Nova carta de drinques do Ritz reverencia a coquetelaria clássica

Coquetéis tradicionais como Fitzgerald, Clover Leaf, Martinez e Moscow Mule passam a brilhar nas barras das três unidades do Ritz, bar inaugurado nos anos 80 que mantém-se fiel a seu estilo. De quebra, algumas reminiscências de quem bateu muito ponto por lá

Por Sergio Crusco / Fotos: Tadeu Brunelli/Divulgação

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Martinez: gim, vermute, maraschino e bitter

“É bom que ele esteja ali, sempre do mesmo jeito. É uma referência, um porto seguro para onde se pode voltar”, filosofou certo dia uma amiga, considerando-se razoavelmente segura por ter um bar predileto no seu rol de lugares tradicionais, o que hoje não quer dizer muita coisa. Referia-se ao Ritz, onde passamos algumas das noites da juventude. Não sei se exatamente as melhores (ah, o Madame Satã era bem mais divertido), mas com certeza algumas das boas – ou parte delas. O Ritz da Alameda Franca, decerto. Até hoje com a mesma cara, a mesma decoração e alguns clássicos no cardápio, como a torta de frango (que encolheu e gerou polêmica), o bolinho de arroz e os suculentos hambúrgueres.

Apesar de manter-se fiel ao estilo que lhe deu fama, o Ritz volta e meia apresenta novidades, mesmo que old school, como as receitas que acabam de ingressar na carta de coquetéis. A rigor, é uma carta “velha”, o que não é demérito, pois dela constam apenas clássicos. Bem executados (isso que interessa) – alguns à risca, outros com pequenos twists que não alteram as características originais dos drinques.

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Clover Leaf: doce-azedo e mimoso, com gim, framboesa e vermute branco

Entre os que já começaram a ser servidos nas três unidades do bar/restaurante está o Clover Leaf (R$ 30), coquetel mimoso, doce-azedo, que tem aparecido em várias outras cartas da cidade. Ele teria nascido na Filadélfia e há versões distintas, com xaropes de framboesa, romã ou groselha. O do Ritz tem gim, framboesa, cítricos, vermute branco seco, clara de ovo pasteurizada (o que dá a consistência “fofa” ao coquetel) e a regulamentar folhinha de hortelã para decorar.

O Fitzgerald (R$ 30), alquimia refrescante de gim, limão e bitter Angostura é outro coquetel que tem figurado em diversas cartas por aí. Tem sido redescoberto como o Martinez (R$30), com gim, vermute tinto, licor de maraschino e bitter. Outra “novidade” no Ritz é o Moscow Mule (R$ 25 nacional, R$ 30 importado), com vodca, limão siciliano, clara e espuma bem puxada no gengibre, para quem quer alguma picância na língua. Há ainda um drinque mais moderno, porém pouco conhecido, o refrescante Amarena Fizz (R$ 30), com gim, limão, club soda e xarope de amarena.

Dry Martini (R$ 32), Old Fashioned (R$ 32), Margarita (R$ 29), Cosmopolitan (R$ 25 e R$ 30), Negroni (R$ 32) e Manhattan (R$ 34) são outros clássicos disponíveis nas barras comandadas por Gabriel Bressane (Jardins), Ricardo Ribeiro (Itaim) e Diego Portella (Shopping Iguatemi). Os três bartenders reúnem-se constantemente para trocar ideias e discutir as receitas que merecem entrar na sucinta carta do restaurante.  “Estamos atentos aos pedidos do público e ao que acontece em bares que privilegiam a coquetelaria clássica, como o Boca de Ouro e o Apothek”, diz Gabriel.

O RITZ E EU

“Lá tem uma cerveja nova do Pará, a Cerpa, uma delícia!”

Assim me convidou outra amiga, toda por dentro dos últimos gritos, no passado bem passado (não vamos fazer contas, ok?). Não era preciso muito estímulo para me convencer: recém-chegado a São Paulo, tudo o que eu queria era novidade. Não lembro de ter guardado predileção especial pela Cerpa (na época eu ainda nem me ligava tanto em cerveja, nem a normal nem a especial). Mas o lugar seria o cenário de muitas noitadas dali em diante. Nem tão longas: fechava às duas da manhã, sem choro nem vela, embora insistíssemos, sem sucesso, em esticar seu horário.

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Fitzgerald: clássico que volta às bocas, com gim, limão e bitter

O Ritz foi o segundo bar que conheci na cidade. O primeiro foi o Riviera (do qual contei algumas lembranças aqui e onde as madrugadas avançavam). Havia diferenças fundamentais entre os dois. O Ritz era o lugar dos descolados, os publicitários, jornalistas de todos os cadernos, videomakers (havia uma inflação deles, que se reuniam basicamente em festivais e no Ritz), editores de moda, trend setters e tudo o que se podia considerar moderninho nos anos 80. Produtores de elenco de filmes publicitários, turma com a qual também andei, costumavam sofrer um pouquinho: há candidatos à fama em TODOS os lugares. Famosos de verdade e com diferentes graus de reconhecimento também apareciam, mas não eram importunados ou tratados como celebridade. Quer coisa mais jeca do que o deslumbre?

