O vinho branco uruguaio é o tal

Eles têm frescor extremo, acidez vibrante, mineralidade… São elegantes, aromáticos, gostosos e, de maneira geral, não pesam tanto no bolso. Saiba por que o Uruguai faz vinhos brancos tão bons e conheça alguns rótulos bacanas disponíveis no Brasil

Por Sergio Crusco

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Albariño, variedade de uva branca que está dando o que falar e originando bons vinhos no Uruguai

Faz algum tempo estive no Uruguai com a família, viagem que prometia uma sucessão de carnes opulentas acompanhadas de encorpados e aveludados Tannats, o que de fato aconteceu. Teve até noite de tango com vinho tinto, plena e típica turistice. Numa tarde dessas, porém, fomos conhecer o pequeno La Fonda, restaurante instalado no que fora o pátio de um casarão da velha Montevidéu. Orgânico, sazonal, do tipo em que o cardápio muda diariamente, de acordo com o que foi colhido ontem nas fazendas ali próximas, o La Fonda tem uma das comidas mais simples e deliciosas que já provei. A luz do dia banhava o lugar através da claraboia, era verão, a simpatia do chef Mario Mori e de seus auxiliares nos convidava ao sorriso, os aromas dos preparos e temperos que dançavam no ar nos chamavam à gula. Pedimos peixe, massa preparada na hora, cortada na faca, à vista do freguês, hortaliças reluzentes e crocantes.

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Cuna, o Chardonnay que acendeu a centelha: “Opa, nesse país o vinho branco é diferente!”

Um Tannat não ornaria com a leveza do momento. Que vinho branco escolher? Havia apenas uma opção na lousa, um Chardonnay da vinícola Los Cerros de San Juan (depois vim saber ser uma das mais antigas do país). Resignados ao “é o que temos para hoje”, pedimos que a garrafa fosse aberta. Uma surpresa feliz: acidez na medida certa, tabelada com as suaves notas florais e frutadas – frescor, muito frescor. Um vinho que enchia a boca de alegria, melhor coisa da vida: encontrar tanto prazer quando menos se espera. Voltamos ao La Fonda algumas vezes, bebemos de novo o Chardonnay e de lá para cá comecei a prestar certa atenção…

No Tannat Tasting Tour, grande degustação anual que o setor uruguaio de vinhos promove no Brasil, a uva tinta que simboliza o país é de fato a estrela – o nome do evento já diz. Não deixei de provar vários dos maravilhosos Tannats apresentados, mas aproveitei a oportunidade para molhar o bico com todos os brancos que pudesse. Conversei com alguns produtores e sommeliers e cheguei à conclusão, que não é a de um especialista, mas vale como dica para quem quiser tirar a prova: o vinho branco uruguaio é de fato especial.

Por quê? Não gosto de critérios competitivos tampouco de opiniões radicais sobre o que é bom ou ruim, mas há alguns motivos que fazem do país um lugar propício para a produção das castas brancas. Germán Bruzzone, gerente de enologia da Bodega Garzón, explica: “Nossos solos são pobres e compostos em sua maioria por granito meteorizado e areia. A topografia de suaves colinas nos permite aproveitar diferentes exposições ao sol em cada uma das cepas, o que, junto às brisas frescas do Atlântico, proporciona as condições mais apropriadas para uma correta maturação. O terreno da Garzón é responsável pela expressão mineral de nossos vinho brancos: frescos, elegantes e salinos”.

Embora Germán esteja falando especificamente do seu pedaço – o terroir da Garzón, próximo a Punta del Leste –, condições favoráveis para o cultivo de uvas brancas se repetem em outras regiões, sobretudo no sul do país, onde recebem marcada influência do mar e do Rio da Prata. A grande amplitude térmica (variação da temperatura entre dia e noite) também é benfazeja. “Essas características fazem com que variedades com ciclo de maturação curto (como é o caso da Sauvignon Blanc) se beneficiem e acabem oferecendo o frescor, a acidez e as notas cítricas tão buscadas nesse estilo de vinho”, escreveu em seu blog o sommelier uruguaio Daniel Arraspide.

