Chegam ao Brasil os vinhos em lata da marca australiana Barokes Wines

São vinhos simples e fáceis de beber, bons para abastecer as baladas, o piquenique e o cooler das férias na praia. A lata, ainda vista por muitos como abominação, é um envase bem prático para bebidas que devem ser consumidas jovens. Saiba mais sobre essa tendência

Por Sergio Crusco

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Latinhas da Barokes, agora no mercado brasileiro

Em rodas de profissionais, empresários e comunicadores do mundo do vinho, é recorrente o discurso e o (suposto) desejo de tornar a bebida mais acessível, menos cercada de nove horas, rapapés e protocolos. Uma abordagem menos empertigada aproximaria o público do vinho, geraria o hábito de consumo em gente não acostumada a bebê-lo e, naturalmente, impulsionaria as vendas, fortalecendo o mercado.

Para tirar um pouco do ar sisudo e levar o vinho a outros cenários, um jeito moderno e mais prático de apresentá-lo no mercado é o envasamento em lata. A ideia nem é nova, já foi posta em prática inclusive no Brasil. Decerto é uma das maneiras de desgourmetizar a bebida e fazer com que chegue a mais gente, se vendida a preço justo.

Quando aparece um vinho em lata importado da Austrália, porém, o que se vê é uma espécie de “Deus nos acuda”. Assim que os memes da Barokes Wines despontaram nas redes, há cerca de dois meses, com o slogan “menos regras, mais vinho”, pouca gente ainda os havia provado. Mas foram muitos os que condenaram peremptoriamente a empresa australiana e qualquer outro ser ou instituição que ousasse enlatar vinhos. Sem ao menos prová-los. No Facebook, claro, o paraíso da treta.

Vale comentar alguns comentários…

“Cadê o glamour disso? Não bebi e não gostei.” – Vinho é que nem roupa. Tem a bermuda e a camiseta ou o vestidinho e a sandália rasteirinha que você usa para ir até a esquina. Tem o traje de gala para as grandes noites. Tem o vinho que você vai beber num churrascão, calçando chinelos, sem um pingo de glamour, e a taça de Champanhe que vai coroar o pedido de casamento. Eu adoraria ter dinheiro para beber, todos os dias, os vinhos das grandes ocasiões – o que, no fim das contas, talvez os transformasse em vinhos corriqueiros.

“Perde o charme. O ritual de abrir a garrafa, colecionar rolhas, sei lá… Pra mim até suco na lata é suspeito… Imagina vinho!” – Perde, ué. Se alguém quer charme e sedução, abrir uma lata jamais será uma ideia genial. Mas o que faz da lata um envase suspeito? A lata é ótimo invólucro para vários tipos de bebida, principalmente a cerveja, pois a protege contra a luz e mantém seu frescor por mais tempo. Para vinhos jovens, que devem ser consumidos rapidamente (assim como a maioria das cervejas), também é excelente opção. Latas também são 100% recicláveis, mas esse é outro assunto. Vinhos de guarda, que vão evoluir por um longo (às vezes longuíssimo) tempo e precisam trocar, ainda que minimamente, oxigênio com o ambiente, continuarão sendo vedados com a tradicional rolha de cortiça. Ninguém vai ser maluco de envasar um grande vinho de guarda em lata. Se é esse o tipo de vinho cujas rolhas você coleciona, sei lá… Parabéns!

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Seleção de vinhos em lata americanos para degustação da revista Wine Enthusiast

“Mas o bacana do vinho é exatamente a forma como é armazenado, barril, garrafa escura, rolha etc.” – Sem dúvida, tudo isso é muito bacana. Mas nem todo o vinho passa por madeira, nem todo vinho vem em garrafa escura, nem todo vinho tem rolha. E, como dito acima, nem todo vinho é longevo. O screw cap (fecho de rosquinha, ideal para vinhos jovens) também foi amaldiçoado quando chegou ao mercado e hoje quase ninguém mais implica com ele. Em breve talvez as latas sejam vistas com mais condescendência.

“Opção para a molecada que vai pra balada. ‘Vamos beber um vinho, amor?’ Chega no balcão e pede uma latinha de vinho (Sangue de Boi)” – Ha ha ha ha! Sim, perfeito para a balada. “Para mim, que quase só bebo vinho, será a salvação encontrar uma latinha dessas na balada”, diz a jornalista especializada em vinhos e sommelière Tânia Nogueira, colunista da VIP. Eu, que já deixei de balada faz tempo, acredito que as latas sejam uma mão na roda para a praia, para o piquenique ou até para a trilha na mata. Também são perfeitos para abastecer bares e outros estabelecimentos mais informais que não tenham foco no vinho, mas queiram manter uma opção para esse público. Por fim, embalagem cômoda para ter em casa e abrir quando se quer apenas uma ou duas taças. Quanto ao Sangue de Boi, OK, vamos combinar que não. Mas taí uma ideia para a Vinícola Aurora: lançar vinhos brasileiros bons e bebíveis em lata. Com preço atrativo.

