuleiro, aguado e chocho. E dos destilados eu não tinha muita intimidade na época, a não ser quando alguém chegava na roda com uma cartela de Moderex, bomba de anfetamina geralmente engolida com vodca – a mais barata que houvesse. Tinha um maluco que sempre estava por lá e bolava planos para invadir o Instituto Médico Legal, também próximo, e afanar uns fármacos da pesada. Tentou me cooptar para a tarefa. Eu montaria guarda enquanto ele buscasse os éteres.

Era comum ouvir outro tipo de histórias dos antigos frequentadores, algumas de fazer chorar: gente sumida, que de uma hora para outra parava de aparecer por lá e, mais cedo ou mais tarde, vinha a notícia: “Fulano caiu”. O que queria dizer que havia sido pego pela polícia e quem sabe em que porão teria ido parar. Ou mesmo se ainda era vivo. “Chico não vinha muito aqui, essa história de dizer que ele estava sempre no Riviera é lenda. Elis só vi umas duas vezes. Era metida”, me contava um militante, certo de colocar personagens historicamente relacionadas ao Riva em seu devido lugar. Alguns desses boêmios eram bem zelosos do espírito de luta do bar.

Eu ouvia as histórias, no meio do burburinho também gostava de conversar horas sobre semântica e outras questões da linguagem com uma estudante de letras muito inteligente, de quem não lembro o nome, veja que pena. A maior parte das conversas, porém, era feita de pura bobagem. O Brasil vivia sua abertura política, a turma dali, que já havia dançado o miudinho e tomado uns safanões por ter desbundado ou feito coisa mais séria, suspirava um longo “ufa”. Já estávamos perto de votar para presidente e meio longe de imaginar que uma exposição de arte pudesse voltar a ser fechada por atentado ao pudor no país.

Enfim. As futricas amorosas eram mais divertidas. Mulher que pegou namorado com outra rodando a baiana e sendo aplaudida pelo bar inteiro, com assobios e gritos de “bravo!”, “olé!” Presenciei umas duas cenas dessas, eram emocionantes, a pura catarse rivieriana. E umas figuras tão malucas a ponto de fazer a seguinte proposta, a queima-roupa: “Me empresta seu marido hoje? Vai ser só um pouquinho. Você já tem ele o ano inteirinho, poxa. Deixa um pouquinho pra mim, just a little”. Por aí se tira a linha da história do Angeli, que se inspirou numa mulher fazendo xixi de pé, no mictório dos homens, para criar a Rê Bordosa.

De bebedeiras, também lembro, embora tudo isso merecesse estar no lixo do esquecimento. No auge de algumas delas, um amigo, que tinha bom relacionamento com a travesti dona da Nostro Mondo, a Condessa, e colocava todo mundo de graça lá dentro, vinha com essa: “Moçada, tá na hora de ir pra boatinha dançar La Isla Bonita. Quem vai?”. A coisa acabava não prestando.

A década acabou, o pedaço foi ficando cada vez mais mambembe, os bares fechando, o Riviera resistindo. A vida mudou, os amigos daquele tempo indo cada qual para o seu canto, os circuitos mais quentes eram outros. Passei pelo Riva algumas vezes ao longo desse tempo só para me entristecer com seu abandono. Não me espantei quando seu fechamento foi anunciado, em 2006. Mas lamentei.

Fiquei desconfiado quando se falou em revitalização do bar, em 2013, e juro que quase chorei quando vi que o salão do térreo não tinha mais mesas, só um grande balcão (a parte de cima, originalmente, era bem menor, um minúsculo lounge onde namorados se agarravam). Não sou dado a saudosismos, a vida é pra frente. Mas gosto um bocado de poder dizer novamente: “Olha o Riviera ali. Vamos dar um pulo?”

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