A coquetelaria cheia de aromas e sabores de Pedro Furrer, bartender do MeGusta de Renata Vanzetto

Educado numa escola linha dura – pelos bartenders Alê D’Agostino e Spencer Jr. -, Pedro Furrer ganha a cidade com o trabalho autoral de mixologia no balcão do MeGusta, da chef Renata Vanzetto. Suas alquimias são surpreendentes e as bases artesanais que prepara para seus drinques, uma aula de personalidade

Por Sergio Crusco / Fotos dos drinques: Wellington Nemeth/Divulgação

Wellington Nemeth - Fotografo
Sip of Tart do MeGusta: uma pequena loucura com rum, balsâmico e outros perfumes, tem o perfil de paladar da cerveja belga Duchesse de Bourgogne

A chef Renata Vanzetto dominou um trechinho da rua Bela Cintra, perto da alameda Itu, em São Paulo, e transformou o pedaço em praia animada. Com o restaurante Ema, o bar MeGusta (ambos no mesmo imóvel) e mais a recente casa de lanches Matilda, o pedaço virou meio sucursalzinha de Ilhabela, Jurerê feelings… Só faltam a areia e a onda. Rasteirinhas, roupinhas da moda, pele bronzeada e pernas de fora nesse calor lindo que anda fazendo dão o tom à multidão que lota as duas casas e se espalha pela calçada, à espera de mesa e a fim de papo.

É de se imaginar que esse público queira drinques leves e refrescantes, sem grandes complicações. Essa é a verdade e o mixologista do MeGusta, Pedro Furrer, sabe agradar ao fã da coquetelaria ligeira, com alquimias cítricas e gasosas bem balanceadas, preparadas nas coqueteleiras Perlini, aquelas em que o gás carbônico – tch, tch – é injetado diretamente no drinque. O bebedor roots, porém, não terá do que reclamar. “Nossa carta tem predominância de coquetéis refrescantes e mais fáceis de paladar, porque esse é o clima da casa. Mas temos os clássicos, muito pedidos por quem os conhece e os aprecia, e aos poucos temos colocado drinques autorais mais complexos no cardápio”, ele explica.

Wellington Nemeth - Fotografo
Gim Tônica preparado com a base artesanal da casa: quinino, cítricos, cravo, pimenta, ervas…

Decido começar pela leveza. Na seção de tônicas, todas preparadas com uma base caseira e gaseificadas “ao vivo” no balcão, meus olhos param na opção Cachacyna (25), com cachaça Saliníssima Ouro e um toque de Cynar para puxar o amargor. A tônica de Pedro, definitivamente diferente de tudo o que você já provou, tem uma composição delicada: quinino natural (a tal da cinchona, sobre a qual já falamos aqui), limão rosa e outros cítricos, cravo, folha de limão, pimenta-da-jamaica e demais aromas. É bacana ver um coquetel brasileiro que desafia o lugar comum: um tônico feito de cachaça. Façam a experiência, crianças, porque dá samba. Há também uma seção da carta dedicadas a drinques refrescantes com a marvada, como o Catuaba Danada (R$ 25), com Saliníssima Ouro, creme de coco, vermute Noilly Prat, cítricos e catuaba caseira (preparada por Pedro com vinho, casca da árvore catuaba, marapuama e guaraná em pó).

Ainda na linha refrescante, Pedro sugere que eu prove o drinque que é seu xodó, Sip of Tart (R$ 41) e não entrega muito o jogo até que a receita esteja servida. O primeiro gole é revelador: com rum, redução de aceto balsâmico com amoras e amêndoas, cítricos e gás carbônico – tch, tch –, ele conseguiu um perfil de sabor muito próximo ao da cerveja belga Duchesse de Bourgogne, uma Red Flanders Ale exatamente conhecida pela acidez balsâmica. Tipo delírio, meu. “Essa receita foi bem pensada mesmo, minuciosamente, persegui o sabor da Duchesse até conseguir reproduzi-lo”, orgulha-se Pedro. “É um drinque complexo e, ao mesmo tempo, fácil de ser entendido e bebido”.

Wellington Nemeth - Fotografo
Maria Sangrenta: suco de tomate artesanal bem temperado, servido com vodca ou tequila

Pedro privilegia a coquetelaria com ingredientes preparados na casa – tônica, xaropes, infusões, sucos, sumos e outros perfumes. E acredita ser este um caminho sem volta, para quem faz e para quem bebe. “O público entende essa diferença fácil e rapidamente, basta provar um Blooody Mary com o suco de tomate que preparamos na cozinha”. Pudera, o suco de tomate da casa é enriquecido com molho inglês, pimenta jalapeño, bacon, manjericão e flor de sal. Vale quase como uma refeição e é apresentado no cardápio como Maria Sangrenta (R$ 32), tanto na versão tradicional, com vodca, como na tropical, com tequila.

Na linha dos drinques exclusivos, que aparecem na carta na categoria “para bebedores experientes” (o Sip of Tart é um deles), fico curioso com mais uma das maluquices propostas por Pedro: rum 8 anos infusionado com folhas de charuto Arturo Fuente Chateau. É a base de um coquetel no estilo Old Fashioned que ainda leva açúcar mascavo com baunilha (a da fava, de verdade) e bitters. Apelidado pelo bartender de Cigarro de Fidel (R$ 43), ele é potente, austero, complexo, introspectivo, a presença do tabaco causa uma certa adstringência na garganta. É de fazer a gente fincar o cotovelo no balcão e virar filósofo. Até destoa do clima festivo da casa, mas a ideia é essa mesmo.

me_gusta_pedro_furrer_bartender
Pedro no balcão do MeGusta: jeitão tranquilo

Há muito o que explorar no extensa carta de drinques do MeGusta – e tem as delícias de Renata Vanzetto também, assunto extra. Se estiver numa onda al mare, não deixe de provar os tacos de salmão ou a lula no molho picante de curry vermelho com tomate e leite de coco.  São perfeitos para acompanhar o frescor dos drinques. É bom ir com calma, chegar cedo para garantir lugar no balcão (se é do tipo que gosta de ver o balé das coquetelarias todas) e conversar com Pedro, um sujeito tranquilão que em nada tem o perfil que já ganhou nome por aí de “bartender estrelinha”. Até deveria ser um pouco mais audaz na autopromoção. Porque pode. É um dos profissionais de bar que certamente vale a pena acompanhar, volta e meia conferir o que anda fazendo, como se segue uma banda de rock.

Pedro foi educado no que se pode chamar de “linha dura” da coquetelaria, com dois mestres rigorosos. No Spot, trabalhou com Alê D’Agostino (hoje proprietário do Apotheke Cocktails & Co.) e absorveu toda a base clássica. Em seus tempos de Frank, no Hotel Maksoud Plaza, sob a batuta de Spencer Amereno Jr., aprendeu a vertente artesanal do ofício, o que lhe valeu uma distensão na mão, de tanto serrar barras de gelo. “Foi um aprendizado bem na marra mesmo, íamos madrugada adentro preparando as bases para o dia seguinte”, conta Pedro. Mas quem disse que não valeu?

Vai lá: MeGusta/Restaurante Ema – Rua Bela Cintra, 1551, tel. (12) 9.9236-6464. Confira dias e horários de funcionamento no site do Grupo Marakuthai.

Opa! Olha essa musiquinha aparecendo aqui de novo…

*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s