Hildegard von Bingen, a santa do lúpulo, é homenageada no Brasil com a Imperial Pilsener Hildegarda

Tito Bier e Cervejaria Dádiva, em colaboração, lançam uma Imperial Pilsener bem potente e amargosa. O novo rótulo é inspirado na abadessa alemã que relatou, no século 12, a propriedade conservante do lúpulo na cerveja

Por Sergio Crusco

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Hildegard von Bingen recebendo uma iluminação divina, em ilustração medieval

Quem já pesquisou a história dos ingredientes cervejeiros – mais especificamente o lúpulo – provavelmente topou com o nome da abadessa alemã Hildegard von Bingen, um dos luminares do conhecimento sobre a flor que dá amargor e aroma à cerveja, além de conservar a bebida. Como virou santa em 1584, é fácil imaginar que vez em quando se dê uma rezadinha para Hildegarda, para que a brassagem não desande ou sobre dinheiro e saúde para a próxima boa cerveja.

Hildegard, nascida em 1098 na Renânia, tem fama cervejeira merecidíssima, mas não é autora da primeira citação a respeito do lúpulo na elaboração de uma de nossas bebidas prediletas, como se diz à boca larga. A glória cabe a outro santo, Adelardo, que em 822, no monastério beneditino de Corbie, França, enumerava obrigações dos abades – uma delas fornecer um décimo do malte e do lúpulo colhido ao monge incumbido de fabricar a cerveja. Adelardo não deixa claro como o lúpulo era utilizado na fabricação de cerveja, mas chegou antes. De qualquer forma, não perca sua fé: reze para os dois santos.

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Santo Adelardo falou do lúpulo três séculos antes, na França, mas ninguém deu muita bola

Hildegard foi quem, pela primeira vez, explicitou a qualidade conservante do lúpulo para a cerveja, embora não fosse grande fã dos efeitos da planta no organismo. Em sua avaliação, o lúpulo deixava o cabra meio jururu, caidão. “Ele não é muito útil ao bem estar do homem, porque faz a melancolia crescer, deixa a alma do homem triste e faz pesar seus órgãos internos. Porém, como resultado de seu próprio amargor, evita certas putrefações das bebidas, às quais deve ser adicionado, e assim elas podem durar muito mais tempo”, escreveu na obra Physica Sacra, de cerca de 1150, em que descreve o uso medicinal e prático de várias espécies que pesquisou.

Se você ainda devota Hildegard como a mais lupulina de todas as santas, é bom saber que ela preferia uma cerveja mais levinha, feita à base de aveia, gruit e folhas de freixo. Na mesma obra ela dá a receita: “Se você também deseja fazer cerveja com aveia sem lúpulo, mas apenas com gruit, deve fervê-la depois de adicionar um número muito grande de folhas de freixo. Esse tipo de cerveja purga o estômago do bebedor e torna seu coração leve e alegre”.

Outro mito que envolve Hildegard von Bingen é o de que ela própria teria sido mestre-cervejeira. Adoraríamos ardentemente acreditar nisso, mas não há documento que prove a destreza da santa no comando das panelas de brassagem. O historiador da cerveja Martyn Cornell, no entanto, acredita sua obra deixa indícios suficientes de que ela manjava de longe a técnica de fazer cerveja com lúpulos e é de se supor que tenha de fato colocado a mão na massa em algum momento. Suposição com base em sua história de mulher curiosa e, naturalmente, perguntadeira.

Pioneira na cerveja, no feminismo,  na causa ecológica e na música

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O Homem Universal, visão de Hildegard retratada na obra Liber Divinorum Operum (Livro das Obras Divinas)

Uma história peculiar e avançada para a época, dada a posição inferior da mulher na Europa do século 12 e em séculos subsequentes. Como décimo rebento da família (na época tinha-se mais de uma dezena de filhos), Hildegard nasceu predestinada a ser confiada à igreja, como mandava a tradição. Aos 8 anos foi entregue aos cuidados de Jutta, mestra em um claustro de monjas no mosteiro beneditino de Disibodenberg, onde em 1114 fez seus votos definitivos e ingressou na ordem.

De pequena tinha visões e acreditava ouvir a voz divina. Viveu em relativa clausura até chegar à casa dos 40 anos, mas acredita-se que tenha desenvolvido seus conhecimentos de medicina e botânica atendendo a gestantes e doentes que acorriam ao mosteiro. Dizia não ter tido uma educação muito esmerada, mas a obra caudalosa que escreveria durante a segunda metade de sua vida (chegou aos 81) prova o contrário.