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Cozinha do La Fonda, restaurante orgânico e sazonal na Cidade Velha, Montevidéu

O encantador Albariño da Bodega Garzón pode ser considerado uma estrela da nova geração de brancos do Uruguai. A casta originária da espanhola Galícia e da região dos Vinhos Verdes, ao norte de Portugal (onde leva o nome de Alvarinho), foi uma aposta certeira da vinícola. E também se adaptou bem à região brasileira da Campanha Gaúcha, colada ao país de Mujica, de onde vêm alguns bons exemplares. “Além do Albariño, estamos desenvolvendo com muito êxito vinhos de Sauvignon Blanc, Viognier, Pinot Grigio e Chardonnay, e seguimos investigando que outras variedades se adaptam ao nosso solo”, diz o enólogo da Garzón.

As boas notícias vindas lá do sul não estão restritas aos fãs dos vinhos brancos, uma vez que variedades tintas ainda pouco exploradas já se revelam bem acomodadas ao solo uruguaio (provei recentemente um exemplar da italianíssima Sangiovese, feito pela Viña Progreso e importado pela Vinci, que está um espetáculo). “Estamos trabalhando com cepas como Cabernet Franc, Marselan, Merlot, Petit Verdot e Pinot Noir e temos descoberto que as condições do nosso terroir permitem que alcancemos uma maturação perfeita das uvas, com máxima expressão varietal”, diz Germán Bruzzone.

Talvez daqui a algum tempo o Uruguai não seja reconhecido apenas pela qualidade do seu Tannat, o que é merecido. Mas por uma variedade bem mais instigante de estilos tintos e brancos.

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Albariño da Garzon, já bem famoso nas rodas

QUEM SÃO ELES (OU UM TOP TEN DOS BRANCOS URUGUAIOS BONS DE BICO)

De lá para cá, durante o Tannat Tour e em outras ocasiões, fui fazendo minha lista de vinhos brancos uruguaios que valem a prova. Sem a pretensão de ser completa ou definitiva, foi compilada ao sabor da gostosura de provar coisas novas. E descobrir que são boas.

Um dado interessante é que boa parte desses vinhos podem até ser considerados baratos em meio ao descalabro em que nos encontramos e pela qualidade que entregam: menos de 100 reais. São jovens em todos os sentidos, na idade e na novidade que representam para o grande público (não estamos falando dos sabidos e experientes degustadores). Enquanto não têm tanta fama, aproveite para dar uma de bacana e aparecer com um blanquito uruguayo na próxima festa. Vai abafar, pode crer.

Garzón Single Vineyard Albariño 2016, Bodega Garzón – É o tal Albariño pontuado e amado, com todos os toques frutados, mineirais e salinos descritos pelo enólogo da casa, além de um aroma intenso de flor branca. Por sua vinificação cuidadosa, pelo hype e pelos altos pontos que tem acumulado em várias avaliações, o preço não é proporcional à vontade de tê-lo cotidianamente, como gostaríamos: R$ 200,00 na World Wine (contrariando o que acabei de dizer no parágrafo acima). Talvez seja, porém, a pedida que vai impressionar a quem você mais quer agradar – e isso interessa um bocado. Mais em conta, o Garzón Reserva Albariño 2016 também entrega a boa expressão da casta em terras uruguaias: por R$ 106 na importadora, que ainda traz os brancos Sauvignon Blanc e Pinot Grigio (excelente) da mesma vinícola, ambos por R$ 72 (olha aí, já melhorou).

Bouza Albariño 2016, Bodega Bouza – Outro exemplar de Abariño uruguaio, com cítricos bem pronunciados, mas elegantemente tabelados com notas de frutas polpudas como pera e damasco. Por R$ 159,70 na Decanter.