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Alguns vinhos da linha de espumantes Sofia, da Francis Ford Coppola Winery, tanto em garrafa quanto em lata

“Acho que não funciona.” – Desculpe, mas isso é apenas o que você acha. O mercado de vinhos em lata tem crescido especialmente em regiões do Novo Mundo, como os Estados Unidos, onde esse tipo de embalagem atrai o público jovem. Vinícolas sérias estão apostando nas latas, inclusive a do diretor de cinema Francis Ford Coppola, na Califórnia. No ano passado ele lançou Chardonnay, Pinot Grigio e Sauvignon Blanc em lata. Uma das linhas que mais preza, a dos espumantes Sofia, também teve dois de seus rótulos lançados em latinhas: o Blanc de Blancs e o Rosé Brut.  Sofia é o nome da filha de Coppola, também diretora, e ninguém põe o nome da filha num produto que considera fuleiro, a não ser um pai desnaturado. Pergunte também se não funcionou aos acionistas da Union Wine Company, do estado do Oregon, que desde 2013 mantém vários rótulos de sua linha Underwood disponíveis em lata.

E OS VINHOS DA BAROKES, QUE TAL?

Provamos e contamos um pouco sobre eles.

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Barokes Chardonnay Semillon: simples, rápido e gostoso

O Bubbly Chardonnay Semillon é um vinho frisante com aroma de flor branca e fruta tropical (abacaxi). Na boca é curto, tem uma certa mineralidade e, apesar de ser classificado como meio doce na rotulagem brasileira, esse dulçor é moderado. Para bebê-lo no meio do tuntz-tuntz, acreditem, é bem melhor do que certos espumantes estrangeiros doces de enjoar envasados em garrafa, com rolha de cortiça e marketeados como bebida “para balada”. Álcool: 13%.

O Bubbly Cabernet Shiraz Merlot tem um pouco de chocolate e ameixa no aroma, é delicado e refrescante na boca. Agradável, porém não muito mais do que isso. Para quem busca um vinho tinto frisante, coisa não muito comum de se ver por aí, é uma boa chance de matar a curiosidade. Álcool: 13%.

O Bubbly Rosé tem aromas de cereja e de panificação e, na boca, muito confeito – um certo gosto de bala Soft (quem é véio lembra). Enjoado, para o meu paladar. Porém, para quem quer uma bebida positivamente doce, pode ser uma boa pedida. Álcool: 6,5%.

O Bubbly Moscato foi uma surpresa para mim, que não sou lá muito fã do caráter naturalmente adocicado dessa uva. Esse dulçor, no entanto, está bem balanceado com a acidez e também aparecem, na boca, notas de pêssego e melão, além de um sutil toque herbáceo. Bacaninha, no duro. Para quem quer uma opção leve e de ótima drinkabilidade na balada ou na festinha, é pedida certa. Álcool: 6,5%.

As versões sem gaseificação do vinho tinto e do Chardonnay Semillon guardam características muito parecidas às dos frisantes.

Para quem quer uma visual mais charmosinho, ainda há a linha Lovers Wine, com latinhas de tinto, rosé e branco em forma de garrafa (pronto, tá resolvido o dilema). São, no entanto, de qualidade inferior aos demais vinhos da marca.

As latas de 250 ml custam cerca de R$ 17,50 e podem ser compradas diretamente do site da marca no Brasil.

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Os rótulos da Barokes Wines disponíveis no Brasil

Créditos das imagens: Reprodução Internet

 

2 comentários

  1. Sergio, ótima ideia colocar alguns dos comentários e poder contra-argumentar. Veja, por exemplo o texto http://divinoguia.com.br/vinho-em-lata-com-a-marca-ciao-chega-trazendo-novo-conceito/ e também http://divinoguia.com.br/vinhos-em-latas-voce-tem-preconceito/ são textos de muitos anos atrás. Parabéns pelo seu modo de expor ideias e conteúdo primoroso. Pena que eu ainda não tenha degustados estas latinhas e possa também externar a minha opinião sobre elas. Em tempo, Sangue de Boi, hoje não é mais aquele vinho de outrora que muitos ainda execram…

    Curtido por 1 pessoa

    • Querido Álvaro, obrigado pelos comentários! Adoraria ter mais boas opções de latinhas no mercado. Acho bem prático, sobretudo na hora em que queremos uma ou duas taças. Quanto ao Sangue de Boi, devo confessar que faz tempo que não provo. Vou prová-lo novamente e ver se acabo com esse meu preconceito, ha ha ha… Abraços!

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