Tem água tônica orgânica, tradicional e rosé. Vai bem com vodca, gim e cachaça – tudo orgânico também

A marca Wewi lança as primeiras tônicas orgânicas brasileiras, perfeitas para serem misturadas aos destilados naturebas que já temos por aqui. Saiba disso tudo e também conheça a história de como o quinino peruano virou água tônica na Europa

Por Sergio Crusco

gim_tonica_rose_wewi
Drinque preparado no Pepino Bar com Wewi Rosé e frutas: cor bonitona

A turma natureba que pretende fazer a cabeça (elegantemente) e não abandonar suas convicções pode ficar um pouco mais feliz. A onda orgânica chega às taças dos coquetéis em produtos bem gostosos e recomendáveis. Já tem água tônica orgânica, tradicional e rosé. E destilados orgânicos também, para quem quer radicalizar e mixar drinques 100% corretos – ecologicamente e saborosamente.

As águas tônicas tradicional e rosé da Wewi, elaboradas pela empresa Wewish, foram apresentadas há alguns meses numa feira do setor de alimentação. O lançamento para o grande público aconteceu em festinha animada no Peppino Bar, São Paulo. São as novas filhas de uma família de refrigerantes bem conhecida entre o pessoal que prioriza a produção orgânica na mesa e no copo.

Elas são preparadas com quinino natural importado da Europa (nem todas as tônicas levam o ingrediente de verdade) e têm 20% menos açúcar que as marcas mais populares. Na Tônica Wewi tradicional, o amargor é bem marcado, porém elegante e equilibrado com o dulçor. A carbonatação é mais sutil do que a dos refrigerantes normais (uma característica de toda a linha Wewi), mas não deixa de estar presente e fazer cócegas na boca.

tonica_organica_wewi_edit
A Tônica Orgânica Wewi

O gim tônica clássico (provamos um preparado com o gim Bulldog), sem grandes perecotecos, apenas um gomo de limão siciliano para aromatizar, ficou extrarrefrescante, macio de beber, com amargor bem inserido e gosto de quero mais. O perfeito drinque-chupeta, que nos faz cantar Mamãe Eu Quero.

A Tônica Wewi Rosé talvez divida opiniões e cause chilique entre os puristas (sim, agora tem purista de água tônica também). Trata-se de uma bebida de amargor moderado (menos quinino, portanto) e o que dá seu tom rosado é uma leve adição de açaí. Segundo Rodrigo Campos, sócio da Wewi, ela foi pensada justamente para agradar o público que não curte ficar com a língua amarrada. Tem sabor mais frutado, dulçor um pouco mais evidente e boa percepção de acidez. É gostosa pura ou no coquetel, mas talvez seu grande apelo seja mesmo visual: a cor, na taça bojuda de gim tônica, fica chique!

Eduardo Castilho, sócio da marca responsável pelas alquimias dos produtos, admite que o lançamento das tônicas surfa na onda do gim tônica que lambe o país. “Mas elas vieram para ficar, pois são sabores adultos para quem quer um refrigerante saudável, mesmo sem ser misturado com  uma base de álcool”, diz. Adianta que mais dois sabores próprios para a coquetelaria serão lançados até dezembro, à base de frutas e raízes, mas faz segredo sobre a verdadeira identidade dos ingredientes.

O preço, que varia de R$ 6 a 7 nos mercados, também anima quem pretende fazer uma rodada de drinques tônicos em casa com um refri sumpimpa.

VODCA, GIM E CACHAÇA EM DRINQUES 100% ORGÂNICOS

vodca_tiiv
Tiiv Vodka: brasileira, suave e orgânica

Se quiser radicalizar na organicidade dos seus drinques, o Brasil já tem ingredientes suficientes para uma boa seção de tragos refrescantes, próprios para o calorão que já chegou (obrigado, Senhor!).

