0

Conheça Melicana, a aguardente de mel

Não é cachaça. É destilado do mel, receita tradicional de Minas Gerais só agora lançada largamente no mercado. Para fundir a cuca – e espalhar uma doçura bem sutil por aí…

Por Sergio Crusco

arte mel

Beautiful girl playing viola in honeycomb dress and hair, óleo sobre tela de Andrew Merenkov

Se você pensa que Melicana é cachaça, Melicana não é cachaça, não. Embora o nome terminado em “cana” confunda um bocado, de garapa ou melaço ela não tem nada. Também não vá pensar que se trata de uma bebida “com” adição de mel. Ela é destilada “a partir” do mel de abelha. Fermentou o mel, destilou, deu aguardente. Simples assim. Melicana, de fato, é o nome da destilaria que produz essa bebida pouco comum, mas corre o risco de ficar na história como marca que acaba dando nome ao produto, tipo Gillette.

A receita era popular na região de Bom Despacho, centro-oeste de Minas Gerais, onde alguns destiladores informais a preparavam. O empresário José Carlos de Assis, que até o momento não atuava no ramo de bebidas, resolveu aperfeiçoá-la, um Professor Pardal do alambique. Foram quase dez anos de testes e provas entre amigos, até que sua mulher, Lélida Assis, exigiu uma posição ante ao mar de aguardente que se avolumava em seu galpão de experiências: “O que vamos fazer com tanta bebida estocada? Vamos tratar de vender!”, tomou a dianteira. Nasceu a marca. Continuar lendo

2

Edgar Allan Poe, Pedro Bó e uma prova de vinhos e brandies de Jerez

Em um de seus contos, Allan Poe narra uma cilada em que a promessa de um barril de Jerez Amontillado seduz a vítima. Sem fantasmagorias por perto, e a convite de um bom amigo, provar esses vinhos fortificados espanhóis, e o Brandy deles destilado, é puro prazer

Por Sergio Crusco

13_rackham_poe_caskofamontillado

Ilustração de Arthur Rackham para O Barril de Amontillado (1935)

Dia desses um amigo me chama, avisando que haverá uma degustação de vinhos espanhóis de Jerez, estou convidadíssimo. Animo-me, lembro imediatamente do conto de Edgar Allan Poe, O Barril de Amontillado, de 1846, e releio a história esquecida desde os tempos de adolescência. Desanimo-me à primeira linha, trata-se de uma bruta vingança, que começa com o convite para uma prova de vinho – o Amontillado, especificamente. O tétrico desfecho vem à mente antes que eu termine a leitura. Embora meu amigo seja boa gente e não imagino que tenha a intenção de me emparedar nas profundezas de uma catacumba, como o narrador Montresor faz com o fanfarrão Fortunato (pronto, contei), um chamado para provar Amontillado dá aquele frisson, um tã tã tã tã de Beethoven. Mesmo porque eu nunca havia posto um deles na boca.

Continuar lendo

2

Novo livro de Ruy Castro conta a história do samba-canção: um roteiro encharcado de amor e uísque

O circuito de boates cariocas que bombou nas década de 1950 é o cenário da obra do jornalista e escritor. Grã-finos, cantores, compositores, políticos, cronistas, clássicos da canção romântica e uma quantidade oceânica de uísque são os personagens dessa história cheia de histórias. Conheça algumas delas como aperitivo, depois corra para ler o livro, saboreando bons rótulos que indicamos no final do post – harmonizados com um punhado de sambas-canção

Por Sergio Crusco

vinicius-dorival

Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi: laços de amizade estreitados por um carregamento pesado de uísque escocês Vat 69, quando o samba-canção era o último grito nas boates cariocas

Supõe-se que o uísque tenha desempenhado um papel mais importante do que mero coadjuvante nas longas noites de boemia da época de ouro do samba-canção, no Rio de Janeiro dos anos 1950.

Quando Dorival Caymmi mostrou que sabia fazer mais do que belas canções praieiras de inspiração solar e baiana – e apresentou ao mundo sua face noturna, urbana e carioca em sambas lentos como Sábado em Copacabana, Você Não Sabe Amar, Não Tem Solução –, atribuiu parceria ao playboy e milionário Carlos Guinle, herdeiro do Copacabana Palace, em sete dessas obras-primas.