A cafonice, se existia, era disfarçada com verniz intelectual. Havia um crítico de cinema que gostava de aparecer com livros de temas densos, geralmente teoria da arte, aqueles cujo título já era indecifrável. Cada hora era um, que ele deixava sobre a mesa enquanto mordiscava seus bolinhos – para que todos pudessem constatar o quanto era displicentemente erudito. Era esse mais ou menos o povo do Ritz. Um povo de nariz empinado, que naturalmente rechaçava os bichos-grilos que habitavam o Riviera. Na época eram chamados de freaks (os bichos-grilos, coitados).

Eu, que nunca guardei fidelidade por qualquer tribo específica, me esgueirava pelos vários mundos da noite de São paulo (ainda tinha o Spazio Pirandello, sempre uma surpresa) e tentava aproveitar o melhor de tudo. Divertia-me bem. O Ritz era um dos vários lugares para “bater ponto”, aparecer por lá sozinho na certeza de encontrar alguém para conversar, comentar o último filme visto, o disco dos Cocteau Twins acabado de comprar ou bolar planos mirabolantes que jamais foram para frente.

A situação financeira do momento pouco importava. Com grana, comia-se e bebia-se (nas semanas de vacas gordas, uma refeição quase sempre acabava com o prato de frutas ao molho de baunilha – lembra, Lina?). Sem dinheiro, ficava-se na porta esquentando a cerveja, como se dizia, flertando, observando a fauna que entrava e saía. Havia quem nunca entrasse, preferisse ficar do lado de fora, como uma amiga que fiz lá e com quem tinha conversas que me pareciam bastante profundas, sobre como desvendar os sinais que o destino mandava. Ela dizia saber interpretá-los e tentava me explicar como era possível desenvolver o mesmo poder. Nunca aprendi.

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Amarena Fizz: coquetel autoral e refrescante dos bartenders do Ritz

Havia quem disfarçasse, em meio ao clima de pracinha que se formava na porta do bar, a espera pelo homem do perecoteco, se é que me entendem. Tudo era discretíssimo. No Ritz, lugar de bacana, não se via cena de Christiane F, ora essa. Ninguém saía de lá babando ou dando bandeira da brava – coisa comum de se acontecer no Riviera, esse sim, o território da Rê Bordosa.

Essa paz interiorana entre a gente cosmopolita que frequentava o Ritz (ou apenas sua calçada) era raramente quebrada. Lembro-me de uma noite, porém, em que cheguei pouco depois da “tragédia”. Grace Gianoukas, a atriz, na ocasião garçonete, estava pálida, olhão arregalado: “Menino, os carecas desceram a Augusta e chegaram aqui quebrando tudo. Os darks correram pra se esconder no banheiro. Um pandemônio!”

Tive minha fase dark, embora nunca tivesse morrido de amores pelo Robert Smith (mas de medo dos carecas do subúrbio eu morria, sim). Embora, no fundo, sempre preferisse a Sade, adotei a estética do cabelo espetado (quando ainda tinha cabelo) e por algum tempo mimetizei-me à “turma do pano preto”, como definia um amigo. Uma camisa de manga comprida de brim tingido à la graúna, com gola chinesa cujo colarinho eu fechava com um broxe de três pinguins enfileirados, no melhor estilo “mamãe, vim do brechó”, foi meu uniforme durante meses. O figurino funcionava bem em vários cantos: no Ritz, no Riviera e, principalmente, no Madame Satã. Era chique vestir-se em brechó, sobretudo se a peça fosse garimpada no Universo em Desfile. Fazíamos questão de dizer que era de lá, mesmo se não fosse.

Dos drinques, engraçado, não lembro bem. A não ser de um, azulão em copo longo, bem à moda da coquetelaria 80’s. Chamava-se Rêve Bleu e, claro, era preparado com aquela temeridade chamada Blue Curaçao (hoje, na internet, vejo que há um drinque com esse nome, à base de champanhe, mas o do Ritz não posso assegurar como era feito). Numa noite fui tomando, achando bonito, pedindo mais um… Basta dizer que os sonhos não foram azuis como o nome do drinque prometia.

As modas foram mudando (ainda bem que a de drinque azul passou) e também esse negócio de bater ponto num lugar, coisa tão da juventude, ficou para trás. O fôlego para sair de casa de segunda a segunda também acabou. Voltei ao Ritz mais esporadicamente nos anos que se seguiram, porém sem nunca deixar de ir. É bom voltar e saber que ele pouco mudou, concordando com a minha amiga. Mas nesse ponto sou tradicionalista: refiro-me ao Ritz da Franca. E beber um coquetel bem executado por lá – que não seja o Rêve Bleu – é um charme renovado.

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O Moscow Mule da casa não vem na canequinha de cobre e é bem puxado no gengibre

Vai lá: Confira endereços e horários de funcionamento das três unidades do Ritz no site oficial da casa.

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Sade X The Cure + Cocteau Twins

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