Vodca, gim ou cachaça – todos orgânicos e brasileiros – se prestam para o preparo de coquetéis tônicos. Que você pode aromatizar com especiarias, ervas e frutas (veja algumas dicas aqui). Gelo em abundância, tônicas, taças bonitonas, dia de luz, festa do sol e a alegria está garantida.

A Vodka Tiiv, feita a partir de álcool de cereais multidestilado, é uma opção bem leve e neutra para o preparo de uma Vodca Tônica com a cara do solão ou da noite tropical. Com a tônica tradicional, a aromatizada com um twist de casca de limão já é suficiente para um drinque perfeito. Com a rosé, experimente adicionar um pouquinho de frutas vermelhas, morangos, berries, groselha. Fica lindão na taça.

Mas escolha um ou dois ingredientes de cada vez. Não exagere nos temperos, tipo colocar “todo o hortifruti no tação”, como costuma dizer o bartender Rodolfo Bob, da escola O Bar Virtual, sobre a onda dos tônicos metidos a diferentões. As frutas, ervas e especiarias dão aquele toque sutil e charmoso de aroma, são um detalhe. Queremos, acima de tudo, sentir os sabores do gim e do quinino. Cada um sabe de si, mas ultrapassar essas medidas é como exagerar no perfume.

vitoria_regia_gim_edit
Vitòria Régia Gin

Entre os representantes nacionais de gim, o Vitória Régia é a opção orgânica, preparada com zimbro, sementes de coentro, cardamomo, limão e pimenta-da-jamaica. Qualquer desses ingredientes pode ser adicionado ao coquetel para evidenciar um pouco mais seu aroma. Se não vierem de fazendas orgânicas, essa pitada não representa um problema, pois para ter a certificação, é necessário de que 95% dos ingredientes de um produto sejam orgânico. Nosso Gim Tônica está dentro dessa margem, portanto.

Por fim, quem disse que cachaça não pode render bebidas longas e refrescantes? Se usar um exemplar sem passagem por madeira, as chances de frescor são ainda maiores. A Weber Haus Prata, produzida no Rio Grande do Sul, é uma cachaça de característica mais leve, portanto própria para drinques fáceis de beber como os tônicos. Isso já tem nome: Cachaça Tônica (ou Cachatonic, se quiser dar uma esnobada). É legal, vai na fé.

Com os outros sabores de Wewi – Guaraná, Laranja e Cola – dá para inventar outras modas. Quem sabe um Cuba Libre, um Hi Fi. Solte a imaginação…

BREVE HISTÓRIA DA ÁGUA TÔNICA

Cinchona_calisaya-2
Flor da cinchona

Dizem que foi a espanhola Ana de Osório, mulher de Luis Jerónimo Fernández de Cabrera Bobadilla Cerda y Mendoza (ufa…), conde de Chinchón, a primeira europeia a ser tratada com quinino, em meados do século 17. A Condessa de Chinchón teria vindo para as Américas acompanhar o marido, vice-rei do Peru, de onde a árvore de que se extrai o quinino é nativa. Hoje conhecida como Quinaquina ou Cinchona, cujo nome obviamente deriva do título da condessa.

Continua contando a lenda que Dona Chinchona acordou um dia com uns tremeliques estranhos, foi diagnosticada com malária. “Imagina eu morrer nesse fim de mundo”, deve ter pensado, metida a besta que devia ser uma condessa lá pelas bandas peruanas naqueles tempos. Mas teria aceitado a sugestão de tratar-se com aquela casca amarga e sagrada, moída em pó. Curou-se e voltou pimpona para a Espanha, levando uma pacoteira daquele milagre na bagagem. Quem conta tudo isso, em documento datado de 1663, é Sebastiano Bado, um médico italiano.

po_de_cinchona
Pó de cinchona: diz que Dona Ana de Osório voltou com uma pacoteira para a Espanha