Em 1141, teve uma visão que a ordenou que escrevesse tudo o que ouvia. Era Ele, afinal, quem mandava aquela brasa. Pôs mãos à obra e seus escritos chegaram ao conhecimento do Papa Eugênio III, que deu aval ao seu pensamento teológico. A aprovação papal fez de Hildegard uma celebridade na Europa e, fato incomum para uma mulher da época, viajou por Alemanha e parte da França pregando a doutrina cristã em público – a única mulher na história medieval a fazê-lo. Em vida, sua obra foi aceita pelos teólogos da Universidade de Paris, então a mais respeitada instituição de ensino europeia. A essa altura, também atendendo ao chamado de uma visão, já havia criado seu próprio mosteiro, em Bingen am Rhein (daí a alcunha von Bingen).

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Riesencodex, volume que reúne toda a obra (inclusive a musical) de Hildegard. Começou a ser editado nos anos finais de vida da abadessa, por um de seus secretários. Pesa 15 quilos e é conservado na Bibliteca Estatal de Hesse

Sua obra extrapolou as questões de fé (como sabemos, chegou à cerveja) e envolveu teses e saberes que inspiram até hoje os movimentos feminista e ambiental. Não via o papel da mulher em seu tempo como satisfatório e foi a primeira a escrever sobre sexualidade e ginecologia, inclusive descrevendo o orgasmo feminino. Fez alegorias em que Deus era a figura de uma mãe amamentando a humanidade e a criação. Sua visão da medicina tinha caráter holístico, acreditava na união indissolúvel do homem com a natureza (não se formou médica, no entanto, pois o ensino era vetado para mulheres). Uma de suas profecias (fez várias) pregava que a profanação da natureza faria com que ela se voltasse contra o homem. Alguma relação com aquecimento global, efeito estufa e outras catástrofes modernas?

Foi biografada por dois monges com quem conviveu e essas obras ajudaram o processo de canonização, uma vez que lhe atribuíam milagres. Estudiosos atuais, porém, discutem a origem das visões de Hildegard. Uma turma acredita que se tratava de alucinações, causadas por uma espécie de neurose histérica, ou obra de uma terrível enxaqueca crônica. Há quem seja da tese de que Hildegard foi mesmo esperta: numa época em que não se ouvia a voz da mulher em nenhum assunto considerado sério, o prestígio de uma suposta revelação divina poderia abrir-lhe os ouvidos alheios.

Como se fosse pouca coisa, Hildegard von Bingen ainda compôs uma obra musical numerosa para coro feminino – evidentemente sacra, para ser cantada por freiras. Sua música ficou esquecida por séculos até 1979, quando ganhou as primeiras gravações. Lançado em 1982, o álbum A Feather On The Breath Of God, da soprano inglesa Emma Kirkby, virou hit e fez de Hildegard estrela pop. Hoje há dezenas de gravações disponíveis. E milhares de cervejas, mais ou menos lupuladas, para nosso prazer.

A HILDEGARDA BEM LUPULADA DA TITO BEER E DA DÁDIVA

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Hildegarda, a Imperial Pilsener porreta da Dádiva e da Tito Bier em tarde de estreia

Já tiveram a ideia antes, claro, inclusive no Brasil. Mas quem está fazendo barulho com a homenagem a Hildegard von Bingen em forma de cerveja é a Tito Bier, em colaboração com a Cervejaria Dádiva. Hildegarda, vendida em latas de 473 ml, é uma Imperial Pilsener com 8,1% de álcool e lupulagem carregada, com os tipos Saaz (tcheco) e Summer (australiano). Quem quer leveza de corpo, porém cabeça feita e amargor na língua, que se apegue à santinha. Uma cerveja de verão para os fortes.

A Tito Bier nasceu da união do designer gráfico Vini Marson e do fotógrafo Claus Lehman, que começaram, como tantos outros cervejeiros, a testar receitas numa garagem, em São Paulo. Os amigos pediram mais, a diversão virou negócio e eles recorreram à Cervejaria Dádiva, de Várzea Paulista, para a produção em larga escala de rótulos como a Red Ale Trotsky (o maior hit da casa), a IPA Marx, a Kölsch Goethe (nessa eu peguei amor), a APA Thoreau e a Stout Vera Rubin. Só gente prafrentex nas ideias e na práxis.

Outra cerveja em homenagem à santa é a Hildegard von Bingen, uma Weizenbier da cervejaria gaúcha Abadessa, especializada em estilos alemães. Outro rótulo que merece a prova, quando você estiver dando suas sapeadas cervejeiras pelo mundo (infelizmente, não é importado) é a Extra Special Bitter Naughty Hildegard (Hildegard Danadinha – ou Safadinha, se preferir), produzida pela canadense Driftwood Brewery e que conta com a respeitosa cotação de 98 pontos no Rate Beer.

Uma palinha do som celestial de Hildegard

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Créditos das Imagens: Sergio Crusco (Cerveja), Reprodução Internet (Demais Imagens)

 

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