Continuar lendo

2

Bebendo tequila com Frida Kahlo

Tequila era a bebida preferida de Frida Kahlo, que a consumia em doses industriais, com a mesma paixão com que amava o pintor Diego Rivera, cuidava da casa, cozinhava, contava piadas cabeludas e celebrava a vida com os amigos – apesar das dores exasperantes que sofreu

Por Sergio Crusco

Frida-Kahlo-edit

Frida Kahlo: artista revolucionária e dona de casa prestimosa

“Eu bebo para afogar minhas mágoas, mas as malditas aprenderam a nadar”, dizia Frida Kahlo (1907-1954). Tinham fôlego de campeão olímpico, as danadas. Na conta da biógrafa Hayden Herrera, autora de Frida – A Biografia (2013), a pintora mandava uma garrafa de tequila por dia. Às vezes dispensava o copo, ia direto no gargalo, o que fazia brotar o vulcão de anedotas apimentadas com que adorava brindar seus convidados, na casa onde não faltava festa, embora as mágoas que a anfitriã tentasse afogar fossem muitas.

Continuar lendo

2

Você é pinguço?

A cachaça aparece em drinques cada vez mais chiques, que em nada lembram a não menos gostosa caipirinha. Aprenda a prepará-los com o bartender Kascão Oliveira e entenda um pouco sobre o preconceito histórico sofrido pela nossa boa e velha pinga – o que leva até hoje qualquer bebedor mais atirado a ser chamado de pinguço

Por Sergio Crusco

Cachaca Wiba Barman - Kascao Oliveira Wiba Wasabi

É de cachaça com wasabi, tá? E não digam que não é chique

O filho de uma amiga, em certa fase da infância, veio com a ideia engraçada de perguntar aos adultos, fazendo cara marota: “Você é pinguço?”

A mãe, vermelha como Bloody Mary (bebida que ama), explicava: “Filhinho, somos pessoas refinadas, bebemos bebidas de qualidade. Pinguço é quem bebe cachaça na esquina”.

À parte as conclusões sociológicas que se possa tirar da conversa, sempre me divertia com a pergunta e respondia: “Eu? Sou bem pinguço”. Ele morria de rir.

Continuar lendo

1

Bebendo com Humphrey Bogart

O herói de Casablanca sempre viveu três doses de uísque à frente da humanidade. Podia ser puro, com gelo ou num drinque que ninguém sabe de onde veio: o Scotch Mist, que lembra as brumas londrinas 

Por Walterson Sardenberg Sº

bogart_DEAD_RECKONING-6

Bogart bebia bem – quer dizer, muito – e às vezes aprontava travessuras como empurrar seus convidados na piscina. Mas Hollywood achava que ele ficava ótimo com copo na mão. Nós também

Segundo muita gente boa, um dono de bar de respeito não instala aparelho de TV no ambiente. Além disso, nunca mistura uísque com energético. Jamais. Se algum insensato freguês — sim, bar tem freguês; quem tem cliente é dentista — quiser fazê-lo, que o faça por própria conta. Veja bem, ninguém está afirmando que não se deva misturar o uísque a outros líquidos. Em casos extremos, isso pode ser até recomendável.

Continuar lendo

0

O dia em que a Porradinha me fez virar na Linda Blair

O primeiro porre, quem não esquece? Basta um jerico vir com a ideia — e outro asno acatar. Se a pedida for Porradinha, as chances de precisar chamar um exorcista são grandes. Mas há um jeito mais fino de saboreá-la, como ensina o chefe de bar do restaurante paulistano Tuju

Por Sergio Crusco

linda_blair_exorcista

Virei na Linda Blair, jurei que aquilo não mais me pegava, mas quem nunca descumpriu a promessa?

— É. Esse tapete vamos ter de jogar fora.

Foi a primeira frase que ouvi pela manhã, a voz de Zuleica, dona da pensão, dando ordens à empregada de como colocar tudo em ordem depois do vexame da noite anterior. Uma dor de cabeça miserável, a sensação de atropelo por uma jamanta, a vergonha de ter sido responsável pela perda total do tapetinho que guarnecia a entrada do banheiro comunitário e pelo trabalho quintuplicado e infame causado à pobre faxineira.

Foi a primeira ressaca e pela primeira vez a promessa de nunca mais chegar àquele ponto. Devidamente não cumprida. Quem nunca fez a promessa?

Continuar lendo