Museu da Manguaça Vol. 1 – Um Bar no Folies Bergère, de Édouard Manet, 1882

Un Bar aux Folies Bergère é uma obra enigmática que suscita discussões filosóficas, sociais, óticas e outras tantas até hoje. Para quem gosta de beber, mais uma questão: que garrafas aparecem no bar? 

Por Sergio Crusco

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Un Bar aux Folies Bergère, de Édouard Manet, olho sobre tela, 90 X 130 cm, pertence à coleção do Courtauld Institute of Art, da Universidade de Londres

Quando eu era criança havia lá em casa os Gênios da Pintura, coleção comprada em banca com um fascículo para cada mestre. Passava horas folheando os volumes (ainda lembro o cheiro daquele papel grosso e brilhoso) e acredito que, se não foram capazes de provocar um aprofundamento no estudo da arte, ao menos deram a noção de história e liberdade estética, de como o artista podia se expressar de formas tão distintas – de um Canaletto todo arrumadinho (eu achava incrível, parecia fotografia) a um Picasso olhudo e descabelado. Como sou da teoria e da esperança de ver a cultura socializada, acho que cada casa deveria ter uma coleção desse tipo. Mas se até médico já se dão ao luxo de achar dispensável – enfim, esse é outro assunto…

Uma das imagens que me intrigava nos Gênios, capaz de me absorver por um tempo mais longo, era a moça retratada em Um Bar no Folies Bergère, de Édouard Manet. Eu encarava seu carão por um bom tempo, imaginando que ela estivesse rigorosamente olhando para o nada, enquanto todo aquele fuzuê rolava ao redor. Tipo a desligada que a gente precisa dar do mundo de vez em quando. Eu, desplugadão por natureza e tido a devaneios, tinha um certo xodó pela loura de cabelos presos e flores no decote.

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Cartaz do Folies Bergère anunciando o velocipedista Léonati e o equilibrista Dalvini. A impressão foi feita na litografia do ilustrador Jules Chéret, um dos criadores da arte do cartaz publicitário

Mais tarde, já crescidinho, descobri que sua expressão – e muitos outros detalhes do quadro pintado em 1882 – foram motivo de treta e especulação entre estudiosos da arte. De tanto olhar nos olhos da moça, eu passava batido pelo grande enigma da obra: o homem que aparece refletido no espelho atrás do bar, no canto direito da tela.

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Quem será que veio hoje, hein?

O Folies Bergère foi (ainda é) um grande centro de diversão noturna inaugurado em Paris no século 19, mais precisamente em 1869, sob o nome de Folies Trévise, por estar situado entre as ruas Richer e Trévise. Era o Instagram da Belle Époque: quem quisesse ser visto tinha de dar pinta por lá, pedir uns champanhes para mostrar que estava com a bola toda. A mulher que aparece usando binóculos no meio da plateia, querendo ser vista e querendo ver quem veio, simboliza esse afã. Ela não mira o espetáculo (um show aéreo, vemos os pezinhos da trapezista no canto superior esquerdo da tela), que podia incluir malabarismos, números com animais, operetas, pantomima, balé clássico, danças exóticas e da moda. O lugar virou Bergère três anos depois, a pedido do Duque de Trévise, que não andava muito contente por ver seu nome ganhar bocas de matildes às custas de um mafuá que, embora chique, continuava sendo um mafuá.

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Fachada do Folies Bergère em 1880, data bem próxima à criação do quadro de Manet. Hoje a casa de espetáculos tem a frente totalmente diferente, remodelada em estilo art déco nos anos 1930

Manet, assim como vários artistas do período impressionista na França, gostava do sambalanço do Folies Bergère, fazia amizade com as moças que serviam manguaça nos bares da casa e costumavam oferecer outro tipo de regalo em troca de dinheiro. O escritor Guy de Maupassant referiu-se às bartenders do Folies como “vendedoras de bebidas e de amor”. Suzon, retratada na tela, privava de amizade com Manet, tanto que se dispôs a posar no ateliê do artista. O pintor fez os primeiros estudos da tela no local, mas preferiu construí-la no ambiente controlado do estúdio, já vamos saber por que.

Num primeiro momento imaginei que sua expressão enigmática (embora não tão misteriosa quanto a da Gioconda) transpirasse um tédio cavalar. É curioso notar que, na imagem refletida no espelho, quando vemos as costas de Suzon, ela parece interagir com o cavalheiro de cartola, com quem conversa ou a quem apenas empresta os ouvidos. Sua máscara impassível (“insondável”, no dizer do autor britânico Philip Pullman) é a de quem já ouviu milhares de vezes os mesmos maçantes galanteios ou propostas indecentes e, em meio à balbúrdia do lugar, já tivesse a paciência na lua. Se o camarada estivesse pedindo qualquer favor (sexo, admiração, conversa fiada), podia ter certeza de que estava batendo na porta errada. Essa foi a minha impressão e a de muita gente durante um tempo.

MOTIVO DE CHACOTA
bar at folies bergere stop

Já em 1882, quando foi exposto, Um Bar no Folies Bergère virou piada. O cartunista Stop, do satírico Journal Amusant redesenhou a tela e legendou: “Um espelho reflete as costas da moça, mas sem dúvida, por uma momentânea distração do pintor, o cavalheiro com quem ela conversa e cuja imagem podemos ver no espelho não está na pintura. Acreditamos que é nosso dever corrigir esta omissão”.

