Riviera comemora 70 anos com 7 drinques de Marco De la Roche

Com espírito bem democrático, os novos coquetéis do bar da esquina da Paulista com a Consolação agradam vários tipos de bebedores. A quem quer festa com um trago refrescante e a quem prefere a austeridade etílica

Por Sergio Crusco / Fotos: Elvis Fernandes/Divulgação

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Fachada do Riviera, fundado em 1949

Encorpado, alcoólico, amargo. Leve, refrescante, cítrico. Doce, floral, aromático. Qual a sua preferência na hora de pedir um coquetel? A nova carta do Riviera Bar possibilita todas essas sensações. Há drinques austeros para quem quer beber demoradamente no balcão e receitas mais fáceis para os que lá vão a fim de festa.

Festa, aliás, é a palavra certa para definir a nova fase do Riva, que antecipa as comemorações de 70 anos (foi fundado em 1949) e entra em nova fase, sob direção exclusiva do empresário José Victor Oliva e a presença do bartender Marco De la Roche como chefe de bar e autor da coleção de 7 coquetéis inspirados nessas últimas décadas.

Marco De La Rocha
Marco De la Roche no balcão vermelho do Riviera

Algumas receitas de sucesso, criadas em outras gestões do bar por Kennedy Nascimento, continuam no cardápio, como a pauleirinha Rê Bordosa (cachaça, Cynar e jurubeba) e o Eyes Opener (Campari, Fernet, limão taiti, maple, gengibre e água com gás), um drinque de muita personalidade que une o amargo ao refrescante e é xodó de muitos frequentadores.

Se você não é lá muito fã de novidades mixológicas, o bar ainda conta com uma seção de clássicos (Fitzgerald, Daiquiri, Vieux Carré. New York Sour, Negroni, Caipirinha…) que pode muito bem extrapolar o que está listado na carta. “A equipe está treinada para executar mais de 100 coquetéis clássicos”, diz Marco, editor do site Mixology News.

Para conceituar os novos drinques (todos ao preço de R$ 32), além da diversidade, Marco preferiu dialogar mais com o consumidor corriqueiro de coquetelaria e menos com o connoisseur. “Aqueles clientes que conhecem coquetelaria como poucos e sabem beber estão muito bem servidos com os clássicos. Mas quero trabalhar para um público mais abrangente: o Riviera é uma casa grande e é preciso deixar muita gente contente ao aqui dentro”, diz.

No bar histórico da Paulista com a Consolação já fui muito contente e um tanto Rê Bordoso, como contei numa crônica escrita aqui no Dringue. Continuo sendo (os dois), embora o Riva de hoje tenha muito pouco a ver com o de sua encarnação anterior. Como não sou dado a saudosismos, é bola pra frente. Hora de conhecer os novos drinques da casa.

Riviera Bar
Chez Sois: complexidade e pancada alcoólica, apesar do ar inocente

1950 O Riviera começou como uma casa de chá, onde madames faziam hora antes de seu compromisso num famoso salão de beleza da época, instalado numa galeria que não existe mais, na Rua da Consolação. Marco de La Roche interpretou a história num drinque de sabores frutados e delicado na boca, porém consideravelmente alcoólico, apesar da aparência mimosa. “É uma contradição que tem a ver com a hipocrisia da elite paulistana. É um drinque forte, servido numa taça de porcelana inglesa. Um pot-pourri da cafonice da época”, diz Marco. O Chez Sois tem gim Hendrick’s infusionado com damasco e amêndoa, Jerez Fino, licor de elderflower St. Germain, vinho rosé, elixir de Chartreuse e grapefruit. Recomenda-se bebê-lo vagarosamente.

Riviera Bar
Alegria, Alegria: tiki brasileiro com inspiração tropicalista

1960 Nos anos 60 o Riviera deixa de ser um lugar esnobe para virar bar da galera, onde estacionavam cineastas, músicos, atores, jornalistas, universitários, toda a malucália de então. O povo da esquerda, enfim, que seguiria fiel ao bar até quase seu fechamento em 2006. Marco traduziu esse clima no coquetel Alegria, Alegria, alusão direta ao sucesso de Caetano Veloso, lançado no festival de música popular da TV Record em 1967. “É uma interpretação bem brasileira do estilo tiki”, ele diz. Cachaças Leblon e Cambusanto (com cambuci), Pernod, riva mix (o toque de especiarias da casa: pimenta, cravo, canela, cardamomo etc.), shrub de caju preparado com vinagre, cítricos e mel. Na boca, ele “explode colorido”, como diz outra música de Caetano, com as sensações de dulçor, acidez, fruta, um leve avinagrado… Evolui a cada gole.

