O dia em que Londres viveu uma inundação de cerveja Porter – mas não foi legal

Cerca de um milhão e meio de litros de cerveja Porter formaram uma onda de mais de quatro metros de altura em Londres, no dia 17 de outubro de 1814. Oito pessoas morreram na tragédia que ficou conhecida como Beer Flood, mas a cervejaria foi quem se deu bem nessa história toda. Saiba o que aconteceu e, se quiser surfar na Porter, recomendamos alguns rótulos para fazer uma marolinha. Ou para quem quer enfiar a cara no doce…

Por Sergio Crusco

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A Horse Shoe Brewery, já rebatizada de Meux, fotografada em 1906, quase um século após o desastre

Imagine você na paz, num dia sem lá muita novidade quando, dando um rolezinho no bairro, sem mais nem menos, como por milagre, as ruas ficam inundadas de cerveja. Bora nadar de braçada nessa onda ou tentar armazenar o máximo que puder para guardar na geladeira? Bacana? Talvez nem tanto.

A cena aconteceu de verdade em Londres, no dia 17 de outubro de 1814, e suas consequências foram próprias de filme de terror. Os jornais da época reportaram a morte de 8 pessoas pela destruição causada por uma onda de cerveja de mais de 4 metros de altura, que lambeu as cercanias da Horse Shoe Brewery, em Tottenham Court Road, bairro de St. Giles.

Era moda, entre as cervejarias inglesas da época, competir para ver quem construía o maior tonel de madeira. Esses gigantescos recipientes de carvalho não apenas cumpriam a função primordial de armazenar a cerveja do estilo Porter, que ficava mais “passada” com algum tempo de maturação e era misturada a uma bebida mais jovem no momento do serviço, de acordo com o gosto do freguês, como explica o historiador cervejeiro Martyn Cornell. Eram também atração turística e símbolo de poder entre os empresários do ramo.

Henry Meux, proprietário da Horse Shoe, era um dos mais orgulhosos da magnitude dos dotes que podiam ser medidos pelo tamanho da tanoaria. Queria ser o maior produtor de Porter da Inglaterra (isso também queria dizer o maior do mundo). Em 1790, havia mandado construir um tonel de 23 pés de altura (pouco mais de 7 metros). Diz a lenda que serviu um jantar para 200 pessoas sentadas – dentro do tonel – só para dar aquela esnobada. Em 1795, o tonel seguinte tinha 25 pés (7,62 metros) e era capaz de armazenar 135 mil galões de cerveja (610 mil litros). Caberiam ainda mais pessoas para brindar lá dentro, mas não se tem registro no noticiário de outra festa promovida por Meux na barriga do tanque.

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Uma ilustração de 1847, da Barclay and Perkins Brewery, mostra como eram enormes os tanques de carvalho para a fermentação da cerveja na Inglaterra do século 19

Foi esse o tonel que estourou. Um dos anéis de metal não suportou o peso do líquido, rompeu-se, causando um grande estrondo, e a força da cerveja preta foi tratando de destruir outros tonéis menores. Calcula-se que 1 milhão 470 mil litros tenham sido derramados. Uma das paredes do depósito cedeu, a Porter ganhou as ruas desembestadamente, inundou porões, arrastou gente e matou outras, como a adolescente Eleanor Cooper, funcionária de um pub que também teve as estruturas abaladas pelo tsunami.

Um visitante americano anônimo disse ter presenciado o acidente. Andava tranquilo pela New Street, atrás da cervejaria, quando tudo aconteceu. Relatou suas lembranças 20 anos mais tarde: “De repente, vi-me levado com grande velocidade por uma torrente que explodiu sobre mim tão subitamente, quase tirando-me  a respiração. Um rugido, como a queda de edifícios à distância, e vapores sufocantes entravam pelos meus ouvidos e narinas. Fui resgatado com grande dificuldade pelas pessoas que imediatamente juntaram-se ao meu redor e de quem soube a natureza do desastre que me aconteceu”.

A Horse Shoe, que em 1878 teve seu nome mudado para Meux Brewery, existiu no local até 1921, quando a fábrica foi demolida e deu lugar ao Dominion Theatre, até hoje no local (a Meux continuou fabricando até 1966). O pedaço é especialmente querido por brasileiros comprões que vão a Londres, é bem a esquina da Tottenham Court Road com a Oxford Street, onde, dizem, estão algumas das melhores ofertas da cidade em tênis e eletrônicos.

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Ilustração do século 19 mostra a fachada da Horse Shoe Brewery

Na época, o bairro de St. Giles tinha fama nada prazenteira, era chamado de “rookery”, lugar onde viviam marginais, prostitutas e gente remediada em geral, pagando todo o pato das diferenças sociais. A palavra vem de “rook”, pássaro da família do corvo, que vive em bandos numerosos e ruidosos. As rookeries londrinas eram famosas pela falta de saneamento, pela alta densidade demográfica e pelo ar sombrio que emanavam, especialmente à noite.

Em Retratos Londrinos (Sketches by Boz, 1839), Charles Dickens faz a descrição de um desses lugares: “Casas miseráveis ​​com janelas quebradas, remendadas com panos e papel: cada quarto serve a uma família diferente e, em muitos casos, para duas ou até três … imundície por toda parte (…); garotas de quatorze ou quinze, com cabelos amarfalhados, andando sobre os pés descalços e em sobretudos brancos, quase sua única coberta; meninos de todas as idades, em casacos de todos os tamanhos ou sem abrigo; homens e mulheres, em toda variedade de roupas escassas e sujas, conversando, discutindo, bebendo, fumando, brigando, lutando e xingando”.

