Museu da Manguaça Vol. 2 – A arte na publicidade do aperitivo francês Lillet, do século 19 ao 21

O vinho com quinina que aparece no Vesper Martini, drinque preferido de James Bond, acaba de chegar ao Brasil. Conheça a história dessa bebida que faz a cabeça da alta sociedade desde os tempos em que a moda era dançar o charleston e que sempre soube unir arte e publicidade. No final do post, receitas tradicionais com Lillet e uma invenção tropical da bartender Flavia Suppi com cachaça

Por Sergio Crusco

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O traço finório do artista francês Matthieu Forichon ilustrou uma série de peças de Lillet em 2011, quando a marca lançava seu aperitivo rosé

O Lillet chegou no final do ano passado ao Brasil, causando alvoroço nos bares de coquetelaria e nos palácios do bom gosto. Lalás e Lulus apressaram-se em postar poses estudadamente espontâneas com suas taças douradas de Lillet Blanc na mão. Pega bem: é uma bebida singularmente cobiçada pelos bartenders, de tradição centenária, receita em parte misteriosa (nunca se soube exatamente como é feita). Uma publicidade bem cuidada desde os primórdios, do final do século 19 até os dias de hoje, sempre relacionou a marca com a boa vida e as altas rodas, com a colaboração de artistas talentosos e influentes em suas campanhas. E ainda teve o escritor inglês Ian Fleming, que em seu romance Casino Royale, de 1953, colocou James Bond pedindo um drinque com Lillet ao bartender. Desde então é chique beber um Vesper Martini nos balcões do mundo. Chique agora no Brasil também. Embora haja controvérsias…

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A primeira propaganda da Kina Lillet, datada de 1896, anunciando o produto criado com vinhos da Gironde, estado francês onde nasceu a bebida

A data impressa na garrafa atual do Lillet faz entender que a bebida existe desde 1872, o que não é verdade. Este foi o ano de fundação da Maison Lillet, entreposto de vinhos, licores e destilados, por Jean Lillet, pai de Raymond e Paul, na pequena vila de Podensac, Graves, muito próxima a Sauternes, ambas sub-regiões vinícolas de Bordeaux. A Kina Lillet só foi aparecer em 1887, criada pelos filhos de Jean, seguindo uma tendência da época: vinhos fortificados com adição de quinina, extraída da casca da árvore cinchona, a mesma substância que dá amargor à água tônica. A cinchona estava na moda, era sorvida por exércitos para evitar a malária em lugares insalubres do planeta. Vinhos preparados com raízes, cáscaras, ervas e flores eram panaceias populares, acreditava-se que curavam desde males estomacais a trimiliques d’alma. Logo constatou-se que não eram exatamente milagrosos, porém bastante gostosos.

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Em 1904, uma figura sofisticada de dama da Belle Époque, pronta para o baile, sugeria: “Peça um Lilet” (nesta e em outras publicidades ele apareceu grafado sem mo “l” dobrado). A associação com o luxo e as altas rodas tornou-se constante na comunicação da marca, até hoje. O desenho é atribuído a Georges Dola, artista francês famoso suas capas de partituras

Antes da Kina Lillet, já existiam na França outros vinhos tônicos ou aperitivos. O St. Raphael (l’apéritif de France, como ainda diz a propaganda), o Dubonnet e o Bonal estão no mercado até hoje. O Vin Mariani também era bem famoso e, além da quinina, tinha (upa-lá-lá!) cocaína em sua composição. Foi fortemente recomendado pelo Papa Leão XIII, fã confesso daquela bebida estimulante. Talvez pelo up que o Mariani causasse, Leão tenha relatado a visão de uma conversa entre Deus e o diabo (não propriamente na Terra do Sol).

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Na Exposição de Roubaix, em 1911, a Maison Lillet botou pra quebrar, com um quiosque cheio de perecoteco, onde era possível provar a Kina Lillet e os vinhos de Sauternes, vendidos pelos irmãos Raymond e Paul

A Kina Lillet chegou ao mercado com personalidade e novidade: era o primeiro aperitivo do tipo feito a partir de vinhos brancos. Além da quinina, era adicionada ao vinho uma maceração em álcool de cascas de diferentes laranjas, doces e amargas. Pelo que consta, Raymond Lillet era o mais esperto em termos de propaganda e chegou a criar alguns dos primeiros cartazes da marca. Um maroto: em certas peças publicitárias, misturava as palavras “Lillet” e “Sauternes” dando a entender que seu aperitivo era elaborado a partir dos magníficos vinhos de sobremesa com a denominação de origem Sauternes. Na época, essa denominação era mais ampla, estendia-se a outros vinhos da região, não apenas aos de sobremesa (como acontece hoje). O nome Sauternes, porém, já era entendido pelos conhecedores como sinônimo dos vinhos doces obtidos a partir de uvas atacadas pelo fungo Botrytis cinerea, causando a chamada podridão nobre (isso mesmo, é podre mas é nobre, pois os Sauternes são espetaculares). De qualquer forma, entravam e entram na fórmula do Lillet as uvas brancas mais comuns da região: Sauvignon Blanc, Sémillon e Muscadelle.