Em 1930, a história bonitinha (mas ordinária) foi posta em xeque com a descoberta de que Ana de Osório teria morrido antes de seu marido ter sido nomeado vice-rei do Peru, de acordo com os escritos de um secretário do Conde de Chinchón. Talvez ela nem tivesse posto os pezinhos ao sul do Equador. Sebastiano talvez tivesse grande admiração pela figura de tão honrada dama (um fanboy daqueles idos). Ou ouviu o galo cantar não soube onde e tomou a história por verdadeira. Foi por causa da paia toda, porém, que o botânico sueco Carlos Lineu, no século 18, classificou toda a família das quinaquina no gênero Cinchona, em homenagem à nobre.

Joseph_Bienaimé_Caventou
Joseph Bienaimé Caventou, um dos bambas que isolaram o quinino e a estricnina

Em 1820, dois químicos franceses, Joseph Bienaimé Caventou e Pierre-Joseph Pelletier, conseguiram, com o uso de solventes, extrair o princípio ativo do quinino. Eram bambas: isolaram também a clorofila, a estricnina, a cafeína e outras substâncias animantes ou letais. E magnânimos: não se preocupavam em tirar patente dessas descobertas, deixando que outros laboratórios reproduzissem seus processos.

A substância amargona, útil para prevenir e combater a malária, virou modinha entre os soldados ingleses que serviam na Índia. Tudo bem, ninguém queria bater o queixo de febre-terçã, mas essa também era uma boa desculpa para misturar o quinino com água, limão, açúcar e – opa! – gim, mixando um drinque que pode ser considerado pai ou avô do clássico gim tônica. O risco estava eliminado e a cabeça, feita.

Peru, Bolívia e Colômbia, recém independentes, quiseram impor regras sobre a exportação da casca e das sementes da árvore andina. Mas se hoje a América do Sul não apita nada, imagina naquela época. E nem adiantaria criar sanções: a cultura da Cinchona já estava disseminada em vários locais, com destaque para a Indonésia, então colonizada pela Holanda.

Deu no que deu: o holandês criou a genebra, que deu origem ao gim, adotado como bebida nacional pela Inglaterra, depois de um conturbado período de bebedeira coletiva e produção caseira do destilado, no fim do século 18, conhecido como Gin Craze (do qual falaremos melhor em outra ocasião). E a coisa toda se juntou, parece que “oficialmente”, no final do século 19. A primeira marca de água tônica de que se tem notícia é a Schweppes, lançada em 1870 pela fábrica de origem suíça, porém agora sediada em Londres.

linha fever tree
Linha de tônicas e outros refrigerantes Fever Tree: campeões na preferência inglesa e alguns disponíveis no Brasil

Em 2015, um artigo do jornal britânico Daily Mail apontou a Tonic Water como o refrigerante que mais cresceu no mercado, cerca de 60%. Foi reação em cadeia: pequenos produtores artesanais de gim começaram a desafiar a grande indústria com receitas artesanais, de composição delicada, bem cuidadas na destilação e na seleção dos botânicos, onda que se estendeu pela Europa, obviamente também pela Holanda, terra-mãe do gim.

Jovens produtores de refrigerante se animaram com o novo mercado e começaram a criar tônicas e ginger ales mais suaves, aromáticas, com ingredientes bem escolhidos, naturais, orgânicos etc. Não apenas quinino, mas flores, frutas, ervas, raízes e outros borogodós aromáticos. A marca líder desse movimento é a Fever Tree, com uma vasta linha de sabores, que já chegou há quase um ano no Brasil e é coisa fina – se nunca provou, não perca a chance.

O interessante dessa história é que o crescimento da água tônica na Europa não se deu apenas pela via da coquetelaria. Muitos dos consumidores bebem o refrigerante puro, o que tem tudo a ver com a onda de buscar produtos mais honestos, sem conservantes artificiais, corantes, aditivos de sabor e outras pinoias da grande indústria.

tonicas_weWi

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s