Embora houvesse grita a favor das famílias das vítimas, exigindo que a Horse Shoe Brewery indenizasse os prejudicados, quem levou a melhor foram os responsáveis pelo acidente. Curiosamente (ou como podemos constatar em repetidos casos, ao logo da história até os dias de hoje, nem tanto assim), o Parlamento Inglês decidiu liberar a fábrica do pagamento de impostos relativos à quantidade de cerveja perdida no acidente.

MAROLINHA DE PORTER

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Way Beer Avelã Porter: um clássico brasileiro do estilo

OK, ninguém aqui quer ver acontecer algo parecido com a inundação de cerveja londrina do começo do século 19. Mas é possível criar uma boa marola do estilo Porter com algumas opções disponíveis no mercado – tanto rótulos nacionais quanto importados.

De cor escura, do marrom ao negro intenso, com aromas remetendo a café, chocolate, caramelo, frutas passas, conjunto de características provenientes do malte tostado, a Porter é uma cerveja cremosa, robusta, especialmente recomendada para o inverno. De maneira geral, tem menos amargor e mais doçura (olhaí, formiguetes). Mas não precisa esperar o frio chegar para curti-la, com parcimônia, de uma das maneiras mais gostosas: acompanhando sobremesas, sobretudo tortas e brownies ultrachocolatosos. Ou um bolo tipo inglês, com muitas frutas secas. Com tiramisu, um show.

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Dádiva EAP Blueberry Imperial Porter: intensa

Para quem não é da doçura, vale experimentar as Porters com carnes defumadas e grelhadas em geral, queijos bem fortes (até mesmo o chulezento gorgonzola, o dulçor da cerveja dá um contraste interessante com a gordura e o salgado extremos), com guisados de carne em que a própria Porter faça parte do caldo (fica divino), com porco ou pato e com pratos superbritânicos como a torta de carneiro ou a torta de rins – pra quem tem coragem, é um delírio.

No quesito sobremesa, a Stout, subestilo ainda mais encorpado, originado da Porter, também se sai bem. De fato, são estilos tão parecidos que muita gente do meio cervejeiro até hoje discute o que é um e o que é outro. Para saber mais sobre, em textos bons e claros, dê um pulo nos blogs All Beers e Lupulinas. E vamos às cervejas!

Way Beer Avelã Porter – Produzida pela paranaense Way, ela já é uma clássica Porter brasileira. Por conter extrato de avelã, é especialmente indicada para harmonizar com tortas doces que contenham castanhas ou panetone. Sei, o Natal tá bem longe. Sim, combina com qualquer receita que tenha Nutella dentro, em cima ou embaixo, já que é tudo avelã. Se joga! Por 19,90 a garrafa de 600 ml no Clube do Malte. Teor alcoólico: 5,4%.

Dádiva EAP Blueberry Imperial Porter – O termo Imperial, em cerveja, quer dizer que alguma ou mais de uma das características marcantes do estilo (álcool, amargor, malte) estarão amplificadas, o que certamente resultará numa bebida mais intensa. Assim é essa Porter feita em parceria com o Empório Alto dos Pinheiros, de São Paulo, mas encontrável em outras boas casas do ramo. Tem adição de mirtilo, o que lhe confere uma sutil acidez. Os nibs de cacau acentuam o caráter de chocolate da receita. Por R$ 27,99 (preço prime) a lata de 473 ml na Cervejastore. Teor alcoólico: 10,3%.

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Founders Porter: para quem não abre mão do amargor

Founders Porter – A Founders é aquela cervejaria americana que ganha tudo quanto é nota alta nos sites de avaliação popular. No Ratebeer, esta Robust Porter (ou seja, uma bruta Porter) tem 100 na avaliação geral e 100 pelo estilo – nota máxima total. É bem aveludada, com notas de chocolate e caramelo gritando no aroma e no paladar. Também um tanto mais lupulada do que a média das Porters, para quem não abre mão do amargor. Por R$ 24,90  a garrafa de 355 ml no Clube do Malte. Teor alcoólico: 6,5%.

Anchor Porter – Se você é da turma que gosta de tudo menos amargo, esta outra Porter americana, produzida em San Francisco pela Anchor Brewing, pode ser seu xodó. Bem densa e cremosa, com bastante café, caramelo e chocolate na boca. Garrafa de 355 ml por R$ 24,99 na Beer Planet. Teor alcoólico: 5,6%.

Amazon Beer Cupulate Porter – Esta é, sem dúvida, a versão mais tropical criada até hoje de uma Porter. Produzida em Belém pela Amazon Beer (em colaboração com a Bodebrown e a De Bora Bier), ela tem cupulate (o “chocolate” feito da castanha do cupuaçu) na fórmula. Tem todas as características tradicionais do estilo – café, caramelo, torrado – mas com um aroma e um veludo a mais, próprios da adição exótica. Com sorvete ou creme de cupuaçu, fica escandalosa. Por 14,99 a garrafa de 355 ml na Beer Planet. Teor alcoólico: 5,9%.

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Essa imagem aparece repetidas vezes na internet como sendo original do século 19, época em que aconteceu o Beer Flood em Londres.  É ótima, mas não tem jeito nem estilo de ilustração daquela época…

Hammer Horror

*

Créditos das imagens: Reprodução Internet

2 comentários

  1. Caraca, Eu tenho um drink autoral bem legal que chamo de ” Hard port life ” em homenagem aos trabalhadores dos portos ingleses.
    Mas esse episódio narrado acima foi tão surreal que mudarei o nome do drink para ” surfando na poter “.
    Obg

    Curtido por 1 pessoa

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