Riviera Bar
Josefel Zanatás: profundo, encorpado, amargo e amadeirado

1970 Não curti lá muito a inspiração, embora coerentemente histórica, que Marco teve para o drinque anos 70: os porões da ditadura. Foi a época em que muitos habitantes do Riviera sumiam de uma hora para outra, para o xadrez, para o exílio ou para a morte – nem é bom lembrar ou pensar que há quem queira revival desses tempos. Mas devo dizer que Josefel Zanatás (nome de batismo de José Mojica Marins, o fúnebre Zé do Caixão) foi o drinque de que mais gostei, com bourbon, tequila, vermute Carpano Classico, Fernet, Cynar, Angostura e uma solução marinha feita com algas kombu, o que dá a nota salgado do trago. Há bastante amargor, evidentemente, algum dulçor vindo do vermute, o amadeirado do bourbon e, claro, muito álcool. Um coquetel profundo e encorpado, Também feito para beber devagarinho, com o cotovelo enfiado no balcão. Um drinque solitário, para quem não quer muito papo.

Riviera Bar
Tedius Matrimonius: cores dos anos 80, sabor leve e festivo

1980 Os anos 80, época em que eu pintei e bordei um bocadinho no Riviera, são representados por um drinque colorido, com que Marco faz alusão ao neon, tão em moda na época, ao filme Cocktail, estrelado por Tom Cruise, e à personagem Rê Bordosa, criada por Angeli com inspiração nas maluquetes que circulavam pelo local. O barato do Tedius Matrimonius (causa mortis da Rê) é a sua mudança de cor – do azul para o rosa – com a injeção da porçãozinha de ácido cítrico que vem numa pipeta de plástico. Tem gim YVY Mar, Cointreau, maraschino, infusão da flor clitoria (que dá a cor louca) e lichia. Lembrou-me as roupas chocantes em verde limão ou rosa shocking da new wave, que também usei… (opa, pula essa parte). Um drinque fácil, leve, festivo e divertido que certamente faria sucesso nas pistas do Rose Bombom, do Anny 44 ou do Madame Satã, parangolés daquele tempo.

O Rei do Café - créditos Elvis Fernandes
O Rei do Café: forte, intenso e ao mesmo tempo refrescante

1990 Marco faz uma homenagem mais institucional, vamos dizer assim, à cidade com o coquetel O Rei do Café. Os anos 90 marcam a consolidação do Brasil como maior exportador mundial de café. Também foi a época em que as cafeterias e o hábito do espresso ganharam São Paulo. A presença italiana na capital está no mix de inspirações. O drinque leva rum jamaicano Appleton State, Amaro Lucano, licor Chartreuse, Nespresso, xarope 1883 de orgeat (amêndoas com flor de laranjeira), abacaxi e limões. É servido num copo alto, imponente, e equilibra notas doces, cítricas e amargas. Tem pinta de harmonizar com doces e Marco sugere o tiramisù, sobremesa italiana presente no cardápio do Riviera.

Riviera Bar
Riviera Delivery: brincadeira com jambu, energético e vodca

2000 Na entrada do milênio, o Riviera ficou fechado de 2006 a 2013. Foi quando pegou a modinha do destilado com energético e a expressão balada deixou de significar música lenta para virar sinônimo de festinha tuntz-tuntz. Eu mesmo tomei uiscão com energético pela primeira vez numa balada, sob patrocínio de Red Bull e com Sandra Bullock na festa, tá? (Ela veio à cidade divulgar um daqueles speeds…). Marco tomou uma decisão ousada em criar um drinque mais elaborado com energético e juntar essa ideia ao novo hábito paulistano de pedir tudo por delivery. Por fim, a descoberta dos ingredientes amazônicos entra na mistura com um toque de jambu. O Riviera Delivery é servido numa caixinha de papelão com folhagens em volta e aroma de musgo. Leva vodca, extrato de jambu, capim santo, limão siciliano, Zulu Bitters e Red Bull Tropical.

Riviera Bar
Composição II: cor, forma e modernidade no copo longo

2010 Composição II fecha a coleção e, segundo Marco, aponta para o futuro da coquetelaria. Assim como a obra de Piet Mondrian era difícil de ser catalogada quando rompeu com tudo nos anos 1930, este coquetel carece de categoria. “Ele não é um collins, não é um spritz, não é um sour”, diz o bartender. Tem gim YVY Mar, vermutes, rooibos (chá vermelho sul-africano), sumagre (pólen ácido asiático), ruibarbo, limão siciliano, beterraba e espumante brut. Servido com um gelo comprido que se estende por toda a altura do copo longo (e com uma florzinha no topo), é um drinque com muito frescor, traz acidez, as notas florais das infusões e dos vermutes e o poder colorido e adocicado da beterraba. Recebe uma dose de gás na hora do serviço, com a maquininha de carbonatação Preshh, produto made in Brazil. Opção bem elegante para as noites quentes.

Vai lá: Riviera, Avenida Paulista, 2584, tels. (11) 3258-1268  e (11) 97360-7672. De segunda a quarta, das 18h à 0h, quinta a sábado, das 18h às 3h.

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