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Placa all types antiga de Lilet Dry (para exportação) perdida em algum rincão da França. Fotografia de Lezzles

É vermute ou não é?

Há quem classifique o Lillet como vermute. A maioria dos estudiosos, catalogadores de manguaça e bons bebedores, no entanto, consideram o Lillet e seus primos quininos Dubonnet e St. Raphael vinhos tônicos. Na Kina Lillet original, por exemplo, excetuando-se a cinchona, não existia a marcada presença de ervas, característica fundamental dos vermutes. É também frequentemente definido como aperitivo, guarda-chuva mais amplo para bebidas que abrem o apetite (do latim, aperire) e que também incluem os próprios vermutes, outros vinhos fortificados (Jerez, Madeira), bitters, licores de ervas e até os Champanhes e espumantes. De acordo com a legislação brasileira, Lillet é um vinho composto quinado branco doce.

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Numa rara associação de Lillet com o esporte, este cartaz da década de 1920 foi criado pelo grande desenhista e cartunista francês André Galland. Impresso para ser distribuído em cafés, tinha espaço para o comerciante anunciar pratos do dia e outras promoções

Nos anos 1920, a marca ultrapassou fronteiras, com sua inclusão em cartas de bebidas de transatlânticos. Na época, as pessoas se deslocavam de um continente ao outro apenas de navio e tinham todo o tempo do mundo para bebericar e comentar as últimas modas dos salões. As que frequentavam a primeira classe certamente tinham acesso às melhores bebidas – e assim firma-se a associação do Lillet com a high society. Nos anos 1950, a bebida ganhou uma ilustre garota propaganda: Bessie Wallis Warfield, a Duquesa de Windsor, casada com Eduardo VIII, que abdicou do trono da Inglaterra, tornando-se duque. Diz a história que Bessie pedia Lillet onde quer que estivesse e até viajava com algumas garrafas mocozadas na mala, caso no próximo porto não houvesse sua bebida xodó.

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Detalhe bem humorado de uma ventarola promocional da Kina Lillet, também nos anos 1920

Na primeira metade do século 20, americanos apaixonaram-se pelo Lillet, que ganhou os bares de Nova York, puro ou em coquetéis. Quem levou a melhor, porém, foram os ingleses, com uma versão exclusiva para seu mercado, o Lillet Dry. A Kina Lillet aparece como ingrediente do Corpse Reviver #2 na primeira edição de The Savoy Cocktail Book (1930), do bartender londrino Harry Craddock. São quatro partes iguais de Kina, Cointreau, Dry Gin e suco de limão, mais um dash de absinto, tudo batido na coqueteleira e coado para a taça. Craddock brinca com o nome do drinque, Levanta Defunto, e avisa: “Quatro desses bebidos em seguida vão matar o cadáver novamente”.

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Em 1937, a marca fez sua primeira campanha internacional, focando especialmente os Estados Unidos. Este cartaz do ilustrador Robert Wolff (conhecido como Robys) personifica a alegria de beber Lillet: a moça parece estar vestida com as uvas brancas de Bordeaux ou mesmo brotar da terra. A imagem é reproduzida e usada decorativamente até hoje

Aí bate aquela vontade de tomar um drinque clássico com Lillet. Você vai a um bar bacana, pede um Vesper Martini, o preferido do 007. Arruma o cabelinho, estufa o peito, capricha no olhar blasé, posta a pose no Instagram e ganha um mundo de likes. Mas temos o dever de dizer que você não está bebendo o Martini de James Bond: três medidas de Gordon’s Gin, uma medida de vodca e meia medida de Kina Lillet. Por um motivo simples: em 1986, o Kina Lillet foi substituído pelo Lillet Blanc, versão mais doce e com porcentagem muito mais baixa de quinino. A receita descrita por Ian Fleming em Casino Royale hoje parece ser impossível de ser reproduzida.

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Anúncio de 1950 na revista inglesa Country Life. O poeminha rima Lillet com Monet, concluindo que é melhor pedir um coquetel de gim com o aperitivo do que suspirar em frente a uma obra de arte (tendo a concordar). A receitinha é 2/3 de gim, 1/3 de Lillet (provavelmente Dry) e um dash de bitter de laranja ou um twist de casca de limão.

Nos anos 1970, a marca já havia tirado a palavra “Kina” do nome, transformando-o em Lillet, simplesmente. Havia muita quina daqui, muita quina dacolá, e eles quiseram manter sua individualidade no mercado. Em 1986, com a mudança da fórmula, estudada em conjunto com o instituto de enologia da Universidade de Bordeaux, optaram por uma bebida menos amarga (reduzindo drasticamente a presença da quinina) e portanto de paladar mais fácil para um número maior de pessoas. Aquela nivelada pela média (às vezes, por baixo) que a indústria alimentícia e de bebidas costuma dar quando quer ganhar mercado.