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Chardonnay Pedregal, da Antigua Bodega Stagnari: delicadeza

Pedregal Chardonnay 2016, Antigua Bodega Stagnari – Fresco, elegante, delicado, é parecido com alguém que não é de falar muito, tem voz baixa, mas sempre vem com uma opinião inteligente quando abre a boca. Opinião ácida, uma das grandes qualidades desse vinho, equilibrada com toques de frutas tropicais como abacaxi. Garrafas da safra 2015 disponíveis por R$ 65 na loja Original Wine, especializada em orgânicos, naturais e biodinâmicos. Importado pela Mercovino.

Viña Salort Chardonnay Roble 2016, Familia Traversa – Este Chardonnay passa quatro meses em carvalho francês e vem com muita flor e frutas tropicais no nariz: abacaxi, melão, banana… uma boca cheia, com acidez presente, equilibrada, e um final longo. Belo vinho por R$ 59,90 na Adega Angeloni, sob importação exclusiva da rede de supermercados catarinense.

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Viognier, mais uma casta branca que se deu bem na área. Aqui, na versão da Viña Progreso

Don Pascual Reserve Viognier 2016, Establecimiento Juanicó – A Viognier, natural da região francesa do Rhône, origina vinhos bem aromáticos, com notas de damasco e frutas tropicais. Também volumosos na boca. Este exemplar mostra como a variedade adaptou-se bem ao solo uruguaio. Por R$ 78,90 na Todovino.

Viña Progreso Reserva Viognier 2014, Viña Progreso – Outro bom exemplo de Viognier uruguaio, dessa vez mais seco e cítrico, mas sem perder as características aromáticas da uva. Elaborado por Gabriel Pisano, enfant terrible da vinicultura uruguaia, é excelente opção para as tardes quentes ou para uma refeição com o melhor do mar à mesa. R$ 102,95 na Vinci.

Cisplatino Torrontés 2016, Vinos Pisano – Muitos aromas de especiarias, flor e mel, próprios da casta, comum na Argentina, mas que também começa a se dar bem no país vizinho. É um vinho feliz, que enche a boca de fruta madura em perfeito balanço com a acidez viva, típica de quase todos os rótulos que listamos aqui. No site da importadora Mistral, os vinhos da linha Cisplatino estão com preço gostoso, por volta dos R$ 65.

Cepas Nobles Sauvignon Blanc 2015, Bodegas Carrau – Muita fruta e flor no nariz, acidez viva e bastante frescor. Bem delicado e com notas minerais evidentes (como vários dos rótulos citados aqui), é aquele vinho perfeito para o piquenique primaveril. Por R$ 75 na Zahil.

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Marsanne da De Lucca

De Lucca Marsanne Reserva 2016, De Lucca – Pouco conhecida, a uva Marsanne, também natural do Rhône, gera vinhos brancos um pouco mais encorpados, de acidez tímida e de aroma complexo, com destaque para notas florais e de damasco. Na boca é gordo, volumoso, e de expressão frutada encantadora. Este exemplar uruguaio entrega tudo isso. Por R$ 86 na Wine Brasil. Importado pela Premium Wines.

Viñedo de Los Vientos Estival 2016, Viñedo de Los Vientos – Único corte da nossa seleção, este exemplar aponta para o futuro e mostra como podem ser versáteis os brancos uruguaios em suas assemblages, ainda raras. Ele mescla as castas Gewürztraminer (60%), Chardonnay (30%) e Moscato Bianco (10%). Flores, frutas amarelas, com destaque para abacaxi e maracujá, formam um corpo complexo na boca, em que convivem com harmonia o leve dulçor e a acidez. Por R$ 68, na Wine.com.br.

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Estival: corte de Gewürztraminer, Chardonnay e Moscato Bianco
  • Preços e disponibilidade pesquisados na data da postagem.

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