Se você olhar bem, porém, vai achar estranha a posição do homem de cartola. Sua imagem refletida no espelho está bem em frente da bartender e, sendo assim, por que ele não aparece de costas na pintura de Manet? Onde ele foi parar? Sua presença parece vir do nada… Havia fantasmas de fraque no Folies Bergère? A dúvida (ou a certeza) de que o pintor cometeu um big erro de perspectiva alimentou discussões durante pouco mais de um século. Até que alguém teve a ideia óbvia: reconstruir o cenário da tela e ver se a coisa toda se encaixava.

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Reconstituição fotográfica de Um Bar no Folies Bergère por Malcolm Park, onde tudo se encaixa: perceba que o fotógrafo, refletido no canto direito, assume o ponto de vista de Manet ao pintar a tela

Encaixou-se. Segundo o diagrama proposto pelo historiador de arte australiano Malcolm Park em 2000, comprovado por uma foto produzida em estúdio, o que vemos na tela de Manet é um truque ótico. Posicionado à direita da cena, montada em seu ateliê, ele pinta Suzon, que parece estar exatamente alinhada ao balcão, mas na verdade está um pouco de ladinho, olhando na direção do artista. O homem de cartola está fora do campo de visão de Manet (ou melhor, fora do enquadramento proposto na tela), mas aparece refletido no espelho atrás do balcão e, na realidade, também está de ladinho, só que olhando para outro lado. A imagem refletida é que nos faz ter a impressão de que se olham de frente. Ou seja, não estão nem aí um para o outro. Ela tá pensando na morte da bezerra e ele, sei lá, decidindo o que vai beber ou impaciente com aquela bartender pra lá de distraída. (Ou tentando dar bola para a perua de binóculos? A ideia me veio agora…) O que reforça minha teoria infantil de que Suzon estava absorta, perdida em pensamentos, no mundo da lua. Ha ha ha, ganhei!

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O diagrama de Malcolm Park deixa tudo bem explicadinho

Depois dessa primeira reconstrução fotográfica, o teórico de arte moderna e contemporânea belga Thierry de Duve encontrou outras possibilidades óticas que resolveriam o enigma, alegando que Manet teria representado na tela dois momentos diferentes: o espelho teria sido deslocado, assim como o homem de cartola, e a pintura seria resultado da sobreposição desses dois instantes (confesso que não entendi muito bem, mas aqui está o texto de de Duve, para quem tiver disposição de rachar a cuca). O teórico belga, no entanto, não descarta a hipótese de Malcolm Park. Assinala que as duas sugestões são possíveis e levam à mesma conclusão: “A pintura obedece tão exatamente às leias da ótica e às regras de perspectiva e não deixa dúvidas de que a construção foi intencional, não poderia ter sido feita ao acaso”.

O QUE TEMOS PARA BEBER HOJE, SUZON?

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A garrafa verde é de creme de menta e a cerveja inglesa Bass, fabricada desde 1777 até hoje, já trazia o inconfundível triângulo vermelho no rótulo

As polêmicas em torno de Um Bar no Folies Bergère não param por aí, suscitam tantas outras análises estéticas, políticas, psicológicas e sociais. Há a teoria de que Manet, nesta e em outras telas, tenha retratado de maneira positiva a posição da mulher na época. Como observadores dos costumes do seu tempo, os impressionistas revelavam interações entre classes sociais e uma nova presença feminina na sociedade (estamos falando de Paris, sempre mais avançadinha que o resto do mundo). De acordo com o viés feminista, Suzon é uma mulher aparentemente independente, tem um emprego, é dona do seu nariz e poderia muito bem dizer ao chapeludo: “Meu corpo, minhas regras”. Hoje pode parecer banal, mas Manet é um dos primeiros artistas a retratar uma mulher nessa posição, fora do ambiente doméstico.

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A Pale Ale Bass hoje

Para a turma do dringue, a discussão é bem outra. Quais seriam as bebidas oferecidas no bar pilotado por Suzon? A charada mais fácil de matar é a da cerveja Bass, Pale Ale produzida na Inglaterra desde 1777 e portanto com mais de 100 anos de história quando incluída por Manet nas duas extremidades da tela. O triângulo vermelho, que caracteriza a marca até hoje, é inconfundível. Em 1882, a Bass era a maior cervejaria do mundo e natural que fosse popular na França, país de pouca tradição cervejeira. A garrafa da Bass, já no século 20, foi tema de uma série de composições cubistas de Georges Braque e Pablo Picasso. Até pouco tempo era importada no Brasil, mas anda sumida das nossas prateleiras.

Num lugar em que os ricos regozijavam-se, também seria natural encontrar Champagne. Aparecem seis garrafas, mas até hoje não há resposta sobre a marca preferida do pintor – ou ao menos usada como modelo. A garrafa verde que aparece ao lado do prato com laranjas ou mandarinas (dizem alguns críticos que, em Manet, a cor laranja indica a prostituição) foi apontada como absinto por observadores menos avisados. Vamos na cola da falecida Françoise Cachin, historiadora, curadora de arte e diretora fundadora do Museu D’Orsay. Ela garantia tratar-se de creme de menta (crème de menthe), até hoje envasado em garrafas com esse formato. Quem somos nós para discutir?

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Champagne aos borbotões e a garrafa vermelha que ainda levanta dúvidas: vinho rosé, vermute ou grenadine?

A garrafa vermelha que também aparece nas duas pontas do quadro é outro mistério. Tendo a crer que é vinho rosé, mas há quem a identifique como vermute tinto ou grenadine, xarope à base de romãs. Na da esquerda Manet deixou sua assinatura e a data da tela. Lamentavelmente, o próprio pintor não pôde solucionar nenhuma dessas dúvidas: Um Bar no Folies Bergère foi sua última grande obra. Ele morreu pouco depois, em 1883, devastado pela sífilis.

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Para ver a tela grandona, CLIQUE AQUI.

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