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Desenho de autoria desconhecida de 2007, que faz uma composição aérea dos elementos que compõem o LilletBlanc: as folhas de parreira, as uvas brancas, as laranjas e o gelo recomendado no rótulo – “servir très frais”

Segundo o bartender Dillon Mafit, editor do site Supercall, o Vesper Martini preparado com Lillet Blanc é uma experiência sacarínica, xaroposa e unidimensional. “Como resultado, o Vesper sofreu e transformou-se numa sombra do que já foi”, diz (resta saber se, com a cara de moleque que ele aparenta, já tinha idade para beber Vespers com Kina Lillet antes de 1986 – ah, os millennials…). Há quem diga que Ian Fleming e seu agente galante sejam dois sem noção: o Vesper em si já seria uma abominação, por incluir vodca numa receita que deveria levar apenas gim e vermute, e por bater o coquetel em vez de mexer. Segundo o bartender e autor inglês Tony Conigliaro, a ideia toda de Ian Fleming é meio disparatada: “O Vesper não é particularmente um bom coquetel. Tendo a pensar que, se você quer um drinque de vodca, peça um drinque de vodca. Se você quer um drinque de gim, peça um drinque de gim. E Lillet é adorável, mas muito melhor como aperitivo, antes do jantar, do que misturado num coquetel”.

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Imagem solar criada pela ilustradora sueca Stina Perrson para publicidade da marca em 2008

Mafit, porém, não deixa ninguém na mão, listando alguns substitutos do Kina Lillet para o preparo do Vesper – todos eles indisponíveis no Brasil, exceto a Angostura. O bartender acredita que alguns dashes do bitter caribenho, agregados ao Martini com Lillet Blanc, são suficientes para devolver o toque de amargor da receita lançada por Fleming. O drinque não fica cristalino como deveria, mas ganha em sabor, diz. Outra opção citada por Mafit e mais alguns especialistas é o Cocchi Americano, vinho branco composto com diversos botânicos, incluindo a cinchona, a artemísia, o zimbro, a genciana e as cascas de laranja. Por fim, ele sugere o Reserve Jean de Lillet, outro produto da marca, com formulação mais próxima à da Kina Lillet, envelhecido em carvalho por 12 meses antes de ser engarrafado e com potencial de guarda calculado em 20 anos ou mais. “Traz complexidade ao coquetel. Tem sabor denso de mel e um agudo final amargo”, aponta. É mais complexo no bolso também: uma garrafa de 750 ml está na faixa dos 35 euros. Além do Lillet Blanc e do Reserve, a marca ainda conta com o Lillet Rouge (tinto), lançado em 1986 (também com uma versão Reserve) e o Lillet Rosé, que apareceu apenas em 2011 – diz a empresa que por causa de uma demanda do público feminino.

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Outro desenho de Matthieu Forichon, celebrando a alegria de beber Lillet Rosé nas ruas de Paris e reverenciando o famoso cartaz de Robys

RECEITAS COM LILET

Vesper Martini

Se o hype é mais forte e você não quer deixar de provar o Vesper, anote as medidas

90 ml de gim

30 ml de vodca

15 ml de Lillet Blanc

James Bond pedia para bater o coquetel. Portanto, se quer ser fiel à literatura de Ian Fleming, bata os ingredientes na coqueteleira com gelo e coe para uma taça martini previamente resfriada. Decore com uma casquinha de limão siciliano.

As medidas acima são boas para quem quer chapar o coco logo de uma vez no primeiro coquetel. Se quiser uma versão menos poderosa do Vesper (porém ainda porreta), reduza as medidas para 60 ml de gim, 20 ml de vodca e 10 ml de Lillet.

Lillet Vive

Lillet com tônica é uma das formas mais agradáveis e refrescantes de consumir o aperitivo. Confira a sugestão da marca

50 ml de Lillet Blanc

100 ml de água tônica

1 fatia de morango

1 fatia fina de pepino cortada de comprido

1 raminho de hortelã

Gelo

Encha um copo alto com cubos de gelo, adicione o Lillet, a fatia de pepino e complete com a tônica. Decore com o morango e o ramo de hortelã.

Prece de Um Mineiro

A bartender Flavia Suppi já tropicalizou o Lillet numa receita com cachaça, que apresentou na última edição do Concurso Nacional de Rabo de Galo, com inspiração num poema de Carlos Drummond de Andrade

60 ml de cachaça Espírito de Minas Ouro (envelhecida em carvalho)

20 ml de Lillet Blanc

20 ml de amaro Averna

2 sprays de água de flor de laranjeira

Coloque a cachaça, o Lillet e o amaro num copo de misturas com gelo e mexa até gelar. Coe para uma taça coupe previamente resfriada. Finalize com duas borrifadas de água de flor de laranjeira sobre a taça.

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